MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

terça-feira, 18 de julho de 2023

Ao centro: o perfil dos eleitores que rejeitam Lula e Bolsonaro.

 

BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

Levantamento inédito detalha as prioridades desse imenso (e complexo) contingente de pessoas. Não será fácil conquistá-las em 2026. Reportagem da revista Veja:


No auge das articulações pré-eleitorais, entre o final de 2021 e o início de 2022, havia nada menos que treze políticos de centro dispostos a tentar quebrar a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Chamada de terceira via, a longa lista de nomes foi definhando, deixando pelo caminho gente grande como o governador paulista João Doria e o ex-ministro Sergio Moro, até chegar a cinco candidatos, que, somados, levaram pífios 8,2% dos votos válidos. Se é verdade que nove entre dez eleitores acabaram escolhendo, mesmo que a contragosto, um dos favoritos, também foi estridente a constatação de que um enorme contingente de 38 milhões de brasileiros (um quarto do total apto a votar) recusou-se a empenhar apoio a qualquer um dos dois: 5,7 milhões votaram em branco ou nulo, e 32,2 milhões nem foram às urnas.

Esse imenso público continua por aí, sem se engajar com a esquerda ou a direita. Pesquisas Datafolha, Ipec e Quaest divulgadas em junho mostraram que é possível dividir o sentimento do eleitor com o governo Lula em três blocos com tamanhos parecidos: os que apoiam o petista, os que o rejeitam e aqueles que acham regular o seu mandato. A questão que intriga desde 2022 é a seguinte: o que é, afinal, esse segmento, que não é seduzido pelos extremos, mas não foi capturado pelas forças moderadas de centro? Um estudo inédito e exclusivo, feito pelo Instituto Locomotiva em parceria com a Agência Ideia, mostra que esse eleitor é complexo e vai exigir mais esforço do que se dispendeu até aqui para ser conquistado.


Uma das principais constatações é que esse eleitorado “nem-nem” está longe de ser um bloco homogêneo e tampouco pode ser colocado nas velhas caixinhas ideológicas de direita ou de esquerda. Ao mesmo tempo em que ele defende a vacina contra a Covid-19 e critica quem atuou contra ela (o que o coloca contra o bolsonarismo), uma folgada maioria acha que o aborto é crime (o que a deixa ao lado dos conservadores). Também é possível constatar a pluralidade ideológica ao ver que esse contingente apoia posições mais à esquerda, como maior intervenção do Estado na economia e controle rígido de armas, mas se divide em temas como descriminalização da maconha e identidade de gênero (veja quadros nesta reportagem).

Uma outra conclusão é o alto nível de distanciamento desse eleitor do debate político. A grande maioria não tem opinião sobre o papel do STF, a presença de militares no governo, a segurança das urnas eletrônicas e a política tributária, todos temas que estão ou estiveram recentemente na agenda nacional. “O eleitor sente que as pautas de natureza ideológica são impostas pelos candidatos e perde o interesse”, avalia Renato Meirelles, diretor do Locomotiva.


O típico nem-nem se mostra mais mobilizado frente a questões concretas, por isso tende a opinar mais sobre armas e aborto do que sobre o papel das instituições na democracia. Alguns temas entram e saem do radar de interesses do eleitorado. A fome, por exemplo, voltou a ser um tema importante, algo que não ocorria desde 2002. Por outro lado, a corrupção, protagonista em 2018, sumiu na última eleição e nada indica que dará as caras na próxima. Em 2022, discussões sobre temas relacionados a costumes e a respeito do combate à Covid-19 provocaram faíscas, sendo que Lula e Bolsonaro monopolizaram desde o início esses debates.

A tendência é que essa polarização persista, pois ainda não há no horizonte uma outra forte liderança nacional. Além da falta desse nome, há uma barreira natural formada por Lula e Bolsonaro. Mesmo que não sejam candidatos, é certo que serão os principais cabos eleitorais dentro de seus respectivos campos ideológicos. “O eleitor de centro espera um político ideal, que não existe e não vai existir enquanto Lula e Bolsonaro não forem exauridos”, avalia Murilo Hildalgo, presidente do Instituto Paraná Pesquisas. Essa concentração de votos em duas vertentes políticas lembra os Estados Unidos, dividido entre Democratas e Republicanos. Em 2020, Joe Biden e Donald Trump levaram 98,2% dos votos, algo muito próximo ao que ocorreu no Brasil, onde Lula e Bolsonaro tiveram 91,8%. Muitos entendem que o Brasil está se aproximando desse modelo.

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