BLOG ORLANDO TAMBOSI
Levantamento inédito detalha as prioridades desse imenso (e complexo) contingente de pessoas. Não será fácil conquistá-las em 2026. Reportagem da revista Veja:
No
auge das articulações pré-eleitorais, entre o final de 2021 e o início
de 2022, havia nada menos que treze políticos de centro dispostos a
tentar quebrar a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.
Chamada de terceira via, a longa lista de nomes foi definhando,
deixando pelo caminho gente grande como o governador paulista João Doria
e o ex-ministro Sergio Moro, até chegar a cinco candidatos, que,
somados, levaram pífios 8,2% dos votos válidos. Se é verdade que nove
entre dez eleitores acabaram escolhendo, mesmo que a contragosto, um dos
favoritos, também foi estridente a constatação de que um enorme
contingente de 38 milhões de brasileiros (um quarto do total apto a
votar) recusou-se a empenhar apoio a qualquer um dos dois: 5,7 milhões
votaram em branco ou nulo, e 32,2 milhões nem foram às urnas.
Esse
imenso público continua por aí, sem se engajar com a esquerda ou a
direita. Pesquisas Datafolha, Ipec e Quaest divulgadas em junho
mostraram que é possível dividir o sentimento do eleitor com o governo Lula
em três blocos com tamanhos parecidos: os que apoiam o petista, os que o
rejeitam e aqueles que acham regular o seu mandato. A questão que
intriga desde 2022 é a seguinte: o que é, afinal, esse segmento, que não
é seduzido pelos extremos, mas não foi capturado pelas forças moderadas
de centro? Um estudo inédito e exclusivo, feito pelo Instituto
Locomotiva em parceria com a Agência Ideia, mostra que esse eleitor é
complexo e vai exigir mais esforço do que se dispendeu até aqui para ser
conquistado.
Uma
das principais constatações é que esse eleitorado “nem-nem” está longe
de ser um bloco homogêneo e tampouco pode ser colocado nas velhas
caixinhas ideológicas de direita ou de esquerda. Ao mesmo tempo em que
ele defende a vacina contra a Covid-19 e critica quem atuou contra ela
(o que o coloca contra o bolsonarismo), uma folgada maioria acha que o
aborto é crime (o que a deixa ao lado dos conservadores). Também é
possível constatar a pluralidade ideológica ao ver que esse contingente
apoia posições mais à esquerda, como maior intervenção do Estado na
economia e controle rígido de armas, mas se divide em temas como
descriminalização da maconha e identidade de gênero (veja quadros nesta
reportagem).
Uma
outra conclusão é o alto nível de distanciamento desse eleitor do
debate político. A grande maioria não tem opinião sobre o papel do STF,
a presença de militares no governo, a segurança das urnas eletrônicas e
a política tributária, todos temas que estão ou estiveram recentemente
na agenda nacional. “O eleitor sente que as pautas de natureza
ideológica são impostas pelos candidatos e perde o interesse”, avalia
Renato Meirelles, diretor do Locomotiva.
O
típico nem-nem se mostra mais mobilizado frente a questões concretas,
por isso tende a opinar mais sobre armas e aborto do que sobre o papel
das instituições na democracia. Alguns temas entram e saem do radar de
interesses do eleitorado. A fome, por exemplo, voltou a ser um tema
importante, algo que não ocorria desde 2002. Por outro lado, a
corrupção, protagonista em 2018, sumiu na última eleição e nada indica
que dará as caras na próxima. Em 2022, discussões sobre temas
relacionados a costumes e a respeito do combate à Covid-19 provocaram
faíscas, sendo que Lula e Bolsonaro monopolizaram desde o início esses
debates.
A
tendência é que essa polarização persista, pois ainda não há no
horizonte uma outra forte liderança nacional. Além da falta desse nome,
há uma barreira natural formada por Lula e Bolsonaro. Mesmo que não
sejam candidatos, é certo que serão os principais cabos eleitorais
dentro de seus respectivos campos ideológicos. “O eleitor de centro
espera um político ideal, que não existe e não vai existir enquanto Lula
e Bolsonaro não forem exauridos”, avalia Murilo Hildalgo, presidente do
Instituto Paraná Pesquisas. Essa concentração de votos em duas
vertentes políticas lembra os Estados Unidos, dividido entre Democratas e
Republicanos. Em 2020, Joe Biden e Donald Trump levaram 98,2% dos
votos, algo muito próximo ao que ocorreu no Brasil, onde Lula e
Bolsonaro tiveram 91,8%. Muitos entendem que o Brasil está se
aproximando desse modelo.



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