BLOG ORLANDO TAMBOSI
O século passado se viciou nas explicações puramente econômicas. O nosso século, por outro lado, parece ser viciado nas explicações puramente culturais, cego às questões econômicas. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Creio
que eu deva bater numa tecla: as explicações para a decadência de
instituições outrora respeitadas, tais como a grande mídia e a
universidade, devem incluir a idiotia de elementos da classe que a
compõem, mas tal idiotia não é explicação suficiente. As coisas mudaram
demais num curto espaço de tempo; além disso, a idiotia de uns pode ser
contrabalançada pela argúcia de outros. Em qualquer profissão,
encontramos idiotas. O difícil é profissões que outrora demandavam
argúcia de repente parecerem ter apenas imbecis. Hoje todos os
opositores do politicamente correto abominam a Globo. No entanto, um de
seus quadros mais poderosos escreveu um livro cujo título é Não somos
racistas (Nova Fronteira, 2007), defendendo o Brasil. Ali Kamel não
morreu, nem consta que tenha mudado de ideia. Ele existe, só não tem
mais o mesmo poder ou a mesma liberdade.
O
século passado se viciou nas explicações puramente econômicas. Por isso
o marxismo fez tanto sucesso: enquanto os EUA ascendiam à condição de
potência global por meio das armas e impunham o liberalismo econômico,
estava à mão a obra de Marx, que explicava o mundo por meio da economia e
dos conflitos de classe. Não faltaram críticos ao marxismo que
apontassem a pobreza de se considerar que tudo era economia.
Provavelmente o mais famoso desses críticos é Max Weber, que atribuiu o
capitalismo ao espírito.
O
nosso século, por outro lado, parece ser viciado nas explicações
puramente culturais, cego às questões econômicas. Deu-se um jeito até de
subverter o marxismo e fazê-lo tratar somente de costumes, tomando o
pseudomarxismo da Escola de Frankfurt como sinônimo de marxismo. Os
países que passaram por revoluções marxistas implementaram regimes
abertamente contrários à homossexualidade, mas, à direita e à esquerda,
acredita-se que defender neutralidade estatal perante os gays é
marxismo. Não é; é liberalismo. O liberalismo impede que o Estado, mesmo
democraticamente, adote uma definição de bem comum para guiar a
sociedade. Em vez disso, para o liberalismo, o Estado serve para
“libertar” os indivíduos da cultura, lançando-os por padrão numa
indefinição moral. Cada um deve decidir o que é bom – como se fosse
possível tomar essa decisão num nível estritamente individual, com cada
qual reinventando a roda sozinho em sociedade.
Espero
ter mostrado no meu último artigo que é preciso atentar às corporações
transnacionais da educação – as donas das faculdades caça-níqueis – para
explicar a política de cotas nas universidades federais. O PT, um
partido com preço, matou a universidade pública e assim o alunado
brasileiro passou a ter que estudar em universidades privadas caras caso
queira ter um diploma respeitável. Ao mesmo tempo, impôs de cima para
baixo a uniformidade ideológica nas federais. Uniformidade, aliás, que
existe nos EUA e na Europa graças ao dinheiro privado de figuras como
George Soros, um especulador do mercado financeiro que saiu quebrando
bancos públicos na Europa. Não à toa, esse neoesquerdismo que virou
ideologia oficial das universidades públicas é a mesma ideologia que
viceja nos departamentos de RH das corporações transnacionais. Essa
esquerda não quer mais tomar a propriedade de Soros; quer que Soros lhes
dê um cabide de emprego e garanta cotas. Isso não tem nada a ver com
crítica econômica marxista.
O outro caso de cegueira para questões econômicas é a imigração na Europa. Começa que a política de open borders foi aprovada na marra pelo STF de lá da União Europeia,
sem um voto do cidadão francês ou alemão, e num nível superior ao
nacional. Vejam bem: a Europa perdeu para os EUA duas guerras mundiais e
teve de adotar modelos políticos ao estilo do vencedor. Primeiro teve
que virar República democrática (a Alemanha não topou Weimar e armou
mais uma guerra); depois, teve que virar essa juristocracia de moeda
única que é hoje. Mas a culpa, segundo o fã clube de Olavo de Carvalho, é
de Gramsci e da União Soviética. Não tem nada a ver com os EUA, um país
muito melhor do que o nosso, onde todo o mundo ganha em dólar e fala
inglês desde criancinha. Parece até que o politicamente correto foi
inventado no Leblon por Caetano Veloso, e que Margaret Sanger nasceu em
Garanhuns.
Pois
bem: no pós II Guerra os Estados nacionais do Ocidente em geral tinham
aparatos de proteção social que jogavam o nível de vida lá para cima e,
naturalmente, encareciam o trabalho. Na Europa, esse modelo recebeu o
nome de “social-democracia”; nos EUA, manteve o nome de “liberalismo”,
mas acrescentou a espinhosa ideia de “Direitos Humanos” que são, essencialmente, supranacionais.
Aumentar
o nível de vida do trabalhador é bom para a maioria da população; ainda
assim, há quem queira maximizar os lucros às expensas do trabalhador.
Isso deve gerar uma situação um tanto conflituosa, já que em tese os
trabalhadores e os consumidores são mais ou menos as mesmas pessoas,
dentro de uma mesma sociedade. Se você arranca o couro dos
trabalhadores, eles não podem consumir e você não tem pra quem vender.
Nos anos 70, os EUA contornaram a questão abrindo a China e mandando as
fábricas para lá, fazendo com que os consumidores fossem americanos e os
trabalhadores braçais fossem chineses. Ser um trabalhador e ter
dinheiro para sustentar a própria família deixou de ser uma opção. Com
que dinheiro os americanos consumiam? Bom, de lá para cá, os seguros
sociais (algo análogo ao Bolsa Família) foram se generalizando junto com
o desemprego e com a dívida pública, enquanto a China se tornava uma
potência econômica e militar credora da dívida pública americana. Os EUA
se deram mal – ao menos enquanto Estado nacional. Com as empresas e
bancos de lá ficou tudo ótimo; lograram êxito no seu empenho em aumentar
os lucros. Se os consumidores não têm emprego, o governo dá um
dinheirinho para eles e se endivida. Depois o banqueiro compra a dívida
pública e lucra com os juros – como tem sido no Brasil desde quando
Lula, ainda no primeiro governo, resolveu pegar um empréstimo para
quitar a dívida com o FMI.
Então,
no liberalismo pós Direitos Humanos de 1948, o governo tem servido para
dar dinheiro aos cidadãos e transformá-los em consumidores. O modelo
dos EUA foi exportado Ocidente afora, Brasil incluso. E quem é o pobre
que precisa trabalhar para conseguir dinheiro dentro do país? O
não-cidadão, o imigrante ilegal que não é reconhecido pelo Estado
nacional.
Nos
EUA, o Partido Democrata se empenha em manter as fronteiras abertas, em
criar eufemismos para designar imigrantes ilegais e, pasme, até em
deixá-los votar. Trata a figura do imigrante ilegal como uma identidade
fixa e imutável: simplesmente não cogita um mutirão de legalização. Se
um político, num Estado nacional, está preocupado com a falta de
direitos de um estrangeiro oprimido, o mais natural é querer legalizá-lo
e dar-lhe existência jurídica dentro do Estado. Se o mainstream
americano não propõe isso, é porque pretende normalizar a figura do
trabalhador não-cidadão. E trabalhador não-cidadão tem sido, na maior
parte da história ocidental, a mesma coisa que “escravo”.
Criar
essa figura nos EUA é mais difícil do que na Europa, porque nos EUA
(como no Brasil) cidadão é quem nasce em solo pátrio. O ilegal chega,
tem filhos e os filhos são cidadãos. Na Europa, porém, vigora o jus
sanguinis, então é possível gerações nascerem e crescerem lá sem jamais
receberem status de cidadão. Os mesmos europeus que apontam o dedo para
os cidadãos brasileiros que moram nas favelas têm, em suas terras,
não-cidadãos morando em banlieues e no-go zones, que é como se diz
“favela” por lá.
Então
vejamos: na Europa existe uma categoria de europeus nativos que não
trabalha e que recebe auxílios do Estado, e outra de humanos
não-cidadãos que não têm direitos trabalhistas (pois não existe aos
olhos do Estado). A direita tende a enxergar esse quadro em termos
puramente raciais, como se por alguma razão os banqueiros ou o EUA
odiassem brancos e quisessem substituí-los por gente escura. Ora, o que
salta aos olhos é que “os brancos” são cidadãos com direitos; os escuros
(e uma porção de nacionalidades eslavas) não são cidadãos e não têm
direitos perante o Estado nacional; no máximo, só os têm perante a ONU.
Uma eventual extinção dos “brancos” da Europa representaria a extinção
do trabalhador livre, e a inauguração de uma era em que o homem só
reivindica “direitos” valendo-se de alguma credencial arbitrária tirada
da cabeça da tecnocracia, tal como “obeso”, “portador de necessidades
especiais” etc. Entre esses direitos pode estar o direito a morrer com
dignidade em vez de enfrentar a pobreza, tal como no Canadá.
Capitalistas
como Soros e os do Vale do Silício não são idiotas. Idiota é quem quer
explicar a opressão econômica estritamente em termos culturalistas,
reduzindo tudo a lacração.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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