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O Pedro Nuno nunca exibiu respeito pelo dinheiro alheio, que no fundo julga seu. Nunca mostrou serventia, vergonha, arrependimento. Pedro Nuno não é nada, o que em Portugal é condição para se ser tudo. A crônica semanal de Alberto Gonçalves para o Observador:
Foi
tão bonito, o regresso de Pedro Nuno Santos à Assembleia da República.
Bonito e comovente. Os deputados socialistas, e talvez alguns outros,
fizeram fila a cumprimentar o Desejado, a tocar-lhe nas mãos e na barba,
a revelar agradecimento e a pedir bênção. Os sorrisos eram rasgados a
ponto de os parlamentares arriscarem deslocação do maxilar ou paralisia
facial. Embora por pudor os jornais não o referissem, acredito que houve
quem levasse aleijadinhos para efeitos de cura. E acredito que a cura
terá sido instantânea.
O
cerimonial reduziu ao ridículo a má-fé dos descrentes. Os descrentes
são aquelas criaturas ressentidas que não enxergam a óbvia grandeza do
Pedro Nuno, se Ele permite que o chame assim. Vi por aí diversas alusões
à falta de carisma, de currículo e de motivos para o tratamento
dispensado ao Homem, com monumental H. Aos ressentidos falta juízo, é o
que é. Além de transbordar carisma, o currículo do Pedro Nuno é uma
sucessão de proezas sem mácula, as quais, somadas, fornecem amplos
motivos para que, um belíssimo dia, ele possa liderar o Partido, o
governo, o país e, Deus queira, as nossas vidas. Alguém falou em
predestinados?
Filho
de um vereador do calçado e industrial do PS, ou o contrário, o Pedro
Nuno nasceu a 13 de Abril de 1977 em São João da Madeira. Não encontrei
informações acerca do seu percurso no infantário e na escola primária.
Aposto, porém, que já então ele revelava propensão para a chefia e
ameaçava, à distância, pôr a tremer as pernas do colega que lhe pedia a
devolução dos lápis de cera. Garantido é que, mal entrou na Escola
Secundária Dr. Serafim Leite, labutou até subir à presidência da
respectiva associação de estudantes, onde sem dúvida deixou legado.
Aliás,
pela vida académica afora, o Pedro Nuno jamais permitiu que os estudos
lhe atrapalhassem o apelo da política. Descido a Lisboa, no ISEG, ocupou
os cargos de membro da direcção da Associação de Estudantes, presidente
da mesa da RGA e membro do senado da Universidade Técnica. O facto de,
soterrado em afazeres, lá ter arrancado uma licenciatura em Economia,
cuja data de conclusão procurei e não descobri, é uma façanha espantosa.
E a façanha adquire maior dimensão se considerarmos que em simultâneo,
dos 20 aos 24 anos, o Pedro Nuno acumulava as tarefas escolares
(digamos) com a presidência da assembleia de freguesia de S. João da
Madeira. O que, no meio de semelhante generosidade cívica, o Pedro Nuno
não acumulou foram grandes noções de economia, lacuna que não o impediu
de ser hoje equiparado a renomados vultos do ramo como Mariana Mortágua e
o general Maduro. Além disso, na hipótese (por demonstrar) de não
possuir o dom da ubiquidade, as repetidas idas e vindas entre São João
da Madeira e a capital forneceram-lhe a especialização em transportes
que o distinguiria no futuro.
Mal
terminou o tirocínio na junta, e ainda – presumo – com o curso por
terminar, o Pedro Nuno continuou a concentrar-se no que importa e saltou
da freguesia para a assembleia municipal. Não satisfeito, decidiu nas
horas vagas (?) chefiar a federação de Aveiro da Juventude Socialista e
de seguida a equivalente aveirense do PS dos adultos. A pulsão para
desvalorizar a economia em prol do socialismo é uma constante na
carreira do Pedro Nuno. Felizmente.
Apenas
uma devoção precoce e intensa ao bem-comum permitiu que, em 2004, o
Pedro Nuno irrompesse pela política nacional e alcançasse o posto de
secretário-geral da Juventude Socialista. A devoção era tamanha que,
logo em 2005 e sob o elevado patrocínio do “eng.” Sócrates, o nosso
herói se viu eleito deputado. Extraordinário? Com certeza. E mais
extraordinário, quase sobrenatural, será notar que ao altruísmo
partidário o Pedro Nuno adicionava funções administrativas num grupo
empresarial. Antes que alguém se horrorize com a cedência ao capitalismo
e à selvajaria dos mercados, calma: o grupo em questão é do pai dele e
faz principalmente negócios com o PS, perdão, com o Estado, muitos por
ajuste directo. Para cúmulo, e assegurar que os negócios da família não
se conspurcavam no mundo concorrencial, a prestigiada firma Tecmacal
manteve as ligações ao sector público mesmo após o Pedro Nuno penetrar o
governo e apesar de a lei das incompatibilidades proibir o arranjinho
com a perda de mandato.
O
governo. É fácil dizer que o resto é história, cujo final não estraguei
porque será inevitavelmente épico e impossível de arruinar. O Pedro
Nuno chegou ao governo em Novembro de 2015, depois de ajudar ao acordo
do PS com dois partidos leninistas (do primeiro, o Pedro Nuno frequenta
as festas; do segundo, é uma espécie de sócio honorário). À época, era
sobretudo conhecido pela lição de macroeconomia e ortopedia que dera aos
banqueiros alemães, em 2011, e por se locomover de Maserati,
propriedade do pai e no fundo com financiamento social. Entretanto,
tornou-se célebre e venerado conforme merece. De uma secretaria de
Estado pulou para o ministério das Infraestruturas, o palco ideal para
consumar os sonhos de qualquer criança saudável: brincar com aviõezinhos
e comboios. Decorridos quatro anos e milhares de milhões “investidos”
em alucinações pioneiras e indemnizações a compinchas, demitiu-se para
fugir do WhatsApp e demais maçadas incompatíveis com a sua estatura. O
Pedro Nuno voltou agora, transbordante e mítico, para júbilo dos que são
iguais a ele, dos que ambicionam ser iguais a ele e dos que lamentam
não conseguir ser iguais a ele. Em suma, de um pedaço razoável da
população portuguesa. Os que sobram, e não compreendem o culto da
figura, não sabem o que dizem nem onde vivem.
O
Pedro Nuno nunca trabalhou, daquele tipo de trabalho em que se é
remunerado por retribuição de uma competência lícita e útil. Nunca
exibiu o mínimo respeito pelo dinheiro alheio, que no fundo julga seu.
Nunca se lhe ouviu um esboço de qualquer coisa parecida com um
raciocínio pertinente. Nunca mostrou serventia, vergonha,
arrependimento. O que mostra é a arrogância com que os simplórios
simulam “nível”, e a peculiar acepção de “redistribuição” que
caracteriza um comunista autêntico. O Pedro Nuno não é nada, o que em
Portugal é condição para se ser tudo.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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