A China quer, ao mesmo tempo, ser o problema e a solução, a origem do
mal e a fonte do bem. O mais bizarro não está nessa intenção; está no
facto de conseguir fazê-lo. Sebastião Bugalho, via Observador:
O meu caro leitor deve sentir-se, no mínimo, enganado. Primeiro,
disseram-lhe que o vírus vinha da China e do descuido do seu regime.
Depois, disseram-lhe que a China ia descobrir a vacina e salvar a
humanidade. De seguida, o presidente americano fez tudo para reproduzir a
desinformação e politização da pandemia, como a China havia feito. Ao
mesmo tempo, os países europeus fechavam fronteiras e não mostravam
grande vontade de se ajudarem uns aos outros. Dentro de dias, lerá como a
China enviou enormes carregamentos de máscaras e luvas para os nossos
hospitais. E, com alguma justiça, o meu caro leitor perguntar-se-á:
então, afinal, a culpa é de quem?
Haverá culpa?
1. Uma nova interdependência
Recuemos um pouco para ganhar perspectiva. Olhemos para a Europa e
para a sua relação com a diplomacia chinesa desde o final de 2019. Em
dezembro, o embaixador chinês na Suécia deu uma entrevista à rádio
pública avisando que trata “os amigos com bom vinho e os inimigos com
caçadeiras”, merecendo reprimenda governamental; em fevereiro, o governo
checo pediu a demissão do embaixador chinês na República Checa após
revelar cartas “ameaçadoras”; o embaixador chinês na Alemanha não chegou
a ir tão longe nas alegorias, mas também garantiu “consequências” caso o
governo alemão rejeitasse a Huawei na instalação das redes 5G. Na
Estónia, na Lituânia, na Polónia e na Dinamarca sucederam episódios de
tensão semelhante.
O impacto do coronavírus veio alterar radicalmente os posicionamentos
e as prioridades de ambos os lados: os embaixadores chineses baixaram o
tom e os governos europeus também, pois precisam da China, que
assegurou quase toda a cadeia de produção de máscaras e ventiladores no planeta ao aperceber-se do que aí vinha.
O debate, a partir de agora, já não será travado entre as noções de
aliado e parceiro; será marcado por uma nova interdependência gerada
pelo covid-19: a Europa depende da China para a sua sobrevivência
sanitária; a China dependerá da Europa para a sua sobrevivência
diplomática.
Portugal, revelou o primeiro-ministro esta semana, fez a sua primeira encomenda de ventiladores a uma empresa chinesa.
2. Contabilidade e propaganda
No domingo, o Público noticiou o horror que se vive nas prisões
brasileiras devido à atual pandemia. Uma reportagem, sem dúvida,
pertinente. Peço agora ao meu caro leitor para imaginar como estarão os
milhares de presos nos campos de concentração em Xinjiang, na China,
onde a falta de condições de higiene e distância social são ideais para a
propagação de um vírus como o covid-19. Pense bem nisso, meu caro
leitor, da próxima vez que qualquer governo português mande parar o
Marquês de Pombal para Xi Jinping passar de carro.
Peço-lhe também, meu caro leitor, que tire dois minutos do seu dia e leia a conta do porta-voz
dos Negócios Estrangeiros da China no Twitter, uma rede proibida para o
cidadão chinês comum. Verá, com alguma estupefacção, o empenho das
autoridades chinesas em contabilizar os mortos de coronavírus registados
fora da China, como que ilibando o regime chinês de qualquer
responsabilidade. É isso mesmo, meu caro leitor. A China está a usar o
número de mortos europeus como propaganda, como álibi para a sua gestão
do vírus desde o ano passado. Vou repetir, porque não o digo de ânimo
leve: a China está a usar mortos como propaganda.
Se lermos o Global Times,
um jornal do regime, propriedade do seu Comité Central, apercebemo-nos
de atitudes de similar desumanidade. A 11 de março, a publicação estatal
assumia que se os Estados Unidos excluíssem a Huawei da instalação do
5G não teriam acesso a máscaras e material médico fabricado na China.
Sim, também é disto que estamos a falar: um país que usa uma pandemia
para fazer chantagem e promover as suas empresas. Pense bem nisso, meu
caro leitor, da próxima vez que vir um político português encantado com
dinheiro chinês.
3. Do pau e da cenoura para as palas e cenouras
A China quer, ao mesmo tempo, ser o problema e a solução, a origem do
mal e a fonte dos bens. O mais bizarro não está nessa intenção; está no
facto de conseguir fazê-lo. A duplicidade com que a Europa encarou a
diplomacia chinesa nos últimos anos – com uma face comercialmente
amigável e outra democraticamente consciente – é idêntica à forma como a
China está a lidar agora com os governos europeus: a mão que ajuda a
resolver a pandemia é a mão que lava as responsabilidades da pandemia.
Quando o embaixador chinês nos EUA contradiz o ministério dos Negócios Estrangeiros do seu país,
espelha a resposta dual da China ao coronavírus: desinformação
agressiva, por um lado, soft power (exportação de máscaras, etc.), por
outro.
Ontem, o alto representante para a política externa da UE identificou
essa dicotomia como uma “luta por influência através de spin e
generosidade”. Em dialeto diplomático, a China está a substituir a
doutrina do “pau e da cenoura” por uma tática de palas e cenouras. O
burro, nessa velha metáfora, seríamos nós.
Mas atenção: perante a latência europeia e a hibernação americana,
compreende-se que os governos nacionais agradeçam a Pequim qualquer
auxílio. São vidas que se salvam. E será tão importante lembrar quem as
salvou como o que as levou.
A Europa atrasou-se a acordar para a tragédia porque a China adiou – e
ocultou – a proporção da tragédia. Não esqueço, e espero que ninguém
esqueça, o infame relatório que as autoridades chinesas entregaram à
Organização Mundial de Saúde, negando qualquer caso de contágio
inter-pessoal de coronavírus em Wuhan. Como também não esqueço, e espero
que ninguém esqueça, os vários médicos chineses que tentaram a todo o custo divulgar os perigos do covid-19 e que foram detidos, intimidados e censurados pelo regime chinês.
É por respeito à sua coragem que não podemos ser complacentes com o
regime de Xi Jinping. É em sua memória que devemos resistir à avalanche
de desinformação que emana de Pequim, cujo objetivo é criar uma
realidade que não distinga verdade de mentira, facto de falsidade. Essa
realidade é uma arma que está do lado do vírus porque prejudica – e
prejudicou – ativamente o seu combate, porque não se vencem pandemias
sem transparência, sem números fiáveis e sem escrutínio.
Ao expulsar as equipas de jornalistas do New York Times, do
Washington Post e do Wall Street Journal, há dias, o regime chinês
confirmou a sua preferência pela opacidade.
4. Uma alternativa urgente
Na nossa história recente, cada fracasso da União Europeia, tanto na
dimensão estratégica quanto na solidária, traduziu-se num sucesso da
República Popular da China. Foi assim na crise das dívidas soberanas, em
que os países do sul não tiveram outra hipótese que não a de vender as
suas infraestruturas ao país que a Europa, que os forçava a vender, hoje
chama “rival sistémico”. E também foi assim depois da crise do euro, em
que os mesmos países do sul, desesperados pelo investimento que as
regras orçamentais impediam, abriram portas à iniciativa de
financiamento de Xi Jinping – a Belt and Road.
Portugal é um exemplo de tudo isto: a nossa aproximação a Pequim não
tem nada a ver com ideologia – é, há anos, consensual entre os partidos
de poder –, tem a ver com ausência de alternativas.
Hoje, com a crise sanitária e económica do coronavírus, o vazio das
instituições europeias poderá provocar novamente uma vitória geopolítica
chinesa. E é importante evitá-lo.
Esta pandemia era uma oportunidade única para os Estados Unidos da
América reavivarem a relação transantlântica e o seu papel de liderança
global; Donald Trump não só enfiou essa oportunidade no lixo, como deu
um valente pontapé no caixote. A União Europeia, meu caro leitor,
deveria ter o cuidado de não se pontapear a si própria.
5. Cinismo e ingenuidade
Em Portugal, apesar de tudo, há um silêncio generalizado, cobarde e
ignorante sobre o regime chinês. No Observador, os artigos de Diana Soller e Inês Domingos foram duas raras exceções – não neste jornal, mas na imprensa generalizada.
Nos partidos políticos, o Bloco de Esquerda, a Iniciativa Liberal e,
ironicamente, o Partido Comunista são as três forças que ousam
ocasionalmente expressar-se sobre a maior ditadura do planeta. Se não é
uma pandemia que muda isso, nada mudará. E quem diria que a cura para o
coronavírus acabaria por ser uma de duas: o cinismo ou a ingenuidade.
Talvez munido de ambas o mundo possa continuar a ignorar a verdade sobre a China.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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