BLOG ORLANDO TAMBOSI
A ridícula e pestilenta pseudo-virtude auto-congratulatória eleva o “ativista” denunciador de opressão aos píncaros máximos do orgulho próprio. Nuno Lebreiro para o Observador:
Como
define a esquerda cultural contemporânea a civilização ocidental?
Sempre bem infiltrada nos círculos de “intelectuais”, “jornalistas”,
“comentadores” e todos os demais que lançam as “grandes” questões do
debate público, como caracteriza essa nova esquerda “modernaça” a nossa
própria civilização, não por acaso aquela primeira da História que
acabou com a escravatura? Ora, paradoxalmente precisamente como
esclavagista e opressora.
E
como descrevem esses farolins do futuro mundo novo essa mesma
civilização que, de forma igualmente pioneira, emancipou as mulheres,
igualizando direitos entre os dois sexos e abrindo as portas a todas as
funções na sociedade para toda a gente? Naturalmente, como patriarcal e
opressiva para as mulheres. Pior, consegue ainda essa esquerda
visionária a proeza de, ao mesmíssimo tempo que desprezam o Ocidente
livre e tolerante, embevecer-se perante o relativismo cultural que
desculpa de forma igualitária todas as culturas e civilizações —
exceptuando a nossa e incluindo aquelas que nem sequer consagram
igualdade de direitos a ambos os sexos. Um feito intelectual, há que
reconhecer.
E
como classificam esses arautos das virtudes “politicamente correctas” a
primeira civilização que abriu também todas as posições sociais a todas
as raças, garantindo a igualdade de todos perante a lei? Pois muito
bem, com a coerência que se lhes reconhece, berram os iluminados que tal
civilização é intrinsecamente racista e xenófoba.
E
como descrevem essas mesmas luminárias a civilização que — e
continuamos a falar da ocidental —, descriminalizou e legalizou a
homossexualidade, deixando de perseguir pessoas em função da sua
orientação sexual, inclusive igualizando direitos entre casais
independentemente do seu sexo? Ora, como não poderia deixar de ser, para
esses teóricos da felicidade humana tal civilização — a única, já
agora, que acabou com a perseguição aos homossexuais — é intrinsecamente
homofóbica e castradora de minorias sexuais. Já outras culturas onde a
homossexualidade é tratada com a simpatia própria de um apedrejamento ou
de uma condenação à morte, isso já não parece causar tanto escândalo
social.
Posto
isto, para quem não esteja possuído pela hipnose própria do fanatismo
ideológico, um padrão emerge: para esta nova esquerda, a nossa
tolerância é caracterizada como intolerância enquanto os verdadeiramente
intolerantes são convenientemente esquecidos pelos organizadores da
revolução cultural — ou seja, falam forte com quem podem criticar e fiam
bem fininho com quem não lhes liga nenhuma.
Mas
a coisa não se fica por esta evidente hipocrisia. Porque esses
“pensadores” apenas identificam na sociedade dois papéis possíveis,
precisamente o de vítima e o de opressor, logo se tornam todos aqueles
que não pertencem às infinitas minorias decretadas como oprimidas, por
definição, de forma automática — e preconceituosa, acrescente-se —, em
tenebrosa maioria opressora: és branco? Então, mesmo que não saibas, és
racista. És homem? Então esquece lá as educações, os hábitos, as antigas
regras sociais, é a tua masculinidade que é tóxica e tu, apenas por
seres homem, logo masculino, és machista, opressor e patriarcal. És
heterossexual? Não vais descer a rua com bandeirinhas arco-íris a
exaltar as virtudes da homossexualidade? Gostarias de teres netos
biológicos? Ó pá, então és homofóbico. E assim sucessivamente se repete
até à náusea — literal, já — a formulazinha que alimenta esta grotesca
narrativa que superficializa a natural complexidade do mundo social num
infantil código binário: se não és uma vítima, então só podes ser um
opressor.
Do
mesmo modo, porque o neo-marxismo que os orienta na sua pretensa
superioridade intelectual é sempre uma “revelação” apenas acessível aos
eleitos que a “compreendem”, todos os que não aceitem a verdade por eles
apregoada — assim ao modo de culto fanático —, sejam esses não-crentes
membros das eleitas minorias de vítimas ou não, logo são estes
apelidados de burros, tidos como incapazes por não vislumbrarem a
realidade tenebrosa em que a civilização mais rica, próspera e pacífica
da História de facto vive, ou, pior, gente malévola que até reconhece a
essência opressora da sociedade, mas, por pura crueldade, até gosta dela
assim.
Aliás,
tanto assim é que é precisamente daqui que deriva uma ridícula e
pestilenta pseudo-virtude auto-congratulatória que eleva o “activista”
denunciador de opressão aos píncaros máximos do orgulho próprio —
orgulho, um pecado no mundo que ora acaba, atente-se, mas transformado
na tradução anglicana “pride” hoje em dia celebrada anualmente em versão
pimba festivaleira —, isto porque, face à lógica binária
opressor-oprimido, tal como todos aqueles que não aceitam a nova verdade
moral ou são burros ou são maus, então, por conclusão evidente,
aqueloutros que a apregoam e cantam só podem mesmo ser inteligentes e
bons.
E
assim se alimentam aqueles que mais não fazem além de apontar o dedo a
qualquer pessoa que queira fazer o quer que seja. De iPhone na mão e All
Stars nos pés, de bolsos recheados de notas sacadas aos pais, lá se
criam fornadas de “activistas”, essa novíssima “profissão” que dá
direito a rodapé televisivo e onde a virtude auto-assumida é
inversamente proporcional a qualquer resquício de mérito ou esforço
social. Não é preciso fazer algo de novo, um produto ou serviço que
alguém queira, ou considere útil. Não, pelo contrário, tanto mais
virtuoso um activista é quanto não fizer nada — ai, ai, ai, olha que se
fizeres alguma coisa emites carbono —, ou quanto mais destruir aquilo
que outros fizeram — para “salvar”, claro, o planeta — ou, na maior
parte dos casos, quanto mais se limitar a apontar o telefone reprovador
para registar “nas redes”, com escárnio e “indignação”, tudo aquilo que
se ouse mexer por regras que suas excelências não considerem adequadas.
Assim,
onde ninguém vislumbra uma agressão, logo o “intelectual” descortina
uma microagressão. Onde uma família pastoreia a prole, logo o justiceiro
social percepciona uma terrível prisão social. Onde um desgraçado come
um bife, logo o arauto dos bons costumes descobre um crime hediondo
contra a natureza. Onde um incauto assume um interesse num qualquer
irrelevante hábito cultural, logo o peçonhento de dedo em riste vem
acusar de apropriação cultural — e por aí fora que, para mal dos nossos
expiadíssimos pecados, exemplos não faltam.
Gradualmente,
cavalgando a vitimização alheia, os neo-fascistas do pensamento único —
o deles, naturalmente — vão semeando o ódio. Como fuinhas que são,
lançam a confusão da discórdia sobre todos — e contra todos. No entanto,
porque nem todos os não-caucasianos são mulheres, tal como nem todas as
mulheres são homossexuais, ou sequer os homossexuais são desta ou da
outra minoria, logo inevitavelmente acabaremos todos etiquetados com
conceitos de vitimização e de opressão em simultâneo, levando a divisão e
o conflito já para dentro das próprias pessoas que agora agonizam, em
pânico, sob a suspeita de se descobrirem a si mesmas como meliantes
não-virtuosas, racistas, xenófobas, homofóbicas e
chauvinistas-machistas, desgraçados prontos para serem expostos e
“cancelados” pelas hordas de selvagens digitais no pelourinho da praça
pública cibernética.
Pelo
caminho, que se aumentem os impostos para financiar a miríade de
agências não governamentais que, de bolsos fundos e mãos sempre
estendidas, sobrevivem através do perpétuo subsídio e do financiamento
dos grandes “filantropos” globais que, de avião privado, discutem
anualmente em Davos como devemos todos bem comer, respirar, viver ou
fornicar. E que se aumentem também ainda mais os impostos para contratar
mais gente para infiltrar as infinitas repartições estatais sempre
prontas a regulamentar e fiscalizar a virtude comportamental da
sociedade para impor, agora com força de lei, os novos bons costumes, em
particular na escola onde professores mais afoitos já se dedicam a
indagar adolescentes pré-pubescentes sobre as preferências e
experiências sexuais de cada aluno — no final, berram-nos às orelhas, é
tudo para o nosso bem.
Tal
como também, numa Academia progressivamente destruída e incapaz de
gerar conhecimento para além de um passivo decorar do chavão virtuoso da
moda, se aumentam ainda mais os impostos para criar mais e mais cursos
inúteis, pejados de docentes inúteis, para preparar mais docentes
inúteis peritos apenas em sacar mais subsídios de investigação
“científica”, ou em inventar profissões igualmente inúteis, mas
virtuosas, “boas”, capazes, por exemplo, de estudar o impacto das
“alterações climáticas” nos níveis de stress dos casais queer ou, porque
não, dissertar — literalmente, como mestre ou doutorado — sobre os vis
malefícios dos beijinhos das avós nas criancinhas.
No
entanto, porque não param de aumentar o número, e a qualidade, das
vítimas, tudo gente com direito a uma “justa” compensação pelo seu
terrível sofrimento, bem como, correspondentemente, cresce também a
quantidade de opressores, estes com o dever de expiação da sua
intrínseca injustiça, naturalmente o único destino desta “narrativa”
será sempre o conflito permanente de todos contra todos. Nessa guerra,
como aliás Hobbes já explicou há muito, revelar-se-á a verdadeira agenda
que alimenta, e financia, esses pseudo-iluminados, verdadeiros idiotas
úteis que pela sua estupidez disfarçada de virtude social,
histericamente, vêm dividir para outrem reinar: é que num mundo em caos
apenas um soberano todo-poderoso poderá colocar ordem e garantir a
justiça para todos. Quem? Ora bem, o Estado, naturalmente, aquela
abstracção que os optimistas imaginam como sendo supra-humana, portanto
neutra, justa e proto-divina.
No
final, feitas as contas, o objectivo máximo que o revolucionário
activista, mesmo que não o saiba, vai ajudando a implementar a coberto
do discurso arco-íris da justiça social, em poucas palavras, traduz-se
de uma forma simples na adaptação de fórmula já bem conhecida: tudo na
verdade científica e politicamente correcta, nada contra a verdade
científica e politicamente correcta, tudo pela verdade científica
politicamente correcta — o fascismo do bem, pois então.
A
única defesa contra este novo fascismo, como, aliás, deveria ser
evidente para qualquer pessoa que ainda retenha um mínimo de senso, será
sempre a intransigente defesa da igualdade de todos perante a lei, o
princípio maior que em nome da mentira e da aldrabice vêm estes
revolucionários de vão de escada pretender revogar — infelizmente,
infantes ignorantes não costumam alcançar as consequências dos seus
actos. E essa é a verdadeira história do movimento “woke”: um
arregimentado de mimados infantis que, perante um mundo complexo, árduo,
difícil e largamente incompreensível, ressentidos pela sua própria
inadequação social, preferem acreditar no canto da sereia que, mesmo
impelindo para os penhascos, lhes vende a ilusão do outro lado se
encontrar um admirável mundo novo, perfeito, onde se pode ter tudo, e
ser tudo, sem esforço, agruras ou risco — o “safe space”. Apenas que
esse mundo não existe, “do outro lado” apenas esperam os destroços dos
incautos que embalarem neste devaneio próprio de criancinhas.
É
por esta razão que tudo o que se torna woke acaba em fanicos. Desde as
empresas que deixam de se preocupar em fazer e vender produtos que as
pessoas gostem e desejem para, ao invés, pretenderem fazer “justiça
social”, passando pelos filmes e séries que deixam de ser obras de arte
para serem “inclusivos” e passarem uma “mensagem importante” — outros
termos para propaganda — e que fracassam olimpicamente nas bilheteiras,
terminando nas próprias fundações da sociedade progressivamente
pervertidas, tudo o que é woke acaba destruído: veja-se como em nome do
combate ao racismo se apregoa agora a discriminação racial que, em
função da raça, beneficia uns e prejudica outros, tal como em nome da
igualdade sexual se impõe legalmente a discriminação sexual através de
quotas, ou, também, como em nome do direito à igualdade se tira cada vez
mais a uns para dar a outros. Woke, na realidade, não passa de um
eufemismo para perversão daquilo que era bom e funcionava — e a sua
consequente destruição.
Entretanto,
lá atrás, à espreita, nos corredores das grandes corporações globais,
em busca do lucro e do poder que sociedades progressivamente mais
controladas garantem, espreitam os inimigos da liberdade,
proto-destruidores do nosso modo de vida e mentirosos oportunistas que,
semeando o ódio e a divisão, procuram eternizar-se no controlo de uma
sociedade atomizada, sem freios aos poderes que são, despojada de corpos
intermédios, e que, de outro modo, longe da cantilena detestável do
“politicamente correcto” que tudo verga à sua vontade, funcionando em
verdadeira e saudável liberdade, lhes imporia a virtuosa concorrência
com a qual, ao longo dos anos, nos habituámos a livrar-nos eficiente e
ciclicamente do parasitismo social, económico e político.
Infelizmente,
através do financiamento que dinheiro inventado e infinito permite
distribuir pelos estados e pela guarda avançada da nova moral que
cooptou a esquerda cultural, os senhores que mandam fintaram os três
adversários da sua perpetuação no poder: a crítica social, a
concorrência económica e a igualdade das regras do jogo. Que a esquerda
ufana dos direitos sociais e da protecção dos pobres e oprimidos contra
os todo-poderosos interesses do grande capital se tenha tornado na maior
defensora dos oligarcas que tudo comandam é apenas ridículo — e mais um
grande sinal como neste triste mundo palhaço em que nos vemos enfiados
tudo normalmente significa o seu exacto contrário.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi
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