MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

domingo, 4 de abril de 2021

Empresas listadas na Bolsa atravessam a década reduzindo seus investimentos

 POLITICA LIVRE


economia

O investimento voltado para a modernização e a ampliação das estruturas de companhias listadas na Bolsa brasileira caiu drasticamente na última década, segundo levantamento da Economatica, empresa provedora de dados financeiros.

Estudo que analisou 221 companhias de capital aberto nos últimos dez anos mostra que o desembolso, considerando a inflação, caiu de R$ 338 bilhões, em 2011, para R$ 272 bilhões em 2019, antes de a pandemia provocar um mergulho mais profundo ainda, levando o investimento a R$ 153 bilhões no ano passado.

O que mais preocupa nem é a cifra em si, mas o efeito dessa redução e o que ele sinaliza.

Foram considerados os investimentos puros, aqueles que a companhia faz em si mesma quando compra maquinário, veículos e imóveis para sua modernização ou expansão —o chamado capex ou despesa com capital.

A Economatica avaliou o valor central dessa série histórica considerando quanto investimento seria necessário para evitar a desvalorização do patrimônio dessas empresas (tecnicamente, extraiu a mediana do investimento em relação à depreciação).

O resultado dessa relação entre capex e depreciação é um índice —e quando ele fica abaixo de 100% significa que o investimento não é suficiente para repor a perda de valor da empresa no tempo.

Na década, esse indicador registrou uma retração 130 pontos percentuais.

Esses indicadores são calculados pelas próprias empresas e apresentados nos balanços financeiros, seguindo as regras contábeis. Analistas e economistas monitoram esses números para medir a capacidade ou disposição do acionista controlador de promover o crescimento da companhia.

“Esse investimento indica o quanto do capital de uma companhia está comprometido em manter ou ampliar a produção, ou gerar melhorias em um determinado produto, elevando assim a produtividade e o lucro”, diz Einar Rivero, gerente de relacionamento institucional da Economatica.

“Quando ele cai muito, podemos admitir que a empresa tem capacidade ociosa, não vê interesse na ampliação do seu parque industrial ou não tem capacidade de investimento.”

Em 2011, esta relação estava em 219,5%, ou seja, empresas geravam valor, ainda sob efeito do crescimento provocado pelo ciclo de valorização das matérias-primas.

Desde então, a relação desacelerou. Foi a 101% no ano do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016. Caiu a 94% em 2017, ano em que o presidente Michel Temer foi gravado pelo empresário Joesley Batista, da JBS. No fim da gestão Temer, em 2018, ensaiou uma recuperação, indo a 109,3%. Mas voltou a cair para 91,1% no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro.

“Quando todo mundo reduz esse tipo de investimento é sintoma de que algo está errado na macroeconomia, e não simplesmente no ciclo da empresa”, diz Joelson Sampaio, professor da FGV EESP (Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas em São Paulo).

“É preciso lembrar que investimento geralmente visa uma expansão com a previsão de determinado cenário econômico e, se esse crescimento não ocorrer, a empresa se ferra.”

Na história recente do Brasil, o fator PIB (Produto Interno Bruto) ficou comprometido. Depois de um crescimento de 7,5% da economia no último ano do governo Lula, houve desaceleração seguida de recessão de 2014 a 2016. “Tivemos uma forte crise em 2015 e 2016 da qual nunca saímos”, afirma Sampaio, da FGV.

O professor do Insper Roberto Dumas Damas chama a atenção para um outro componente que inspira ou posterga desembolsos empresariais: a confiança —outro critério que tem oscilado.

“Todo ano, o Brasil tem intempéries. Em 2013, manifestações. Em 2014, eleição. De 2015 a 2016, erro na política econômica. Em 2017, o Joesley Day. Enfim, somado ao crescimento baixo nos últimos anos, não há credibilidade.”

Segundo o economista-chefe da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Renato da Fonseca, outra parte do problema está em limitações estruturais que todos conhecem e precisam ser resolvidas.

Além da burocracia, há ineficácia tributária, baixa produtividade, custos trabalhistas superiores ao valor do que se produz, além de uma infraestrutura logística insatisfatória.

“A gente repete o mantra de que precisa de reformas para reduzir o custo Brasil, que precisamos rever o sistema tributário, ter marcos regulatórios confiáveis, uma legislação de meio ambiente mais moderna e clara, e se não resolvermos essas questões, dificilmente haverá reversão desse quadro”, diz Fonseca.

Ele afirma que a CNI também identificou a retração dos investimentos acompanhando os dados das Contas Nacionais. Detalhe: há retração não apenas no investimento do setor privado, mas também no do público, comprometendo o ambiente de negócios de forma generalizada.

No caso da indústria, ele cita a contração média anual de 1,6% do setor nos últimos dez anos, acompanhada do aumento da capacidade ociosa, que levou a um processo de desinvestimento.

“Desde 2011, você tem uma indústria praticamente estagnada, com muitas, inclusive, largando o país.

O fenômeno é simbolicamente representado pela saída da Ford”, afirma Fonseca. Em janeiro deste ano, a montadora americana anunciou que vai encerrar todas as atividades fabris no Brasil em 2021.

Em março, foi a vez de a japonesa Sony fechar sua fábrica de Manaus (AM). A marca também decidiu que não vai mais vender TVs, câmeras digitais e produtos de áudio no Brasil.

Há 48 anos no país, a empresa afirmou que, diante do “recente ambiente do mercado”, decidiu fortalecer a estrutura e a sustentabilidade de seus negócios para acompanhar mudanças no ambiente externo.

Em 2020, a alemã Mercedes-Benz anunciou que decidiu parar a produção de carros em Iracemápolis (SP) após concluir que a unidade não se enquadrava mais no processo de reestruturação do grupo.

De certa maneira, as empresas brasileiras estão seguindo o mesmo movimento: ampliaram a sua internacionalização no período.

Segundo o estudo “Trajetórias FDC de Internacionalização das Empresas Brasileiras”, publicado pela Fundação Dom Cabral e coordenado pela professora Lívia Barakat, muitas multinacionais aumentaram seus investimentos no exterior.

A maioria das empresas ouvidas pelos pesquisadores alegou que havia ampliado o investimento em outros países em função do cenário de instabilidade político-econômica brasileiro.

Outro fator que impulsiona esta expansão fora do país é que, quanto maior o grau de internacionalização, melhor o desempenho das companhias no exterior, já que elas se tornam mais conhecidas e adquirem competências para atuar no mercado global.

O estudo da Fundação Dom Cabral constatou que a exposição externa eleva a eficiência e o resultado financeiro da empresa. Foi utilizado um índice para medir a internacionalização dos negócios e, em média, quando houve um aumento de 100% neste índice ocorreu também um aumento de 14,01% no Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização).

Com a pandemia de coronavírus, a relação do indicador formado pela relação entre capex e depreciação foi ao seu pior nível da década no ano passado. Ficou em 89,1%.

Considerando as 221 empresas do levantamento, os setores que mais reduziram o investimento no último ano em relação a 2019 foram veículos e peças, agronegócio, telecomunicações, papel e celulose e petróleo e gás.

Segundo a casa de análises Suno Research, o elevado grau de incerteza fez com que as companhias adiassem os desembolsos e preservassem seus caixas durante a crise.

Ocorre que o indicador de 2020 não é muito diferente do registrado em 2019 por uma razão peculiar.

Houve euforia no mercado e nas empresas no início do governo Bolsonaro. O investimento foi a R$ 207,27 bilhões, bem acima dos R$ 124,14 bilhões do ano anterior. No entanto, a depreciação também crescia com força, indo de R$ 135,14 bilhões a R$ 191,64 bilhões.

Dessa maneira, o indicador mostra que os recursos não foram suficientes para repor a perda de valor, indo a 91,1%.

A empresa Suzano, de papel e celulose, é um exemplo do que ocorreu. O capex da companhia saltou de R$ 2,328 bilhões em 2018 para R$ 30,718 bilhões em 2019, segundo dados da Economatica.

No entanto, a depreciação declarada pela empresa foi de R$ 1,563 bilhão para R$ 8,053 bilhões. O período foi marcado pelos custos com a aquisição de ativos florestais da Duratex pela empresa, o que elevou os gastos com manutenção e modernização.

Na avaliação dos analistas, haverá alta nos investimentos neste ano, especialmente nas empresas de matérias-primas, já que os preços das commodities estão elevados e o real segue desvalorizado.

A Vale, por exemplo, projeta investimento de US$ 5,8 bilhões (R$ 33,12 bilhões) em 2021, um aumento de 31% comparado a 2020, de modo a aumentar sua capacidade de produção de minério de ferro.

Já os dois principais projetos da Petrobras neste ano —as unidades flutuantes de produção, armazenamento e transferência Carioca Sépia 1 e Guanabara Mero 1— têm um capex estimado em US$ 1,07 bilhão (R$ 6,11 bilhões).

A Weg é outra empresa que também irá fazer injeções de capitais maiores neste ano que em 2020. A companhia prevê investimentos de R$ 986,9 milhões em ativos imobilizados e R$ 29,2 milhões em ativos intangíveis.

Estes investimentos deverão ser focados em máquinas, equipamentos, ferramentas e dispositivos (R$ 299 milhões); informática (R$ 16,6 milhões); construções e instalações (R$ 42,2 milhões) e investimentos em controladas no exterior (R$ 620 milhões).

A Hering informou que 2021 será o ano de maior investimento da história da empresa, totalizando R$ 131 milhões em capex direcionados para a reestruturação da arquitetura de sistema de dados, plataformas da companhia e modernização do parque industrial.

Apesar da pandemia e do avanço do ecommerce, a Lojas Americanas planeja abrir 150 lojas físicas neste ano. Empresas com operações físicas e online, como a Americanas e as rivais Via Varejo e Magazine Luiza, têm aumentado o uso das lojas para que os clientes retirem produtos adquiridos pela internet.

Os planos de investimento, porém, podem ser interrompidos, mais uma vez, pelo descontrole da nova onda de casos de Covid-19 no país.

“Com a segunda onda da pandemia, o investimento em 2021 está um pouco nebuloso, especialmente para empresas dependentes do mercado doméstico, como varejo e vestuário, que ainda precisam das vendas físicas”, diz João Daronco, analista da Suno Research.

Levantamento realizado pela CNI no início do ano mostrava que os empresários estavam otimistas com a possibilidade de superação da crise sanitária ao longo de 2021 para retomar a lenta recuperação da economia iniciada em 2017. Esse cenário, porém, mudou a partir de março, com o acirramento de contágios e mortes, a volta do isolamento e a demora na vacinação.

“Corremos o risco de ter mais um ano de baixo investimento. Provavelmente, o país voltará a crescer no segundo semestre deste ano, mas sem os melhores resultados, pois não adianta apenas voltar ao nível pré-pandemia, que já não estava bom. É preciso ir além”, diz Fonseca.

O economista-chefe da CNI afirma que a aprovação de reformas, mesmo que seus efeitos sejam de longo prazo, melhoraria as perspectivas. “Investimento é expectativa. Se você constrói um ambiente favorável, ele vem rápido.”

Júlia Moura e Eduardo Cucolo/Folhapress

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