MEDIÇÃO DE TERRA

MEDIÇÃO DE TERRA
MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 30 de setembro de 2023

O beijo

BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

Reclamam-se leis, polícias, quotas, regulamentos, multas, sanções e campanhas de esclarecimento pagas com dinheiro público, nas quais se estabeleça como indiscutível certa maneira de ver as coisas. José Meirelles Graça para o Observador:


Foi, salvo erro, em 20 de Agosto que Luis Rubiales beijou na boca Jennifer Hermoso. De imediato as redes sociais e os meios de comunicação explodiram em críticas e protestos, não apenas em Espanha mas em quase todo o lado. Não fui conferir (nem podia: googlando “caso Rubiales” há minutos obtive 100.000 resultados) se naqueles países, e são muitos, em que as mulheres têm um estatuto legal de inferioridade se comentou furiosamente, como aqui; e é claro que não terá havido nesses países artigos indignados a pôr o caso nos cornos da Lua e a reclamar intervenção dos poderes para punir o criminoso.

Confesso que gosto destes estrugidos. Enquanto as polémicas giram à volta de coisas menoríssimas e não guerras, terramotos, tufões, cancros, fomes, golpes de Estado, prisões, o diabo a sete, sempre a gente se diverte.

Julguei que a coisa fosse durar três dias até ser substituída por uma ministra surpreendida a trair o marido com um agente a soldo de uma potência estrangeira, ou um diplomata enlouquecido a prestar declarações em pelota no Iémen, ou um chefe de Estado a dar conferências de imprensa enquanto muda de calções, ou uma das trinta mil maneiras dos famosos asneirarem para o efeito dos anónimos se esgotarem em condenações. Mas não, passado este tempo todo o caso ainda não esmoreceu e vejo com espanto amigas (umas unilaterais, que são aquelas de quem gosto e não me podem ver, outras as que ainda não são mas têm potencial para vir a ser, as que são mas contam com o perdão de Deus porque o meu já têm, e finalmente as raríssimas que têm lugar cativo no altar da minha admiração) a abundarem em considerações, todas no mesmo sentido: ai Jesus que ainda falta muito caminho para percorrer, e o tal Rubiales nunca se atreveria a fazer o que fez se não vivêssemos numa sociedade patriarcal – no futebol, nas empresas, na política, no Estado e, não dizem mas suspeito, na cama.

Isto e mais dizem elas, e reclamam leis, polícias, quotas, regulamentos, multas, sanções e campanhas de esclarecimento (pagas com dinheiro público, como é de uso para causas nobres) nas quais se estabeleça como indiscutível esta maneira de muitas delas de ver as coisas, e como negacionista quem tenha pontos de vista diferentes.

Alguns tipos mais corajosos, ou descarados, verberam o exagero, os efeitos perversos e as contradições que muitos “estudos” encerram, como é normal em ciências sociais. Por exemplo, o argumento de que foi por causa de quotas de mulheres na administração de empresas que estas melhoraram o desempenho implica que as gestoras detenham alguma forma de superioridade sobre os gestores – coisa que infirma o princípio da igualdade. De caminho, naquelas profissões ou actividades em que elas já tenham superioridade numérica, como juízes ou licenciaturas na maior parte dos cursos, não haverá, credo, lugar a quotas porque há que compensar o desequilíbrio global.

Quanto aos amigos, não faltam os que se confessam feministas, muitos de boa-fé, que o Santíssimo a releve, e outros porque querem agradar ao belo sexo e são intensamente modernos, como se nota pelas sapatilhas de marca e pelo paleio consensual.

Passados uns dias, e atónito com a algaraviada, escrevi isto numa rede:

O caso Rubiales, a mim, embaraça-me porque se transformou num assunto esquerda/direita e eu, como sou um reaccionário do piorio, pendo automaticamente para o lado são do espectro. Tanto mais porque não ignoro que o incidente só está rodeado desta grande barulheira porque encaixa no padrão opressor/vítima que a esquerda cavalga automaticamente por ser defensora do amanhã da igualdade absoluta, que toma por destino desejável. Isso, porém, leva-me a defender um grunhozito sem maneiras. Não merecia no momento em que abusou mas merece agora porque querem pendurá-lo, para exemplo, por um deslize que nem de longe merece o griteiro da turba virtuosa.

Como sumário, perdoe-se-me a imodéstia, não está mal. Falta porém esclarecer de onde vêm estes reflexos condicionados sobre as vítimas e a opressão e porque entram neste incidente as clivagens políticas.

Houve um tempo em que o processo histórico se explicava pela luta de classes e havia os que detinham meios de produção – os opressores – e os que vendiam o seu trabalho – os oprimidos. Durante longas décadas a maior parte dos intelectuais rezou por esta cartilha e o povo necessitava das luzes da vanguarda para descobrir o seu próprio interesse, coisa muitíssimo difícil porque tinha a cabecinha formatada pela propaganda dos capitalistas e pela tradição.

Bons tempos da nitidez. Que começaram a ruir com a invasão da Hungria em 1956, com a Grande Fome da China em 1958-1961 e a invasão da Checoslováquia em 1968, além de outros desastres (a lista é extensa), o que tudo culminou com a implosão do Sol na Terra, e mãe do Homem Novo, que era a URSS, em 1990-1991.

Todavia, o apelo da sociedade perfeita, isto é, aquela em que há progresso material, mas igualmente distribuído, e onde ninguém se sente diminuído porque não há superioridade alguma, não morreu.

Como fazer, porém? A propriedade colectiva dos meios de produção, o partido único, a revolução, passaram de moda. E no seu lugar os mesmos vanguardistas do antigamente puseram, no lugar dos capitalistas, o opressor, e no dos trabalhadores, o oprimido.

Quem são os oprimidos? São todas as minorias nas nossas sociedades (pretos, muçulmanos, trabalhadores de salário mínimo, imigrantes, LGBTs sortidos, etc.) e, grande novidade, também maiorias, se quanto a estas se puder perceber que estão desavantajadas na partilha do bolo comum do poder, dos benefícios e dos sacrifícios. Isto é, as mulheres.

Um grande negócio eleitoral, já que são maioria. O drama é que, como dantes sucedia com o povo ignorante, elas não se deixam convencer e tendem a clivar-se politicamente como os homens.

Suspeito que a maioria das mulheres dirá para os seus botões que tudo isto é much ado about nothing. E mesmo que haja muitas que não engordam as fileiras da esquerda e nem por isso deixam de fazer, quando provocadas por um abuso qualquer, um grande berreiro nos jornais, daí não decorre que o campeão da engenharia social vanguardista, no nosso caso o BE, ganhe eleitoralmente muito com isso.

Falta nitidez, é o que é. Dantes havia comunistas e fascistas, agora é uma grande confusão: os bloquistas declaram um acendrado amor à democracia antigamente burguesa e chegam a confessar-se social-democratas. O que não os impede de reivindicar que, via impostos, toda a gente rica deixe de o ser e que todos os que para isso se esforçam sejam voluntariamente coagidos a partilhar o fruto do seu labor.

Temos então que o MeToo começou a arribar às nossas praias, como chega tudo o que é mau e parte do que é bom. Numa versão edulcorada, que aqui é gente pacífica. Sem que porém, em organismos inúteis sustentados com o dinheiro do contribuinte, como a Comissão para a Igualdade de Género, em iniciativas legislativas e em declarações de responsáveis, não se manifeste o unanimismo das causas do dia. Nas democracias modernas a maioria escolhe os governos e estes deixam-se influenciar pela comunicação social, a qual é uma câmara de eco dos activistas. É o que temos.

Já agora: Que vivam as mulheres. Desde que começou a ser um adquirido civilizacional a igualdade entre os sexos, onde foi, começou um longo caminho para a atingir. A qual, se entregue a ela própria, evoluirá naturalmente como naturalmente já está a acontecer há muito.

Conviria, para evitar exageros, tanto nas medidas como na reacção, não empurrar.
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A nova direita contra o capitalismo

BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

Há uma confusão generalizada entre economia de mercado e empresas. Essa confusão só pode nascer do desconhecimento, que explica esse anticapitalismo, ou da falta de honradez intelectual, que também explica o anticapitalismo. José Carlos Rodríguez para Disidentia:


La Gaceta de la Iberosfera es una de las publicaciones más interesantes en estos momentos. Es especialmente valiosa la sección Ideas. El nombre que recuerda a una llorada revista de Libertad Digital, qué tiempos aquellos, acompañada de otra revista de Libros, una de Historia, Religión… Pero estas Ideas no están en LD, sino en La Gaceta de la Iberosfera, y está dirigida por Hudges.

En la revista de La Gaceta, una de las paradas recomendables es la que está bajo el letrero David Román. Escribe bien, con un conocimiento cabal y buenas referencias, unos artículos descarrilados. Le preocupa a David la inmigración masiva, cómo no iba a hacerlo. La verdad es que es un fenómeno tan complejo, que es fácil cargarse de razón, no importa la posición que adoptes. Siempre hay una parte amplia de la realidad que te acompaña.

No sólo le preocupan las migraciones masivas, sino la libertad de cambiarse de país. Pues, si la llegada de los otros supone un problema, la solución es muy fácil: impidámosla. Si no hay libertad, no habrá migraciones masivas ¡Cuánto ingenio se ha derramado para defender las soluciones más toscas! ¿La gente se droga?, prohibamos su consumo y su comercio. Y todo así.

El caso es que a David Román no le gusta la libre migración, pero tampoco le gusta el capitalismo. O no todo él. Y a la nueva derecha tampoco. En un reciente artículo publicado en La Gaceta de la Iberosfera, Román pone el ejemplo de Alternativa por Alemania, pero valdría el de otras formaciones políticas. El Vox de última hora, por ejemplo.

El artículo empieza por todo lo alto, con una cita de Nicolás Gómez Dávila, y desciende a partir de ahí. Rescata de sus escolios estas palabras: “El capitalismo es la deformación monstruosa de la propiedad privada por la democracia liberal”. Gómez Dávila tenía una perspicacia única. Acuñaba en una sola frase un torrente de ideas. En esta sentencia resume una parte no desdeñable del pensamiento de Wilhelm Röpke, pero el alemán necesitó varios libros para formularlo.

Röpke era un liberal clásico, partidario del libre comercio y de la libre migración, y pacifista. Defendía la propiedad privada y era crítico con el nacionalismo, con el socialismo y con el nacionalsocialismo, como no podía ser de otro modo. Y del comunismo, claro. También criticaba al capitalismo. Pero no como si fuera un dirigente de Vox o de AfD; reconocía y defendía la libertad de todos para producir e intercambiar bienes.

Su crítica iba encaminada hacia el capitalismo como fenómeno histórico. Un capitalismo como mezcla de intervención estatal y autonomía social, en el que la grandiosidad productiva iba acompañada de la figura de un hombre-masa, una persona desdibujada, desarraigada, con consecuencias morales y políticas fatales. Entre esas consecuencias se encuentra la disposición de muchos a aceptar las ideas totalitarias contra las que luchó desde muy joven. Desde que se dio cuenta, gracias a Ludwig von Mises, de que el socialismo era un error.

El artículo va de un lado a otro. Tropieza con la inmigración, llega a un dirigente de AfD, vía Zitelmann, que habla de la tensión entre el hombre conservador fetén y el capitalismo, y rebota contra BlackRock. Por poner orden en este terreno, yo comenzaría por hablar de Maximilian Krah, que encabeza la lista del partido identitario alemán a las Elecciones Europeas.

Zitelmann le cita, en un artículo publicado por Libertad Digital, diciendo: “La política de derecha, (…) se construye alrededor del arraigo del ser humano. Esa noción de una vida centrada en la persona, con la identidad como concepto fundamental, está siempre en tensión con el mercado”. El mercado, dice Krah, “no muestra consideración por la tradición, por la naturaleza o por la identidad”.

De modo que tenemos al candidato de AfD criticando la economía de mercado. No “el capitalismo”, como término-comadreja, como amalgama de estatismo y cooperación voluntaria que sirve para todo. No. Krah critica la economía de mercado: la libertad de producir e intercambiar lo propio por lo ajeno.

A Krah no le gusta la libertad, y entiendo que a David Román tampoco, porque ya sabemos cómo es esto; la gente va y hace lo que le da la gana, en lugar de hacer lo que me da la gana a mí. Y esa sensación llega a ser intolerable para algunos. Esta mentalidad tiene varias fallas.

La primera es que ni Krah ni Román son nadie para obligar a los demás a comportarse como a ellos les gustaría. La segunda es que no les gusta cuando sus hermanos ideológicos del lado oscuro nos obligan a todos a comportarnos como a éstos les gusta, pero a Krah y a Román no. Pero tu derecho a imponerte sobre los demás no es menor que el de los demás a imponerse sobre ti, y sobre otros. Y la tercera es que este juego de imposiciones lleva al quítate tú para ponerme yo.

Es cierto que cuando la gente hace lo que quiere (mercado), no tiene por qué seguir las indicaciones estéticas o morales de Román. Y que, a menudo, no lo hace. Para muchos eso supone un problema que el Estado tiene que resolver imponiendo su criterio sobre los demás. Hay una diferencia de grado, pero no de categoría, con otros grandes moralistas como Pablo Iglesias o Íñigo Errejón, por poner dos ejemplos cercanos.

La libertad, es cierto, puede contribuir a diluir ciertas identidades. Facilita la llegada de personas con formas distintas de ser en el mundo. Ofrece opciones diferentes de las que adoptaron tus padres. Pero impedir a los demás acudir a tu país u obligar a los propios a asumir una identidad tiene sus propios problemas. Esto último es opresivo y no asegura que prevalezcan las raíces de la propia cultura. Y, si verdaderamente es superior, no hay que tener miedo a que se enfrente a la competencia frente a otras opciones.

Hay una confusión generalizada entre economía de mercado y empresas. Esa confusión sólo puede nacer del desconocimiento, que explica ese anticapitalismo, o de la falta de honradez intelectual, que también explica ese anticapitalismo. Las empresas son un fenómeno característico de las economías de mercado, pero lo que caracteriza al mercado no es la defensa de las empresas, sino la defensa de la autonomía y la libertad dentro del ámbito propio.

BlackRock es una empresa. Un fondo enorme, descomunal, que recoge el ahorro de decenas de millones de ciudadanos, y que la empresa vehicula a tal o cual inversión. Tan grande es el fondo, que sus directivos le hablan a los oídos de los grandes dirigentes mundiales. No sé si es esta connivencia con el poder lo que explica que BlackRock, que en su momento fue la bestia negra de la izquierda, hoy sea uno de sus principales agentes. Pero lo es, y a Román el caso de BlackRock le sirve para condenar al capitalismo, toma sinécdoque. No me parece suficiente.
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O ideal da vida banal

 

BLOG  ORLANDO  TAMBODI

Quanto custará em tédio, aborrecimento e depressão a amputação ilusória da tragédia que revela a verdade do mundo tal qual ele é, sempre foi e sempre será? Nuno Lebreiro para o Observador:


Talvez para surpresa de alguns mais deslumbrados, a vida moderna não representa propriamente uma manifestação sofisticada de algum nobre ideal, ou virtude, consubstanciada numa experiência mais aprofundada, fecunda, escalpelizada do mundo. Pelo contrário, a existir um ideal que norteie a modernidade esse será a afirmação do ideal da vida banal. Hoje, não se espera do homem contemporâneo que se transcenda rumo ao martírio ou à santidade, nem sequer, para sermos justos, que respalde um conjunto particular de virtudes que, de forma harmoniosa, manifestem uma particularmente complexa e difícil tradução da vida boa, um conceito, aliás, maioritariamente interpretado pelo sentido hodierno que o termo “bom” ganhou — agradável, prazenteiro, saboroso —, ao invés do sentido antigo, clássico, onde o bom, a par do justo, representava a pureza do Bem, um ideal que, como Platão explicava, “apenas no limite do cognoscível” se poderia almejar vislumbrar. Esse periclitante “por-se em bicos dos pés” por parte do Homem na ânsia de se ultrapassar a si mesmo, o ancestral ideal existencial, acabou — tirando, talvez, na competição, normalmente atlética, transmitida como entretenimento em câmara lenta pela TV —, dando lugar ao conforto que o sofá almofadado do IKEA veio trazer para a maioria da população. Bem alimentado, o indivíduo moderno colhe hoje os frutos do engenho tecnológico resfastelado em arranha-céus feitos de betão armado, servido por elevador, uber eats e demais take-away, muito longe já das bestas do mundo animal primitivo, isto enquanto espreita, em directo, a tragédia do mundo que criou lá longe, do outro lado dos ecrãs azulados dos telemóveis, iPad’s e televisores.

A vida boa, aquela à qual o homem moderno aspira, não deixa de ser idealizada, é certo, mas não representa hoje em dia qualquer tipo de evocação do transcendente, nem sequer de um quadro de valores particulares, menos ainda de um especial exercício de virtuosa acção humana que, puxando os limites, rumo ao Cosmos, sonhe a elevação humana face à sua condição existencial inicial. Muito pelo contrário, a transformação, a existir, será apenas técnica e material; tal como a afirmação da vida normal como sendo a boa vida exalta, não a transcendência, mas sim a materialidade do mundo, hoje reduzido à conveniência, segurança e facilidade que devem marcar um quotidiano assente em rotina e agradável repetição. Deste modo, longe dos mitos fundacionais, dos relatos do heroísmo ancestral na criação do mundo, o homem moderno assume-se como o herói da normalidade, aquele que desfruta hedonisticamente do mundo como contrapartida pelo sucesso que a moderna tecnologia, sua invenção, lhe veio garantir. O seu poder não vem, portanto, da sua força individual, daquilo que enquanto indivíduo faz, ou do que poderia fazer; pelo contrário, e por paradoxal ausência, deriva da sua capacidade, única na história do mundo, para se eximir de sequer ter que fazer o que quer que seja. Onde, no mundo antigo, a realidade era dura e adversa, sendo, precisamente, da dificuldade dessa luta ancestral contra o caos que se aferia o heroísmo humano, passou-se hoje para um mundo novo onde o valor da modernidade reside na alegada transcendência face a essa anterior condição existencial, ou seja, na promessa de ausência de luta, conflito ou tragédia. Assim sendo, a grande “virtude” do homem moderno — uma virtude colectiva, partilhada, existencial, que o orienta necessariamente para o colectivo — reside no facto de, ao contrário dos seus antepassados, não enquanto indivíduo, mas enquanto espécie, crer ter conquistado o “direito” a não ter que fazer grande coisa, salvo, claro, tratar de garantir o básico, ou seja, a tal vida normal.

O mundo político, naturalmente, seguindo fielmente a maioria que garante a eleição, acompanhou a moda, reduzindo a antiga realidade de desígnios, causas e princípios a um linguarajar repetitivo, cacofónico, de pormenorizada e aborrecida estatística doméstica que afere o estado da Situação medindo, pressurosamente, entre outras coisas, o consumo per capita de electrodomésticos, automóveis ou aparelhos de telecomunicação. Ao mesmo tempo, afirmando o valor supremo da vida normal, espera-se erradicar toda e qualquer dificuldade, ou sequer angústia, por forma a garantir o direito inalienável ao pleno usufruto da normalidade humana — que de tão “normal” deverá ser igual para todos. Daí, nasce também o conceito do “safe space”, aquela área do mundo onde o humano moderno se sente completamente livre para exercer de forma completa e desimpedida a sua particular versão da normalidade — ganhando esta aqui o seu significado máximo como o arauto da auto-expressão subjectiva no mundo, uma manifestação banal tão vazia de conteúdo real na sua pretensa individualidade quanto é colectivamente oferecida, garantida mesmo, a todos, por igual, bastando para essa “conquista” ser-se eficaz na arte da birra, da lamúria, do queixume ou da histérica indignação.

No entanto, e apesar de quase despercebida, esta componente da revolução moderna é avassaladora na medida em que é a própria valoração do Homem perante o mundo que foi invertida: onde antes era das dificuldades particulares que se mediam os sucessos necessariamente individuais de cada um, hoje o sucesso implementa-se garantindo que não existem dificuldades individuais algumas, algo que se verifica transversalmente na sociedade, invariavelmente acoplada com a progressiva substituição do esforço individual pelo mérito colectivo — assim justificando o enorme paradoxo dos dias de hoje que vê as sociedades mais liberais do Ocidente culminarem naquelas que são igualmente as menos livres.

Assim também é na escola, por exemplo, onde o chumbo é já tão anacrónico quanto a angústia criada pela incapacidade de resolver um problema de trigonometria. Mas nem de outro modo poderia ser, pois que, em boa verdade, a escola de hoje não está orientada para gerar sumidades capazes de virtuosa excelência matemática, uma vez que, lá está, tal coisa não seria uma afirmação de normalidade. Pelo contrário, normalidade, na realidade, implica nivelar por baixo — ou seja, banalizar — por onde todos podem ser normais, onde todos se podem exprimir em igual e fraterna normalidade, nunca por cima, onde apenas o simples facto de alguém alcançar o que poucos conseguem alcançar acaba por revelar a desigual anormalidade que uma vida humana orientada para a excelência, por definição, significaria.

Na universidade, o exemplo é ainda mais flagrante: onde a dificuldade do acesso e do triunfo antes revelava a medida do sucesso, sempre do próprio, individual, tanto maior quanto maiores as dificuldades enfrentadas, hoje o sucesso mede-se pelo facto de todos terem acesso e de vermos toda uma geração “encartada” — “a mais preparada de sempre” —, ainda que essa preparação seja em inutilidades, ou apenas no papel. Ainda assim, também aqui não apenas o sucesso é de todos, logo coletivo, como se desvaloriza o individual na medida em que todos o conseguem fazer, incluindo os loucos e os histéricos — a banalização, inevitavelmente, revela-se sempre como sendo a outra face da moeda da afirmação da normalidade. Mas, tomem-se outros exemplos, como nas artes onde nos últimos anos a quimera da auto-expressão subsidiada, garantida, substituiu o outrora imortal grito humano pela excelência por um charco de lixo ininteligível, quando não simplesmente animalesco, mundano, porco em muitas circunstâncias, ao qual ninguém liga salvo os próprios, sempre incapaz de inspirar seja quem for. Ou, noutro campo, na arquitectura, com o triunfo máximo do funcionalismo onde a normalidade se revela pela geometria repetitiva dos caixotes funcionais, do minimialismo, branco, asséptico, reflectindo ainda hoje a idealização, já démodé, de Kubrick, em 1968, sobre o que seria o ano 2001.

Também no campo dos valores o mesmo se passa com a crescente subjugação de tudo, incluindo a vida, face ao expediente e ao interesse banal do momento. Aqui veja-se como se transformou o aborto numa questão de conveniência económica doméstica que decide a vida e a morte de terceiros sem qualquer enfoque no valor da vida gerada, ou potencial, mas muito mais no nível da funcionalidade imediata, prática, material; tal como a eutanásia, repare-se, glorifica também ela a vida normal, sem qualquer sofrimento, pois que este, sendo trágico, logo não-moderno, não deverá ter lugar na vida banal, significando também que mais vale morrer por vontade própria, no controlo do “safe space”, do que enfrentar a dor, a angústia e o natural sofrimento do mundo. Isto, claro, enquanto o Estado, progressivamente, e em nome do ideal da vida normal, acaba chamado para decidir sobre a vida e a morte das pessoas — o Estado que salva, o Estado que mata, tudo rápido, tudo indolor, tudo funcional, tudo normal.

O prático, o seguro, o confortável, tudo variantes da afirmação da vida normal, eis a verdadeira expressão máxima do materialismo moderno progressista: o ideal assente no pressuposto de que a vida realiza-se materialmente pela capacidade de evitar a adversidade, seja esta uma divisão arquitectónica menos ampla, uma prova académica mais difícil, um novo serviço menos verificado, uma polémica social qualquer que crie angústia, ansiedade ou simples ofensa, assim é o mundo moderno — ridículo, absurdo, tristemente cobarde. Transversalmente, a afirmação da banalidade flui ora por todos os componentes políticos, desde os conservadores preocupados com a economia doméstica, aos liberais obcecados com o “safe space” dos direitos individuais, culminando com os marxistas e seus sucedâneos que, a cada novo escândalo e indignação, aproveitam para vender mais e mais Estado. Hoje, a afirmação da banalidade, coerente e pleonasticamente, tornou-se ela própria banal e hegemónica, tudo arrasando à passagem da vaga estandardizadora da normalidade repetitiva, imitadora, histérica na exigência conformadora — e enjoativa de tanta falta de originalidade.

No entanto, por trás da fanfarra ufana e de toda a mise en scène, a modernidade apenas promete uma utopia que, no deslumbre brilhante da abundância material, mais não visa que substituir o ideal da transcendência espiritual pelo materialismo puro e duro. No primeiro, próprio do mundo antigo, a natureza trágica do mundo era aceite como uma inevitabilidade cujo enfrentar conferia valor, sentido e significado à vida humana; no segundo, imagina-se agora um mundo novo onde a tragédia, numa extrapolação abusiva do paraíso Cristão para o mundo terreno do aqui e agora, é simplesmente abolida como algo social e politicamente inaceitável.

A questão que sobra será até que ponto este desígnio da modernidade, hoje cada vez mais reflectido num optimismo progressista que não encontra barreiras nem limites, será concretizável. Devemos imaginar Sisifo feliz, escreveu Camus nas linhas finais do seu Mito, mas será mesmo que Sisifo seria mais feliz se tivesse um robot telecomandado para empurrar a pedra montanha acima por ele? Ou se, por força de algum instrumento de levitação electromagnética, conseguisse Sisifo perpetuamente empoleirar a imensa pedra no topo, resolvendo de facto a sua situação, e mudando-se para uma cabana no sopé da montanha, com jacuzzi e Netflix, estaria ele mais satisfeito na sua eternidade? Por outras palavras, quanto custará em tédio, aborrecimento e depressão a amputação ilusória da tragédia que revela a verdade do mundo tal qual ele é, sempre foi e sempre será?

A modernidade progressista e a sua deslumbrada crença na afirmação da vida normal parece ter esquecido que o Homem desde sempre se mediu pela forma como enfrentou a tragédia do mundo, não pela cobardia com que se escondeu dela. A vida com significado, plena de sentido e sensação de satisfação individual, a pedra de toque da felicidade humana, sempre se fez enfrentando o mundo, nunca, como hoje, pela exaltação de um modelo de vida relapso, diletante, ordinário — e vazio —, onde a problemática no mundo rico e opulento do Ocidente parece ser a de como permanecer perpetuamente entretido, para não dizer alienado.

O erro, naturalmente, está na base, no pressuposto materialista de que o mundo se resolve, ou poderá ainda vir a resolver, materialmente. Esquecendo o aborrecimento entediante que tal solução materialista traria consigo, a modernidade e os seus acólitos têm progressivamente intentado fazer esquecer que o mundo não se limita à sua cambiante material e alegadamente científica. Não obstante, a verdade intemporal continua hoje, como sempre, a ser apenas uma: é da relação com o mistério, com o Cosmos assente no infinito desconhecido, no abismo do divino, que, espreitando, a medo, com coragem, o Homem sonha servir para alguma coisa — e é desse sonho trágico que ele se consola na aridez solitária do mundo material.

A modernidade ao esquecer isto — e o “isto” é o essencial — corre o risco de esbanjar em frívola banalidade a melhor oportunidade material que ocorreu na história da Humanidade para almejar dar um salto, quem sabe rumo ao Cosmos e às estrelas. Ainda assim, como se isso já não nos bastasse de trágico, com os seus gritinhos ululantes, os acólitos do absurdo, em uníssono, que nem autómatos com pilhas, não descansam na sua incessante e fanática patrulha pela nova moral e os novos costumes, assim infernizando a vida de todos aqueles que não se deslumbram com os brinquedos do admirável mundo novo. Haja paciência, no mundo real uma tragédia nunca vem só.

A China tomou posse do MST

BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

O Partido Comunista Chinês já tem os grandes produtores brasileiros de joelhos. Os fazendeiros praticamente se tornaram fornecedores de cliente único, tornando o agronegócio nacional perigosamente dependente dos interesses do partido. Leonardo Coutinho para a Gazeta do Povo:


O Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) divulgou que está fazendo um negócio da China. Literalmente. O Partido Comunista Chinês vai investir na organização que tem como uma das suas principais atividades a invasão de terras.

No fim de julho, uma delegação de 14 pesquisadores da Universidade Rural da China visitou assentamentos do MST e prometeu intercâmbio e suporte técnico para ajudar os assentados a modernizar seu sistema produtivo.

A parceria, no entanto, é um belo negócio que os chineses avistaram depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na China carregando no colo o chefão do MST, João Pedro Stédile.

De volta ao Brasil, o MST se abrigou sob o dossel de institucionalidade do Consórcio Nordeste – que, não por acaso, também foi à China acomodado na algibeira presidencial. As duas organizações anunciaram que serão uma espécie de laboratório do empreendedorismo agrícola chinês.

O governo do Rio Grande do Norte estendeu o tapete vermelho para os chineses demonstrarem a grandiosidade de sua tecnologia agrícola e recepcionará um campo de testes de pelo menos 31 modelos de equipamentos que serão usados em lavouras do MST.

Antes de tomar esta iniciativa, entretanto, o Consórcio Nordeste bateu em muitas portas, dentro e fora do Brasil, em busca de financiamento “carimbado” para as máquinas chinesas. Como não deu certo, resolveram, então, transformar a região em um grande showroom para ajudar a convencer não só entes governamentais e agências de fomento, mas também os produtores da magnificência do maquinário que o Partido Comunista Chinês quer desovar no Brasil.

A aliança do Consórcio Nordeste com os interesses da China não é recente. Desde a sua criação, em 2019, a associação de governos esquerdistas nordestinos se apresentou como trincheira chinesa no Brasil. Uma espécie de movimento de secessão, que tinha como pretexto se contrapor ao “fascismo” do governo federal que buscava se afastar da China ao mesmo tempo que se alinhava aos Estados Unidos, na época comandados por Donald Trump.

Durante a pandemia de Covid-19, o consórcio passou a tratar diretamente com o embaixador chinês e com o governo da China, que ignorou qualquer tipo de protocolo e respeito na relação bilateral com o Brasil e passou a lidar com o grupo de governadores como se eles formassem um Estado dentro do Estado.

Quais serão as reais implicações da marcha da China sobre a agricultura familiar brasileira, valendo-se dos governadores esquerdistas do Nordeste e do MST? Não é possível prever com exatidão, mas os sinais apresentados pelos próprios envolvidos na operação indicam que:

1. O Partido Comunista Chinês já tem os grandes produtores brasileiros de joelhos. Os fazendeiros praticamente se tornaram fornecedores de cliente único, tornando o agronegócio nacional perigosamente dependente (e subserviente) dos interesses do Partido Comunista Chinês;

2. Os chineses viram um grande negócio no Brasil. Não soa nada absurdo ver, em breve, milhões e milhões de reais provenientes dos cofres públicos jorrarem para o financiamento dos tratorzinhos chineses. O diminutivo não é depreciativo, mas uma referência ao sistema de minimáquinas que a China desenvolveu para atender minipropriedades;

3. A conquista da produção da agricultura familiar, que ficará atrelada – potencialmente em um modelo de sociedade 50%-50% com os chineses. O que antes era 100% brasileiro perderá, de imediato, metade da influência nacional e possivelmente muito mais do que isso no que se refere à destinação para o mercado interno;

4. Quase ninguém se lembra, mas, durante a pandemia de coronavírus, a China chantageou meio mundo – e não foi diferente com o Brasil – sequestrando insumos para vacinas e emperrando as cadeias logísticas para se blindar de qualquer crítica ao regime e sua lista sem fim de violações. O Congresso brasileiro, políticos de todos os matizes ideológicos e a imprensa, sem falar do Consórcio Nordeste, uniram-se em coro para reverenciar a ditadura. Pois sem ela todos nós morreríamos, não é mesmo? Como o Partido Comunista entendeu o processo de domesticação ao qual fomos submetidos, eles avançaram na conquista;

5. O esquerdismo latino-americano do qual o MST faz parte é terreno fértil para o Partido Comunista Chinês semear suas políticas estratégicas que nada têm a ver com os interesses locais, mas apenas servem de plataforma para os objetivos globais do regime chinês.

Uma pesquisa de opinião realizada pelo Instituto Latinobarómetro, com sede no Chile, revelou que o desprezo dos latino-americanos pela democracia tem crescido de forma perturbadora. Do total de 20 mil pessoas ouvidas em 17 países da região, 17% disseram preferir um regime autoritário a um sistema democrático. Para outros 16% tanto faz viver em uma democracia ou uma ditadura. A coisa fica ainda mais horripilante quando perguntados se defendem a democracia: o porcentual dos que disseram “sim” caiu de 63%, em 2010, para 48%, em 2023.

China, Rússia, Irã, Cuba, Venezuela e as demais autocracias que existem pelo mundo trabalham noite e dia para desacreditar as democracias. O mais bizarro é que eles têm conseguido fazer isso muito bem com o apoio de muita gente da direita que acredita que questões ligadas à corrosão de valores familiares ou tudo que cabe no tal wokeismo são culpa da democracia.

Esse sentimento repleto de confusão é usado pelas ditaduras para se normalizarem, colocando em xeque os valores democráticos. Ninguém tem investido mais nisso que o Partido Comunista Chinês. Xi Jinping tem gastado muito de seu capital político e financeiro para vender a ideia de que o Ocidente não pode ter o “monopólio da democracia”, ou mais precisamente dizer o que é democracia. Xi, na maior desfaçatez possível, passou a vender a ideia de que há uma democracia com características chinesas. Truque que angariou adeptos dentro dos principais partidos políticos do Brasil, inclusive.

A China compra quase tudo e todos. Não resta dúvidas de que a sua mais recente aquisição é o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra. Mas, no caso, parece que não foi bem uma compra e sim, como dizem os seguidores de Stédile, uma ocupação. Ou seja, a China tomou posse de algo do qual ela se sente literalmente dona.
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De inevitável, só a morte e os impostos.

BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

E se o caixão vier da China e custar mais de 50 dólares, dá-lhe 92 por cento de taxação. A crônica de Orlando Tosetto para a revista Crusoé:


O amigo conhece o ditado: de inevitável, neste mundo, só a morte e os impostos. Como todos os ditados, é meia-verdade. Porque a morte não foi inevitável para todos: dela escaparam Enoque, o profeta Elias, a maioria dos vampiros e todos os membros da Academia Brasileira de Letras. Já quanto aos impostos, bom, aí sim: não se conhece o nome de ninguém que deles tenha se livrado (e quem conseguiu, se existiu, não fez propaganda do fato). Ora, e com tudo isso, os sensatos ainda preferem os impostos à morte. Não sei até quando.

Não falo da reforma, não. Pego o exemplo da família. Minha tia e minhas primas têm o hábito de comprar coisas na China – não indo lá, evidentemente, mas sim pelo intermédio ou atravessamento dessas lojas de internet que vendem praticamente de tudo, de pavio para vela aromática até ração para girafa albina. Formando no pelotão dos remediados, as compras delas se enquadram no grande padrão nacional da baixa renda: tudo abaixo de 50 dólares, talvez até abaixo de 40, se é que não abaixo de 30 ou 20. Mas, enfim, houve lá uma vez ou outra, rara vez ou outra, em que a conta delas bateu em, digamos, 50 dólares e cinquenta cents, ou 50 dólares e sessenta e sete cents, por aí. Cinquenta dólares, sabem todos os que têm negócios com as lojas online do Catai, é o limite para comprar de fora sem pagar imposto adicional.

Até quase ontem mesmo, esses cents quebrados passavam batidos. Mas agora, como já andaram anunciando por aí as Lojas Aladim Ponto Com, não vão mais passar: estourou o limite das cinquenta doletas, tome 92% de taxação em cima (que é o que o governo brasileiro, esse fofo infalível, entendeu que deve ser cobrado de quem estoura o limite, sob o nome neutro de Remessa Conforme). Quer dizer: os 50 dólares e sessenta e sete cents se transformarão em 97 dólares e vinte e nove cents, se é que minha formação humanitária – sou de humanas, percebe? – não me fez errar nas contas. O fluxo de pacotes chineses vai cair drasticamente, senão na casa delas, onde elas sambam miudinho para se aviar, ao menos nas casas dos milionários que compram dois ou três dólares a mais.

Ora, é claro que a gente sabe – eu, pelo menos, sei – que é preciso pagar alguma coisa ao governo em troca dos serviços maravilhosos e das instituições impolutas e eficientes que ele, paizão, fica aí nos prodigalizando de graça. É até questão de justiça: como é que nosso presidentíssimo conseguiria ir nos abrilhantar, sei lá, no Paraguai se a gente não lhe pagasse o querosene do avião? Como é que quinhentos e treze deputados federais continuariam a sorrir belamente se a gente não lhes provesse o dentifrício? Como é que oitenta e um senadores apareceriam ante o cosmos tão bem vestidos se a gente lhes não subvencionasse os panos? E como é que os poderes, olha, os poderes!, poderiam continuar sendo tão poderosamente poderosos se a gente não lhes desse aquela fortalecida no orçamento?

Repito: questão de justiça.

E, mesmo assim, prevejo dias sombrios em que vai haver gente preferindo a morte aos impostos. Vão achar, talvez, que morrer por menos de 50 dólares livra o enterro de taxação adicional. Isso, claro, caso o caixão venha da China; o caixão nacional, creio, só paga os impostos daqui mesmo.

* * *

Vi também que o jamais assaz louvado senhor presidente andou dizendo por aí que “a sociedade não precisa saber como vota um ministro da Suprema Corte”. A frase causou sensação, e parece que até algum mal-estar, até mesmo entre gente que só tem visto maravilhas na administração atual. Não entendi bem por que o sobressalto: a história mostra que as pessoas que compartilham as inclinações ideológicas do excelso mandatário têm mesmo essa ideia de que quanto menos se conta à sociedade, mais feliz ela fica, e que, portanto, é de bom aviso exercer um certo controle da informação que chega até ela. Daí as conversas de regulação da mídia e o combate heroico às fake news, por exemplo.

Da minha parte, mesmo reconhecendo que, respaldada pelo olhar puro e pela voz aveludada e sincera do mais imaculado dos homens, a ideia se torna mesmo quase irresistível, ouso formar com os que acham que Sua Majestade, opa, perdão, Sua Excelência, ao menos neste caso, se equivoca. Não é que a sociedade não precise saber como vota a Suprema Corte: é que tanto faz.
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Foi tudo ilusão na Lava Jato?

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Aqueles computadores e programas da Odebrecht não existem? Foi tudo uma ilusão? Carlos Alberto Sardenberg para o jornal O Globo:


O que a Petrobras fará com os R$ 6,28 bilhões que recebeu de empresas e executivos, inclusive da própria estatal, a partir dos acordos de leniência firmados no âmbito da Operação Lava-Jato? Se foi tudo uma “armação”, se os pagamentos foram indevidos, a Petrobras tem de devolver esses bilhões.

Parte do dinheiro pago pela Odebrecht foi para o Departamento de Estado dos Estados Unidos e a Procuradoria-Geral da Suíça. Colaboraram nas investigações que chegaram ao famoso sistema Drousys, usado pelo setor de Operações Estruturadas da empresa para controlar os pagamentos de propina a autoridades e políticos.

Mas, se não aconteceu nada disso, os acionistas da Odebrecht têm o direito de reclamar de volta esse dinheiro enviado para os gringos.

A Petrobras teve de pagar indenizações a acionistas que negociavam seus papéis na Bolsa de Wall Street. Foi um acordo por meio do qual a estatal brasileira reconheceu a má gestão — ou, mais exatamente, a corrupção, o petrolão —, circunstância que, obviamente, influiu negativamente no valor de suas ações.

Mas, se foi “armação”, todas essas indenizações foram indevidas. E então, que órgão do governo brasileiro organizará as cobranças aqui e lá fora?

Ou vai ficar tudo por isso mesmo?

Ocorre que o ministro Dias Toffoli encaminhou outras providências. Determinou que todos os órgãos envolvidos nos acordos de leniência sejam alvo de investigação para apurar eventuais danos à União. É uma longa lista. Vai da Lava-Jato de Curitiba até a Advocacia-Geral da União, Ministério Público e mais — centenas de gestores.

Um deles está ali mesmo, ao lado de Toffoli, numa cadeira do Supremo. Trata-se de André Mendonça, ex-chefe da AGU. O órgão foi parte ativa nos acordos de leniência, como o próprio Mendonça confirmou e elogiou numa entrevista em abril de 2019. Disse ainda que a AGU continuava patrocinando outros acordos.

No total, os acordos de leniência levaram a pagamentos de R$ 25 bilhões a diversas empresas estatais e instâncias de governos estaduais e federal. Também há complicação no âmbito do Judiciário. Em 23 de abril de 2019, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu por unanimidade manter a condenação de Lula no caso do tríplex do Guarujá. O mesmo STJ permitira a prisão de Lula, em abril de 2018, com base no entendimento de que o réu poderia começar a cumprir a pena depois da condenação em segunda instância. E o plenário do STF, em 4 de abril daquele ano, negara habeas corpus que livraria Lula da prisão. A decisão foi apertada, 6 a 5, mas tomada pelo plenário. “Armação”?

A recente decisão de Dias Toffoli foi monocrática, assim como fora a de Edson Fachin, quando, em 8 de março de 2021, anulou todas as condenações de Lula na Lava-Jato. Argumentou que o processo deveria ter sido aberto em Brasília, e não em Curitiba — “descoberta” feita cinco anos depois da abertura do caso. A decisão foi confirmada pelo plenário do Supremo — o que denota um tipo de corporativismo. Você não mexe na minha sentença, eu não mexo na sua.

Depois disso, o então ministro Ricardo Lewandowski tomou várias decisões monocráticas anulando as delações da Odebrecht nos processos de Lula. Toffoli completou o serviço, anulando toda a delação. Então ficamos assim: um erro processual, primeiro, e uma sequência de decisões monocráticas, depois, determinaram que as delações foram irregulares, o que dispensa, nessa grande “armação”, a verificação das provas. Quer dizer: aqueles computadores e programas da Odebrecht não existem, foi tudo uma ilusão.

Tudo considerado, há uma conclusão que se pode tirar para preservar a democracia e a segurança jurídica. Como já sugeriu o advogado, jurista e ex-ministro da Justiça José Paulo Cavalcanti Filho, as decisões monocráticas deveriam ser simplesmente vetadas. Abolidas. Do jeito como está, não temos uma Corte, mas 11 capitanias que decidem cerca de 90% dos casos. Dá nisso.

Agora, quem quiser saber a história real, está no livro de Malu Gaspar “A organização: a Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo”.

Suas Excelências deveriam ler.
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A opinião pública no país dos ‘orçamentos secretos’



Só masoquistas têm paciência para se ocupar do que dizem e fazem os 594 cavalheiros que detêm mandatos eletivos no Congresso Nacional. Artigo do professor Bolívar Lamounier para o Estadão:


A genialidade do filósofo Thomas Hobbes (Leviatã, 1651) pode ser aquilatada pelo fato de ele ter claramente antecipado um fenômeno que ainda se encontrava distante no tempo: o surgimento da opinião pública.

“Pública”, ele escreveu, é uma manifestação que uma coletividade (Commonwealth) proclama “como uma pessoa”. Nesse sentido, a comunicação entre indivíduos, mesmo volumosa, não merece tal denominação. Desdobrando a intuição de Hobbes e transpondo-a para a linguagem moderna, o historiador Hans Speier (American Journal of Sociology, abril de 1950) conferiu-lhe uma forma impecável: “Entendemos por opinião pública opiniões referentes a questões de interesse para a nação, expressas de modo livre por indivíduos externos ao governo, que demandam o direito de que suas opiniões influenciem ou determinem as ações, a burocracia ou a estrutura de seu governo”. Ou seja, a expressão opinião pública diz respeito a comunicações dos cidadãos a seus governos, e só muito secundariamente comunicação entre os cidadãos, por importantes que sejam ações coletivas autonomamente encetadas por eles.

Lembremos que tais reflexões precederam o Iluminismo, tendência de ideias que predominou no século XVIII. Precedeu por larga margem o aparecimento de jornais e revistas. No século XVII, na Inglaterra como na França (mas não na Alemanha), o modo por excelência pelo qual a opinião pública ganhava seus primeiros contornos eram encontros em cafés, restaurantes, teatros e similares. Estima-se que 2 mil locais desse tipo funcionavam regularmente em Londres na época a que nos estamos referindo. O cerne do conceito de opinião era, pois, que os governos não poderiam conduzir suas ações de forma secreta. Nessa linha de pensamento, Jeremy Bentham exigiu plena publicidade para todos os atos de governo. Com o correr do tempo, essa noção, defendida por todo o Iluminismo, com evidente destaque para Jean-Jacques Rousseau, estendeu-se à própria área das relações internacionais; a Liga das Nações deu-lhe seu apoio, com o objetivo de impedir a inserção de cláusulas secretas em negociações entre países.

Do exposto, pode-se diretamente inferir que a importância do conceito de opinião pública ganharia forte impulso em razão de dois fatores: sua extensão ao campo das finanças públicas e a formação de uma classe média robusta. O primeiro desses dois elementos surgiu como pressão contra empréstimos públicos, mas Jacques Necker (pai de Madame de Staël e três vezes ministro das Finanças de Luís XVI) conferiu-lhe consistência ao sublinhar que o apoio da opinião pública seria um forte aliado em seu objetivo de conduzir sua política econômica com eficiência e sobriedade. Defendeu que a política fiscal haveria de ser executada com “franqueza e publicidade”. Sua grande contribuição, além do reforço que a opinião pública traria à sua gestão, foi a exigência de que os relatórios fiscais fossem publicados, a fim de que os méritos e as falhas do governo pudessem ser apropriadamente avaliados pela nação.

Escusado dizer que o impulso dado à opinião pública por homens de Estado como Necker foi complementado pelo crescente poder econômico da classe média, a partir do fim do século XVII na Inglaterra e do século XVIII na França. No que toca à classe média, é mister lembrar o vertiginoso aumento da escolaridade que teve lugar desde a reforma calvinista, exigido pela obrigação de ler a Bíblia sem a interferência do clero. Assim, a população rapidamente se escolarizou na maior parte da Europa.

Que dizer, porém, de um país no qual o Congresso regride da publicidade das contas fiscais para o “orçamento secreto”, cuja classe média é sabidamente anêmica, onde os próprios cidadãos duvidam de si mesmos como unidades daquele “todo” que Thomas Hobbes considerou essencial à noção de opinião pública, e, não menos importante, onde homens públicos do calibre de um Necker surgem só uma ou duas vezes a cada século?

Claro, a indagação acima é retórica. No tempo de Hobbes, isso aqui era um mataréu. Releguemos, pois, o “orçamento secreto” ao campo em que ele se ajusta melhor, o da pilhéria. Sérias são as três outras questões: a exiguidade da classe média, fruto da tirania e da escravidão do período colonial. Mesmo na República, quando era imperativo proporcionar-lhe ensino técnico e bases econômicas para médias e pequenas empresas, o que sucessivos governos lhe deram foi o Estado cartorial, ou seja, o garrote de um emaranhado burocrático virtualmente irremovível. Não estranha, pois, que nos situemos na antípoda do calvinismo.

No mínimo 30% dos brasileiros são analfabetos e carecem da mais elementar autoestima. Não abrem a boca para tratar de assuntos “relevantes para a nação” (na expressão de Speier) e, sejamos francos, mesmo no plano privado, só masoquistas têm paciência para se ocupar do que dizem e fazem os 594 cavalheiros que detêm mandatos eletivos no Congresso Nacional. Lá, quem tiver ânimo para procurar um Necker bem fará em, primeiro, pedir emprestada a lâmpada de Diógenes.
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A Fábrica dos Sonhos: uma advertência.

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Quem são as auto-denominadas Mentes Inclusivas que ditam cortes, correções e alterações a tudo o que vai sendo contado às crianças e divulgado ao povo? Jaime Nogueira Pinto para o Observador:


Walt Disney era um cristão congregacionista e um republicano conservador que queria perpetuar nas suas produções o culto do sonho e da fantasia para “divertimento familiar”. Era um homem claramente de direita, que aderira ao primeiro America First, o de Charles Lindbergh (tal como o jovem John F. Kennedy e um outro futuro presidente dos EUA, Gerald Ford); e que, em 1944 – juntamente com Gary Cooper, Cecil B. De Mille, Victor Fleming, John Ford, Clark Gable, Adolphe Menjou, Robert Montgomery, Dick Powell, Ayn Rand, Ronald Reagan, Ginger Rogers, Barbara Stanwick, Robert Taylor, King Vidor, John Wayne e Sam Wood e outros – fundara a Motion Pictures Aliance for the Preservation of American Ideals, contra o radicalismo de esquerda que ameaçava invadir Hollywood e em nome da vasta maioria do público e “da vasta maioria não organizada” dos que trabalhavam “nesse grande meio de expressão, o Cinema.”

Da vasta maioria às vastas minorias

Na impossibilidade de cancelar alguns dos velhos clássicos ou de os refazer a todos de modo a não melindrar todo um conjunto potencialmente infindável de minorias reais e imaginárias, a Disney passa agora a incluir, obrigatoriamente, uma advertência:

“Este programa inclui representações negativas e/ou tratamento pejorativo de pessoas ou culturas. Estes estereótipos eram incorrectos na época e continuam agora a sê-lo. Em vez de os remover, queremos reconhecer o seu impacto prejudicial, aprender com ele, e despertar um diálogo para criarmos juntos um futuro mais inclusivo”.

O tratamento caricatural dos “povos asiáticos” nos Aristogatos; o coro racista dos corvos em Dumbo; o retrato “unidimensional” dos índios no Peter Pan ou o “orientalismo” de Aladino, merecem especial referência.

Entretanto, para combater os estereótipos, as novas princesas da Disney tendem a engolir sapos com bravura, a levar uma existência gélida e solitária e a prescindir de príncipes (talvez uma minoria a considerar brevemente). As auto-determinações e preferências sexuais minoritárias têm também vindo a ser incluídas nos novos filmes infantis, proporcionando a muitos pais o “divertimento familiar” de pré-visionar cuidadosamente todo e qualquer filme da Disney que não contenha disclaimers, ou advertências de incorrecção (garantia de que são anteriores ao afã inclusivo).

É, no entanto, do remake não-animado de Branca de Neve que tem vindo grande parte da animação polémica – e não é por a protagonista, Rachel Zegler, se identificar como “latina”, adaptando à era do aquecimento global a nevada branquitude de Branca; nem tão pouco pelo cancelamento do beijo não-consentido do Príncipe (aliás, escusado, uma vez que Branca se apresentava agora uma princesa moderna e “desperta”): o problema vinha agora dos anões, ou de alguns anões. É que nesta versão da história, com vista a não ofender a minoria em causa, os anões já não eram anões (ou havia só um anão), eram “magic creatures” de vários tamanhos, géneros e grupos étnicos.

Peter Dinklage, o popular anão de A Guerra dos Tronos, disse-se satisfeito com a decisão da Disney de banir “estereótipos fora de moda”; mas logo na indústria cinematográfica se levantou o protesto dos actores-anões no desemprego: que outra melhor oportunidade poderiam ter? Peter Dinklage descobrira a mina de oiro, açambarcava todos os bons papéis de anão e falava de barriga cheia. O porta-voz da Little People of America, uma associação sem fins lucrativos dedicada ao bem-estar das pessoas “of little stature and their families”, foi dos que mais se indignou com a declaração do popular actor: quem era Dinklage para falar em nome dos anões? E porque é que no filme de Rupert Sanders, Snow White and the Huntsman (Branca de Neve e o Caçador) não havia anões – ou antes, os anões eram interpretados por actores de estatura normal, como Ian Mcshane, Bob Hoskins e Ray Winstone, usando duplos e manipulação digital? Os anões deviam ser representados por anões, tudo mais era “apropriação cultural”.

Mentes pouco inclusivas

Mas a reescrita correctiva de antigos clássicos não se fica pelo cinema norte-americano nem pela Disney. O zelo atinge também a obra de Agatha Christie, que está agora a ser censurada com a autorização e a cumplicidade dos seus herdeiros. Assim, para cortar o mal pela raiz e evitar mal-entendidos, Ten Little Niggers, o célebre policial de 1939, passará à designação mais neutra de And then There Were None. Roald Dahl (1916-1990), o popular escritor britânico de livros infantis, com mais de 300 milhões de exemplares vendidos, também sofreu igual sorte. Entre as palavras censuradas na obra de Dahl estão fat, ugly, crazy e female. Mother e father foram também convenientemente substituídos pela mais fluída e inclusiva designação de parents.

“Vandalismo”, é como C. J. Box, autor americano de best-sellers e criador de Joe Pickett, classifica a actual fúria censória, sugerindo que os escritores passem a incluir nos seus contratos cláusulas que proíbam expressamente que fiscais que “não devem muito à inteligência” façam “correcções imbecis” às suas obras. Salman Rushdie foi outra das mentes pouco inclusivas a definir as alterações aos livros de Dahl como um “vergonhoso e absurdo” exercício de censura.

No Reino Unido, entre os 63% dos inquiridos que se pronunciaram contra as correcções aos livros de Dhal promovidas pela Inclusive Minds estão grande parte dos escritores, o primeiro-ministro, Rishi Sunak, e a própria “Rainha má”, Camila, a Rainha consorte, grande entusiasta da promoção da leitura entre crianças e adolescentes. Numa reunião com escritores em Clarence House, em Fevereiro deste ano, Camila exortou os presentes a não se deixarem pressionar e impressionar por quem acaso pretendesse “cortar a vossa liberdade de expressão ou impor limites à vossa imaginação.” E, glosando uma passagem de John Steinbeck, pediu-lhes ainda que, nas suas obras, “não chiassem, temerosamente como ratos, mas rugissem orgulhosamente como leões”, terminando, entre risadas cúmplices dos ouvintes, com um “E mais não direi.” Mas disse, ou escreveu, mais, pedindo por carta ao editor de Dhal que, em nome da liberdade de expressão, mantivesse a versão original dos seus livros, ainda que a par da versão corrigida pelas “Inclusive Minds”, se preciso fosse.

Depois da carta da Rainha, o Editor Puffin anunciou que além da edição corrigida, censurada e inclusiva, publicará uma versão integral, sem alterações.

A fada-madrinha da inclusão

Mas quem são estas auto-denominadas Mentes Inclusivas que ditam cortes, correcções e alterações a tudo o que é contado às crianças e divulgado ao povo? São, segundo as mesmas, “pessoas apaixonadas pela inclusão e acessibilidade da literatura infantil” e empenhadas em “não ferir ou agredir sensibilidades”, contando para isso com toda uma vasta gama de “inclusivity ambassadors and sensitivity readers”, de idades compreendidas entre os oito e os trinta anos. Ora toda esta legião de embaixadores da inclusão e de leitores de sensibilidades reporta – ou reportava, até há pouco – a Jo Ross Barrett.

Googlando Jo Ross Barrett ficamos a saber que a fada-madrinha da correcção ideológica é, nas suas próprias palavras, “an experienced writer, editor and inclusion consultant” que possui o dom da pluralidade e da inclusão, reivindicando desde logo para si o pronome they. Define-se também como “a queer autistic non-binary person with depression and anxiety”, cujas áreas de especialidade incluem “aromantic-and assexual-spectrum topics, the bi umbrela, disability, gender (including transgender and non-binary topics) and intersectional feminism”. Foi esta pessoa “eles” que liderou a equipa responsável por censurar e reescrever os livros de Dahl de modo a adaptá-los às crianças de hoje bem como outros livros da Macmillan Children’s Books, da Penguin Random House Children’s e da Raspberry Books. Fica a advertência.
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EX-PREFEITA DE CAMAMU TERÁ QUE DEVOLVER R$ 370 MIL E PAGAR MULTA DE R$10 MIL


26 de setembro de 2023

Os conselheiros do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia, na sessão realizada nesta terça-feira (26/09), decidiram que a ex-prefeita de Camamu, Emiliana Assunção Santos, terá que devolver aos cofres municipais R$370 mil e pagar uma multa de R$10 mil. Isto em razão de ilegalidades na contratação da empresa “KBM Informática”, por R$ 2,2 milhões no exercício de 2015. O contrato tinha por objeto a prestação de serviços educacionais de tecnologias da informação técnico-administrativa e pedagógica com a capacitação dos professores da rede municipal.

Diante dos fortes indícios de direcionamento do certame e superfaturamento da contratação, o conselheiro Plínio Carneiro Filho, relator do processo, determinou ainda a formulação de representação ao Ministério Público Estadual e solicitou que a Polícia Federal seja informada da decisão do TCM. Isto para que as duas instituições adotem – nos exercícios de suas atribuições – as providências cabíveis em relação aos ilícitos criminais e civis que podem ter sido praticados pela ex-prefeita. O ressarcimento aos cofres públicos foi determinado em razão da realização de pagamentos à empresa sem a efetiva realização dos serviços.

A denúncia foi apresentada pelo vereador Ronaldo Figueiredo Novais, que, na peça inicial do processo, se disse surpreso com a contratação da empresa “KBM Informática”, já que o objeto do contrato – “capacitação de professores da rede municipal ministrando cursos presenciais na área de tecnologia da informática” – não é a atividade principal da contratada. Acrescentou, ainda, que a prefeitura efetuou, no mês de maio de 2015, dois pagamentos à empresa, totalizando R$185 mil, sem que qualquer serviço tenha sido prestado. E, finalizou informando que o proprietário da empresa, Kells Belarmino Mendes, esteve envolvido em procedimentos fraudulentos em prefeituras de vários estados Federação, “inclusive da Bahia, a exemplo dos municípios de Mairi e Uauá”.

Para o conselheiro Plínio Carneiro Filho, a contratação da empresa “KBM Informática” foi realizada e executada de forma irregular, sendo apurada, durante a análise técnica do contrato, a existência de burla no procedimento licitatório com direcionamento na contratação, pagamentos sem a devida contraprestação, ausência de designação de fiscal do contrato, ausência de apresentação de relatório de controle interno, e, sobretudo, a evidência de sobrepreço/superfaturamento.

O Ministério Público de Contas se manifestou, por meio da procuradora Aline Paim Rio Branco, pela procedência parcial das irregularidades apontadas na denúncia, com aplicação de multa e determinação de ressarcimento ao erário, com recursos pessoais da gestora, do montante apurado por danos ao erário, no valor histórico de R$ 370 mil.

Cabe recurso da decisão.



 

PREFEITO DE RIACHÃO DAS NEVES É MULTADO PELA CONTRATAÇÃO IRREGULAR DE COOPERATIVA

 

PREFEITO DE RIACHÃO DAS NEVES É MULTADO PELA CONTRATAÇÃO IRREGULAR DE COOPERATIVA

26 de setembro de 2023

Na sessão desta terça-feira (26/09), os conselheiros do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia julgaram procedente termo de ocorrência lavrado contra o prefeito de Riachão das Neves, Miguel Crisóstomo Borges Neto, em razão de irregularidades na contratação da “Unibrasil Saúde – Cooperativa de Trabalho”, no exercício de 2019. O contrato tinha por objeto a terceirização de mão de obra na área de atendimento à saúde, pelo valor total de R$6,9 milhões.

O conselheiro Fernando Vita, relator do processo, imputou ao prefeito uma multa no valor de R$25 mil e advertiu o gestor sobre a necessidade de realizar o indispensável concurso público para a admissão de pessoal.

Para a relatoria houve, de fato, burla à regra do concurso público, vez que a cooperativa “Unibrasil Saúde” foi contratada para exercer funções originariamente estatais, quando o ordenamento jurídico admite a terceirização de mão de obra apenas de atividades-meio.

Além disso, a contratação da cooperativa revelou – segundo o conselheiro Fernando Vita – uma clara intermediação de mão de obra, já que não esteve vinculada a nenhum programa de saúde específico, de modo que não ficou demonstrada que a terceirização das atividades de saúde do município se deu como forma de complementar e melhorar os serviços públicos.

Cabe recurso da decisão.