MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

terça-feira, 1 de março de 2022

Atividade física e sono: entenda a relação

 


Estudos apontam que exercícios físicos ajudam a atingir o sono reparador e auxiliam de forma benéfica em distúrbios, como a apneia


Tribuna da Bahia, Salvador
01/03/2022 16:04 | Atualizado há 6 horas e 30 minutos

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Foto: Divulgação

Em uma análise de Charlene Gamaldo, M.D., diretora médica do Johns Hopkins Center for Sleep no Howard County General Hospital, nos Estados Unidos, pessoas que praticaram pelo menos 30 minutos de exercícios moderados notaram diferença na qualidade do sono, no mesmo dia em que praticaram atividade física.

“Atividade física é fundamental para a saúde de uma forma geral, como todos sabem, tanto para a mente, quanto para o físico. Como médico, reforço a importância da prática de exercícios físicos regularmente. Além disso, já sabemos da melhora em índices glicêmicos, metabolismo, pressão arterial, bom humor diário, entre diversos outros fatores”, declara Rodrigo P. Pedrosa, cardiologista, médico do sono e coordenador do Laboratório do Sono do PROCAPE da Universidade de Pernambuco.

Segundo o cardiologista, ao praticar exercício físico há uma melhora na condição do sono reparador, o mais profundo e de melhor qualidade. O sono restaurador, promove o bem-estar para o dia todo.3 Além da boa relação com a melhora da ansiedade, do humor, do bem-estar e da disposição.3 “Afinal, ao dormir, as pessoas não estão apenas repousando, o organismo também está metabolicamente ativo e uma série de hormônios importantes para a saúde estão sendo produzidos”, afirma Pedrosa.

A atividade física regular pode afetar positivamente distúrbios do sono como a apneia obstrutiva, por meio da perda de peso, aumento do tônus muscular das vias aéreas superiores e da diminuição do acúmulo de fluido no pescoço. Os principais benefícios para os pacientes incluem a redução da gravidade da condição e da sonolência diurna, além de aumento da eficiência do sono durante a noite e consumo máximo de oxigênio.

O médico Rodrigo P. Pedrosa aponta que em um estudo foram observados os efeitos do exercício físico na composição corporal de pacientes com apneia do sono, pois houve melhora do percentual de gordura e massa corporal total e da circunferência do pescoço. Segundo ele, a atividade física pode melhorar de forma objetiva a composição corporal, diminuindo a severidade da apneia.

A apneia do sono é um distúrbio comum relacionado a piora da qualidade de vida e sono, além de problemas de saúde como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares., que deve ser investigada e tratada nos casos moderados e graves. No Brasil, estudo publicado em 2019 mostrou que o percentual pode chegar a 49,7% da população.

Alguns sinais que podem indicar a presença do distúrbio são: ronco, cansaço diurno constante, dificuldade de concentração, dores de cabeça matinais, humor depressivo, falta de energia, esquecimento ou hábito constante de acordar para ir ao banheiro.

Ainda que a atividade física seja auxiliar, uma vez que a apneia do sono é diagnosticada, um dos tratamentos mais indicados é a adoção regular do CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas). No Brasil, o tratamento para apneia pode ser realizado com equipamentos ResMed, líder mundial de soluções para o tratamento da condição. Pacientes podem acompanhar sua própria terapia com CPAP por um aplicativo gratuito e fácil de usar, chamado myAir™. O app fornece uma pontuação diária sobre como a pessoa dormiu e inclui vídeos e informações personalizadas de treinamento com base nos dados de terapia, que melhoram a adesão ao tratamento.

Forças russas bombardeiam torre de TV em Kiev, capital da Ucrânia

 


O bombardeio pode afetar o sinal e dificultar a divulgação de notícias, segundo o conselheiro do Ministério do Interior da Ucrânia


Tribuna da Bahia, Salvador
01/03/2022 15:30 | Atualizado há 6 horas e 59 minutos

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Foto: Reprodução

O Governo ucraniano anunciou que forças russas atacaram a torre de TV em Kiev, capital da Ucrânia, na tarde desta terça-feira (01). O assessor do Ministério do Interior do país, Anton Herashchenko, confirmou a informação em suas redes sociais.

Imagem divulgada pelo canal verificado do Telegram da Ucrânia mostra a explosão. "Os canais ficarão fora do ar temporariamente. Em breve, a energia de backup será ligada para restabelecer os canais", informou.

A Rússia cumpriu a ameaça anunciada mais cedo pelo porta-voz do ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov e atacou Kiev. A torre de TV estatal no centro da capital, foi atingida por um míssel russo. Ainda não há notícias sobre mortos e feridos, mas uma coluna de fumaça pode ser visto de vários pontos da cidade.

"Para deter os ataques virtuais contra a Rússia serão realizados ataques com armas de alta precisão contra as infraestruturas tecnológicas do SBU (serviço de segurança) e o centro principal da Unidade de Operações Psicológicas em Kiev. Pedimos aos habitantes de Kiev que moram perto dos centros de retransmissão que abandonem suas residências", afirmou Konashenkov.

O bombardeio pode afetar o sinal e dificultar a divulgação de notícias, segundo o conselheiro do Ministério do Interior da Ucrânia, Anton Herashenko, nas redes sociais.

Fonte: Correio Braziliense

Submarinos nucleares russos em exercício militar são avistados no Mar de Barents

 


Manobras acontecem depois que o presidente russo, Vladimir Putin, colocou as forças nucleares do país em alerta máximo


Tribuna da Bahia, Salvador
01/03/2022 18:54 | Atualizado há 3 horas e 33 minutos

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Foto: Konstantin Zavrazhin/Getty Images

Submarinos nucleares russos partiram para exercícios no Mar de Barents e lançadores de mísseis móveis percorreram a taiga nesta terça-feira (1), após o presidente russo, Vladimir Putin, colocar as forças nucleares do país em alerta máximo.

Em comunicado, a Frota do Norte da Rússia disse que vários de seus submarinos nucleares estavam envolvidos em exercícios para "treinar manobras em condições de tempestade". O órgão também afirmou que vários navios de guerra encarregados de proteger a área perto das bases navais russas na Península Ártica de Kola se juntarão às manobras.

Na região de Irkutsk, no leste da Sibéria, unidades das Forças de Mísseis Estratégicos moveram lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais para praticar implantação secreta, disse o Ministério da Defesa russo em comunicado.

Os militares não disseram se os exercícios estavam ligados ao alerta máximo de Putin nem se representam alguma mudança na postura nuclear do país.

Fonte: Estadão Conteúdo.

Alexander Dugin, o filósofo que inspira Putin.

 



O filósofo nacionalista proporciona ao presidente russo Vladimir Putin a plataforma doutrinária paraa o soberanismo imperial atualmente imperante nas relações de Moscou com os vizinhos. Antonio Florza para o El País:


El 4 de febrero, con el cierre de un acuerdo de gran trascendencia, el encuentro entre Vladímir Putin y Xi Jinping marcó el comienzo de un nuevo orden internacional. La divulgación de la buena nueva corrió inmediatamente a cargo del filósofo nacionalista ruso Alexander Dugin, que anunció al día siguiente el hundimiento del “liberalismo global y de la hegemonía occidental”, vencidos por el bloque emergente del “gran espacio chino y del proyecto euroasiático”, en la actual “guerra de civilizaciones”.

La apariencia del acuerdo entre Putin y Xi es pluralista, ya que invoca el principio de “multipolaridad”, la diversidad de focos de poder a escala mundial frente al “unipolarismo” de la hegemonía norteamericana, pero en realidad la alianza chino-rusa configura un nuevo centro de poder mundial, surgido precisamente para enfrentarse al caduco hegemon, Estados Unidos. Encarna una nueva bipolaridad, tanto por el apoyo mutuo a las respectivas orientaciones expansionistas (Taiwán, implícitamente Ucrania) como por diseñar una alianza estratégica entre la Unión Económica Euroasiática, propugnada por Putin, y la iniciativa de la Nueva Ruta de la Seda, proyectada a escala global, de Xi. Del enlace de las dos autocracias saldría nada menos, dicen Putin y Xi, que el establecimiento de la democracia, eso sí, con los rasgos propios de cada nación.

Aparentemente, el fundamento de la estrategia de Putin sería el arsenal ideológico que culmina con el interminable giro sobre sí mismo de la obra de Alexander Dugin. En el límite, ambos convergen: Putin se alimenta de Dugin y luego este dota de argumento a las propuestas de Putin.

El concepto central para Dugin es hoy el de mundo multipolar, encargado de enfrentarse con “la hegemonía espiritual de Occidente”, desechando la democracia, el liberalismo, el parlamentarismo, los derechos humanos, el individualismo. Pero no todo Estado puede, desde su soberanía, afrontar el reto. Llega el truco: serán necesarias coaliciones de Estados y, respecto del país aislado, “un polo debe estar situado en otro lugar”. Los centros estratégicos desde los cuales construir el mundo multipolar son las civilizaciones, situadas entre ellas en diálogo o conflicto (guerra).

La consideración de la OTAN como antirrusa nos trae a lo concreto. Asentada sobre su identidad, Rusia es portadora de una civilización, capaz de ejercer su soberanía y de proyectarse sobre Eurasia (de ahí la atracción de Putin sobre Salvini y Le Pen, soberanistas europeos). Cierra el círculo la superioridad moral sobre Occidente, fruto de sus tradiciones religiosas.

La construcción doctrinal de Alexander Dugin proporciona la envoltura a Putin. En su libro pionero, Rusia. El misterio de Eurasia, deudor de Lev Gumilev y teñido de una mística turánica próxima al turco Erdogan —el turanismo nació en Turquía—, diseña el marco geopolítico de la grandeza de la Santa Rusia, hábil cortina del actual imperialismo. Y signo de la “asiaticidad” que esgrimió Stalin contra el europeísmo de Lenin. Más tarde trazará la visión histórica, partiendo de la Rusia de Kiev (útil para el presente), hasta la expansión de los zares, impregnada de los valores tradicionales de ese “pueblo ruso, pueblo ortodoxo”, que tras la contradictoria fase comunista, puede consumarse con Putin. Lo esperaba desde 1990, con acentos de Carl Schmitt: la élite espiritual, tras acabar con la Bestia Roja, rehará al país “al borde del abismo”. En ese momento, la influencia central será el neofascista Julius Evola, al que luego sustituirá la reacción mejor amueblada del filósofo francés Alain de Benoist. Siempre extrema derecha y nacionalismo radical, soberanismo. Hasta acabar en Heidegger.

Dos hombres próximos a Gorbachov acuñaron las bases de Dugin. El reformista Ambarzumov introdujo el concepto de “el extranjero próximo”, el entorno independiente al disolverse la URSS, sobre el cual Rusia debería conservar la tutela. Más que ideas, en Transnistria para Moldavia y en Abjacia para Georgia. Y sobre todo el expremier Yevgueni Primakov, cuya estatua se erige hoy frente al Ministerio de Asuntos Exteriores en Moscú, creador del concepto de “multipolaridad”. Serviría de antídoto frente a la unipolaridad, el monopolio de poder americano a escala mundial. Lo esgrimirá Putin en su discurso de ruptura de 2007, pronunciado en la Conferencia de Seguridad de Múnich, apoyándose entonces en la emergencia económica de países exteriores a Estados Unidos. Ahora, sobre esa plataforma, elabora su proyecto de poder.

Tales ideas, reunidas en un patchwork por Dugin, son la vestimenta de un ideario de trazos más simples. Vladímir Putin, oficial de la KGB en Alemania, ve el fin de la URSS como una catástrofe, y dedicará su vida política, desde su acceso al poder en 2000, a repararlo. Con prudencia y determinación. Primero, reconquista Chechenia, sin retar al enemigo que es siempre el binomio USA-OTAN. Desde el discurso-manifiesto de 2007, aun proclamando que solo la ONU puede autorizar el uso de la fuerza entre Estados, emprende acciones de recuperación territorial, en Georgia, primero, luego la costa de Ucrania. Exhibe su oposición, no solo al poder, sino a los valores occidentales, y cada vez más se centra en la grandeza histórica de Rusia. La revisión del estalinismo, posible desde 1991, con la apertura parcial de los archivos, será anulada paso a paso, hasta que sea prohibida la emblemática Asociación Memorial, que desde su fundación por Andréi Sájarov en 1989 se había entregado a ello.

No se trata de restaurar formalmente la URSS, sino de constituir a Rusia como centro político, cultural y militar de los países desgajados. Con miras a su agregación. Las intervenciones militares en Bielorrusia y Kazajistán prueban su utilidad para los tiranos locales. Por eso es Lukashenko quien nos informa sobre el objetivo actual de Putin: la Unión de Estados, con Bielorrusia y Ucrania, integrando sus instituciones en las rusas. Sabemos que para Putin la condición rusa de Ucrania es irrenunciable. En un círculo sucesivo de tutela, los países del Tratado de Seguridad Colectiva (CSTO), encabezados por Kazajistán y Armenia, domesticada esta tras experimentar en la guerra de Nagorno Karabaj el coste del europeísmo de su presiente, al perder la protección rusa. Putin lo explicó con la fábula del oso imperante en la taiga siberiana, quien nunca permitirá que otro entre en su territorio.

El repliegue sobre los supuestos valores tradicionales, en fin, no es nada nuevo en la historia rusa. El fogonazo de un reformismo de raíz ilustrada fue lógicamente sofocado, no solo por los zares, sino por una aristocracia asentada sobre el trabajo de los siervos. Al crítico ilustrado Radishchev le sucedió con éxito el historiador Karamzín, inspirador de una visión de Rusia donde la desgracia del pueblo se ve compensada por su grandeza espiritual. Antieuropeísmo, que llegará desde Rusia y Europa, de Danilevski a Solyenitsin al afirmar que ningún ruso debiera confiar en Occidente. En las óperas del populista Mussorgski, el arcaísmo de los “viejos creyentes” —presentes en Dugin— es ensalzado frente a los malvados jesuitas latinos. El nuevo fogonazo de 1990 fue sofocado por el desplome económico. Vuelta al pasado. Una encuesta fiable de 1994 daba un 80% favorable a la resurrección de la URSS, al orgullo de ser ruso y al regreso a valores y tradiciones propias. Frente al parlamentarismo, un 63% prefería un poder fuerte, personalizado. Lo tienen.
 
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O enrosco da terceira via diante do populismo tribalista

 

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Mais preocupados com suas conveniências eleitorais, os políticos que prometeram lutar por uma canidatura única capaz de quebrar a polarização Lula-Bolsonaro dividem o centro e acabam fortalecendo os extremos. Sérgio Pardellas para a revista Crusoé:


A polarização entre Lula e Jair Bolsonaro, presente hoje na corrida presidencial, já se desenhava em fevereiro de 2018, a seis meses da homologação das candidaturas, como agora. Àquela altura, o petista aparecia em primeiro lugar nas pesquisas ao Palácio do Planalto, com 34% das intenções de voto contra 18% do então candidato do PSL – em 1º de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral tornaria Lula inelegível com base na lei da Ficha Limpa, o que o levou ser substituído na chapa por Fernando Haddad. Os demais concorrentes, como Ciro Gomes, do PDT, Geraldo Alckmin, do PSDB, e Alvaro Dias, do Podemos, oscilavam entre 4% e 7%.

Por mais que a candidatura de Bolsonaro ainda fosse encarada pela classe política como uma chuva de verão, aos poucos a tempestade perfeita que levou à eleição do atual presidente ganhou forma. O resto é história. Entre os mais experientes políticos, o diagnóstico a respeito do triunfo de Bolsonaro nas urnas era dito quase que em uníssono: para além de todas as circunstâncias políticas que levaram ao surgimento do bolsonarismo, a fragmentação das demais candidaturas teve peso decisivo para que uma alternativa aos dois extremos não estivesse no segundo turno.

Para evitar a repetição do mesmo cenário em 2022, pregavam as mesmas vozes, seria necessária a união em torno de um tertius, alguém que entre todos se mostrasse mais capaz de afastar o risco da volta de Lula ou da reeleição de Bolsonaro. De lá para cá, tem havido mais sabotagem à chamada terceira via do que propriamente ações para torná-la realidade. O resultado é que, de novo, faltando seis meses para o registro das candidaturas, Lula e Bolsonaro são os favoritos para duelarem nas eleições – há chances de o petista ser eleito até mesmo em primeiro turno.

Os movimentos políticos empreendidos durante esta semana são ilustrativos da verdadeira preocupação dos dirigentes partidários: a maioria parece mais interessada em fazer prevalecer suas conveniências particulares e eleitorais do que em se empenhar, de fato, em construir uma opção viável. Políticos que até outro dia prometiam apoiar o candidato que estivesse mais bem colocado nas pesquisas estimulam candidaturas que exibem hoje pouca musculatura eleitoral e ajudam a dividir o eleitorado refratário a Lula e Bolsonaro.

Cabeças coroadas do PSDB, por exemplo, têm contribuído firmemente para a reprodução do mesmo cenário de quatro anos atrás. Na noite de terça-feira, 8, a ala derrotada por João Doria nas prévias da legenda se reuniu para decidir quem apoiar à Presidência. Se até recentemente os dissidentes falavam em aguardar até março ou abril para ver se o governador de São Paulo avançava nas pesquisas, agora eles defendem abandoná-lo à própria sorte desde já, pois acreditam que sua situação é irreversível – o tucano, hoje, está empacado com 3% das intenções de voto.

Entre os presentes ao encontro, realizado na casa do ex-ministro Pimenta da Veiga, em Brasília, havia tucanos que até recentemente pregavam em público a convergência em torno de um nome com mais viabilidade no campo da terceira via. Agora, não bastasse apresentar como alternativa a Doria candidatos que ainda engatinham nas pesquisas assim como ele, há um racha até mesmo entre os dissidentes: um grupo, liderado pelo senador Tasso Jereissati e por José Aníbal, defende o apoio a Simone Tebet, do MDB. O outro ainda sonha com a candidatura do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, derrotado por Doria nas prévias tucanas – seja pelo próprio PSDB ou pelo PSD de Gilberto Kassab. O terceiro grupo, ligado ao deputado Aécio Neves, não quer candidatura alguma. Prefere privilegiar a formação de uma portentosa bancada na Câmara. “Foi um jantar de derrotados, com todo respeito. Todos eles foram derrotados nas prévias. O PSDB é maior do que cinco pessoas”, criticou Doria.

Alvo do convescote tucano, Doria tem um passado que, de certa forma, tira sua autoridade para falar de seus colegas de partido. Em 2018, coube ao atual governador paulista iniciar dentro do PSDB o processo de cristianização do então candidato presidencial Geraldo Alckmin, ao criar o movimento BolsoDoria – Bolsonaro para presidente e ele mesmo para o governo. No final de setembro do ano passado, em jantar em São Paulo com a presença do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e do hoje pré-candidato do Podemos à Presidência, Sergio Moro, Doria se dispôs a abrir mão da candidatura caso algum deles se mostrasse mais competitivo nos primeiros meses de 2022. Ao que tudo indica, no entanto, a promessa não será cumprida – atualmente, Moro figura nas pesquisas com 9% das intenções de voto, o triplo do tucano, e não há qualquer sinal de que ele deixará a disputa por vontade própria.

Para reverter o quadro de estagnação, o pré-candidato do PSDB espera contar em sua aliança com o Cidadania, presidido por Roberto Freire. Um dos artífices da pretensa candidatura de Luciano Huck ao Planalto, Freire sempre se apresentou como um ardoroso defensor da candidatura de terceira via, como contraponto a Lula e Bolsonaro. Porém, ao defender a composição de uma federação do Cidadania com o PSDB, ele na prática contribui para aprofundar a divisão entre os candidatos de centro. O martelo será batido durante a reunião do comando da legenda que está marcada para o próximo dia 15. Indagado se sua posição não joga contra a união da terceira via, Freire minimizou o problema. “Os partidos estão colocando nomes para que participem do diálogo apresentando suas alternativas. É um processo. Há continuidade de diálogo, seja falando em federação, seja debatendo candidatos”, disse.

Se conseguir atrair o Cidadania, Doria espera se cacifar para incorporar à sua aliança o União Brasil, que já esteve próximo de filiar Sergio Moro. Ocorre que, pelo jeito, e por causa da intervenção de ACM Neto, a legenda nascida a partir da união do DEM com o PSL prefere perder a eleição presidencial a apostar, desde agora, em algum dos nomes. “Infelizmente, com o cenário polarizado entre petistas e bolsonaristas, estamos vendo novamente o empobrecimento do debate. Em vez de disputa de projetos, guerra de indivíduos”, lamenta Eduardo Mufarej, fundador do movimento de renovação política Renova BR.

Gilberto Kassab, cacique do PSD, é outro que vinha adotando o discurso em favor de uma alternativa à polarização. Agora, ele ensaia filiar ao partido o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung — que sempre esteve empenhado em articular uma opção capaz de unir o que ele próprio chama de “centro expandido” — e uma das opções à mesa, ainda que pouco provável, é lançá-lo à Presidência. Antes, já vendo a candidatura de Rodrigo Pacheco naufragar, Kassab cogitou trocá-lo por Eduardo Leite, caso o gaúcho topasse ingressar em seu partido. Mas, enquanto faz esse movimento, o presidente do PSD não se constrange em flertar publicamente com Lula. Os dois estiveram juntos na segunda-feira, 7, na sede do PT, em São Paulo. O cálculo é óbvio. De olho em um naco de poder em um eventual governo Lula, e acreditando que a corrida parece definida, Kassab começou a achar mais interessante – e mais lucrativo politicamente – apoiar o petista já no primeiro turno. Em pelo menos nove estados, PSD e PT estão juntos. A dúvida é sobre se uma aliança desde já não atrapalhará mais do que ajudará a fazer uma bancada de parlamentares robusta. Ou seja: mais um enrosco.

A distópica vitória de Jair Bolsonaro em 2018 teve como bases o uso das redes sociais como instrumento político-eleitoral, o apoio de setores do conservadorismo presentes na classe média urbana e nos grotões do país, o reforço dos que acreditavam na condução liberal da economia e o voto maciço do eleitorado antipetista no candidato que parecia jogar no terreno da defesa da ética e do combate à corrupção, enquanto a classe política era desmoralizada pela Lava Jato. Com o completo abandono dessas bandeiras por Bolsonaro, parte desse eleitorado ficou órfão, em busca de alternativa. Assim, abriu-se um clarão para a terceira via. Com a divisão entre os candidatos que poderiam ocupar esse espaço, essa oportunidade histórica está sendo jogada fora.


Para Paulo Hartung, ele próprio alçado à condição de peça desse complicado xadrez, ainda há tempo de evitar o desastre. “Estamos na antessala do processo eleitoral”, afirma. O ex-governador avalia que o alto número de indecisos nas pesquisas espontâneas recentes indica que ainda há espaço para o crescimento de um terceiro candidato. Quando os nomes dos candidatos não são apresentados pelos entrevistadores, cerca de 40% dos eleitores dizem ainda não saber em quem votar para presidente. Desse total, quase 60% são mulheres. “Ainda é possível mudar o jogo. Sobretudo porque as mulheres, em sua maioria indecisas hoje, costumam definir eleições no país”, aposta Hartung. Para que isso aconteça, porém, é preciso tirar os sabotadores do tabuleiro.
 
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Lockdowns serviram para frear a pandemia? Claro que há discordâncias.

 

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Alguns estudos indicam que a eficiência de fechar atividades não essenciais foi baixa ou inexistente e provocam forte reação contrária. Vilma Gryzinski:


Cientistas discordam e não são movidos apenas por divergências técnicas. Simpatias políticas também pesam. Esta é uma das principais lições que os leigos descobriram entre tantos fatos novos que esta pandemia nos obrigou a aprender.

Enquanto as medidas contra a covid-19 vão sendo desativadas na Europa e nos Estados Unidos, com a Inglaterra chegando a um invejável mundo novo com restrições zero, a intensa politização de assuntos médicos e científicos não reflui.

Um dos assuntos mais comentados nos últimos dias é um estudo feito pelo professor americano Steve Hanke, fundador do Centro de Economia Aplicada da universidade John Hopkins, e dois economistas escandinavos, o dinamarquês Jonas Herby e o sueco Lars Jonung.

O estudo está na fase inicial, sem ter passado pela revisão de pares – mas já submetido ao crivo da imprensa, com a a previsível partidarização.

Hanke, que também é do libertário Cato Institute (onde dirige o maravilhosamente chamado Projeto de Moedas Problemáticas, o que o tornou um especialista em Argentina), e colegas fizeram uma meta-análise, um estudo sobre outros estudos referentes à eficiência das medidas de restrição de movimentos, como o fechamento do comércio e outras atividades não essenciais, o trabalho remoto e a limitação de deslocamentos.

Conclusão mais bombástica: os lockdowns diminuíram em apenas 0,2% o número de mortes causadas pelo vírus. Ficar em casa, saindo apenas para atividades obrigatórias, teve um resultado um pouco maior: 2,9% de mortes evitadas.

Não é um trabalho de amadores. Começou com 18 590 estudos potenciais, dos quais 34 foram considerados aplicáveis à proposta, número finalmente reduzido para 24, divididos em três categorias.

A metodologia do estudo foi imediatamente contestada. Neil Ferguson, apelidado de “Professor Lockdown”, pelos conselhos baseados em modelos catastróficos que deu ao governo britânico (embora não os tenha seguido, tendo tido encontros amorosos especificamente patrulhados), criticou severamente o estudo, inclusive pela definição de lockdown como “imposição de uma ou mais intervenções não farmacêuticas obrigatórias”.

Seth Flaxman, professor de computação em Oxford, foi mais cortante:

“Fumar causa câncer, a terra é redonda e mandar as pessoas ficar em casa (a definição correta de lockdown) diminui a transmissão de doenças. Nada disso é controvertido entre cientistas. Um estudo que pretende provar o oposto é quase que com certeza fundamentalmente errado”.

Outros dois economistas americanos discordam. Erick Randolph e Vance Ginn, ambos ligados a instituições conservadoras, estudaram a correlação entre as diversas medidas restritivas entre estados americanos e as consequências sanitárias e econômicas.

“Nossa pesquisa não encontrou correlação entre a severidade do fechamento de atividades imposto pelos governos estaduais e o índice de hospitalizações e morte por covid-19”.

“Estados que impuseram medidas econômicas mais severas, como Havaí, Nova York, Califórnia e Novo México, sofreram perdas de emprego maiores do que os estados que impuseram medidas menos severas, como Dakota do Sul, Iowa, Nebraska, Missouri e Utah”.

“Por exemplo, Nova York estava 10,2% abaixo de sua trajetória em outubro de 2021, enquanto Nebraska estava apenas 2,4%”.

Os efeitos econômicos deletérios das restrições contra a covid são autoevidentes. Analisar o seu impacto sobre o fato mais importante – o número de vidas que salvaram – pode ser, ou já está sendo, sujeito a discussão.

Segundo um estudo de junho de 2020 do Imperial College, o do professor Neil Fergunson, o lockdown e o fechamento das escolas preveniram 3,1 milhões de mortes em onze países europeus.

Não dá para brincar com números assim. Mas dá para estudá-los, analisá-los ou até contestá-los, para acima de tudo, aprender com eles. Assim progride o conhecimento humano.

Os cancelamentos são artificiais e eleitoreiros

 



O Brasil está tão acostumado à discussão teórica que nossa esquerda recebeu de braços abertos Glenn Greenwald, de quem eu manteria distância justamente por causa de sua relação com grupos neonazistas. Bruna Frascolla via Gazeta do Povo:


A crermos no noticiário, em 2018 uma onda de neonazismo varreu o país. Neonazistas riscavam suásticas nas portas de banheiros nas universidades federais. Neonazistas agarraram uma militante feminista e fizeram, bem fininho, uma suástica com uma gilete na barriga dela, que deve ter ficado parada, quietinha, para o desenho não entortar. Neonazistas picharam suásticas numa igreja em Nova Friburgo… antes de serem flagrados pichando “Ele não” em outras áreas da cidade. É tudo uma palhaçada. Palhaçada eleitoreira, que não funcionou em 2018.

Falando em igreja, foi uma coisa feia à beça aquela profanação da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, movida por um vereador do PT e seu séquito de camisas vermelhas ignorantes. Segundo eles, aquela Igreja dos Pretos é coisa de branco, e isso lhes dava direito de invadir o local, interromper a missa e xingar todo mundo de nazista e racista.
Santa Tabata, protetora dos judeus

No dia seguinte, estava a Dona Tabata falando de nazismo. Tabata é católica, foi coroinha e deve à Igreja o seu interesse pela educação. Não deu um pio sobre o episódio de Curitiba. Nem ela, nem a CNBB.

No podcast do Flow (e assim eu descobri que Flow e Monark são coisas diferentes), a brilhante (ou não) aluna de Harvard resolveu falar de nazismo em meio a uma discussão sobre o papel da política na evolução da humanidade. Monark achava que cultura e tecnologia eram importantes. A nobre deputada, querendo dizer que não, argumentou assim: “Como mundo, ser humano, a gente tem duas histórias: uma é a da democracia, que é lenta, negociação, etc, a outra é a do autoritarismo, e aí você pode falar de União Soviética ou você pode falar do nazismo. Milhões morreram nos dois, sabe.” Sem monarquias nem repúblicas positivistas, Tabata acha que a humanidade é a mesma coisa que a Europa entre a I e a II Guerra Mundial.

Monark aceita esse despautério, mas manifesta seu ceticismo quanto à democracia brasileira. A nobre deputada diz que no Brasil há liberdade para dizer o que se pensa. Monark outra vez manifesta seu ceticismo e ela diz que ele próprio, falando o que pensa, é a prova da existência dessa liberdade. Melhor não comentar.

Bom, a parte do podcast que ficou famosa foi esta aqui, em que Tabata diz que a existência de um partido nazista fere a existência de judeus. O pensamento social dela é decalcado de um slogan de internet dos anos 10: “Se fere minha existência, serei resistência.” Monark jamais disse que ele próprio era favorável aos nazistas; disse que é favorável à liberdade de associação. Como Tabata colocou o debate nos termos de “ou democracia, ou comunismo e nazismo”, é natural que, numa democracia, ou a criminalização do comunismo ou a descriminalização do nazismo venham à tona. Quem igualou ambos primeiro foi Tabata. Eu queria saber se ela defende a criminalização do comunismo, mas o podcast completo tem mais de quatro horas e eu não vou ver tudo.

Algumas respostas foram dadas, seja no Twitter ou nos artigos. Uma bastante despretensiosa, que vou reproduzir mesmo assim, é a seguinte: “Se o Thomas Nagel viesse ao Braza defender o ideal liberal de liberdade de expressão apresentado em Concealment and exposure and other essays, o tuiteiro br mandaria prendê-lo. A gente é muito jacu.” Pois é. O tuíte é de Aluízio Couto, um doutor em filosofia que pesquisou liberdade de expressão. O objeto da tese dele seria criminalizado pelo Twitter.

Na verdade, o estado de coisas desejado por Monark é fato nos Estados Unidos, onde existe uma miríade de partidecos e organizações. Ah, organização neonazista lá é o que não falta.

Se a Primeira Emenda é neonazista, então é bom a Defensoria Pública da União, Alexandre de Moraes e até Eduardo Bolsonaro clamarem à ONU por providências contra aquele bárbaro país.

No mais, já que Tabata se considera uma porta-voz dos judeus, devemos pedir a ela que dê uns cascudos em Gustavo Maultasch, que fez um artigo para a Folha defendendo Monark e explicando as liberdades dos Estados Unidos (onde, aliás, Tabata estudou). No artigo ele se declara judeu e neto de sobreviventes do Holocausto.
Bando de jacu?

Eu na verdade só discordo do colega Aluízio quando ele diz que nós, brasileiros, somos uns jacus. Nós estamos acostumadíssimos a pedir pela descriminalização de coisas que, ora vejam só, são crimes. Pede-se descriminalização da maconha e do aborto, sem que necessariamente se incorra na apologia de crimes. A distinção está muito clara em nossas cabeças. Porém, com a aliança entre as big techs e o jornalismo tradicional, é possível alterar a percepção do debate público. Querem nos fazer crer que todo mundo acha que racismo é “relação de poder”, mas não acha.Querem nos fazer crer que o Brasil está às vésperas de uma guerra racial ou religiosa, mas não está. É tudo uma pequena bolha virtual de jornalistas, acadêmicos e burocratas que dizem o que monopolistas do ESG querem.

E o que mandam agora é que o FECANAPÁ, ou Festival de Cancelamentos que Assolam o País, tenha uma edição nazista em ano eleitoral. Eu acho burrice, mas o povo dá milhões a gente como João Santana porque o acham inteligente. João Santana, o que criou o podcast do #CiroGames e botou o coronel de moletom.

O Brasil está tão acostumado à discussão teórica que nossa esquerda recebeu de braços abertos Glenn Greenwald, de quem eu manteria distância justamente por causa de sua relação com grupos neonazistas.

Antes de vir para cá, Greenwald foi um advogado em sua terra natal, os Estados Unidos. Como exemplo de seu grande compromisso com a liberdade de expressão, ele costuma citar a defesa pro bono que ele fez de um grupo neonazista chamado National Alliance. Ele trabalhava de graça porque queria muito defender a Primeira Emenda, que dá liberdade de expressão até a neonazistas.

Se fosse só isso, ele contaria com minha admiração e o meu respeito. Mas ele foi além e defendeu de um crime de sangue, também pro bono, o “pontifex maximus” da National Alliance, um homem chamado Matt Hale. Ele terminou condenado por encomendar a morte da juíza Joan Lefkow. Glenn Greenwald não costuma comentar este fato, mas aqueles que ficam vigiando tchauzinho e catando nome em lista de abaixo assinado não ligam para isto.
 
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Que a cultura do cancelamento não tenha resultado em nenhum cadáver é um milagre

 



Às vezes para escapar do hospício basta abrir a porta. E dar o primeiro passo. Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:


Consulto o relógio do computador. Quatro e meia da tarde. Olho pela janela e o céu não é nada convidativo à contemplação. Umas nuvens feias (e nuvens raramente são feias) em meio a um azul desbotado. No horizonte, prédios demais, araucárias de menos, uns ciprestes e uns pássaros voando em fila indiana (juro!). Talvez chova. Talvez não. Ao meu redor, apenas o ruído intermitente da rua e que por vezes confundo com silêncio.

Eis que me dou conta: passei praticamente o dia inteiro discutindo os muitos aspectos do linchamento virtual de um podcaster e da demissão de um comentarista da TV Jovem Pan. Um amigo diz que isso. Outro diz que aquilo. Um terceiro nos brinda com um link para algum absurdo que nos revolta. Todos expressamos nossa indignação, um com palavras, outro com emojis e outro com tantos pontos de exclamação quanto forem possíveis. Os memes começam a chegar e, entre a culpa e o constrangimento, opto pela risada inofensiva.

(Este é aquele momento em que o chato, em toda a glória de sua chatice, vê acender sobre a cabeça a crítica mordaz e ferina, nascida da sua oh-que-esperteza!, que perspicácia! E que mores, ó tempora! Satisfeitíssimo consigo mesmo, o chato, então, se permite manifestar tamanha inteligência na forma de uma pergunta feita com aquela inflexão irritantemente aguda que é a marca de todos os chatos indignados: quer dizer que você ri de coisa séria?!).

Inofensiva, mas não inócua, a risada. É bom saber que, fora do alcance das multidões, a palavra ainda pulula e o discurso é livre, ou melhor, está restrito apenas à nossa consciência e à nossa disposição em corrermos o risco de sermos mal-entendidos. Um risco calculado de acordo com variáveis como a capacidade de interpretação dos interlocutores, a estranha relação de lealdade nas amizades virtuais e reais, bem como o senso de humor apurado (apuradíssimo) daqueles que ainda se permitem rir sem ter de pedir autorização à turma que o cerca. A risada me faz dar o devido peso às coisas. E o que nasceu como um pesadelo muito do palpável se transforma num daqueles sonhos modorrentos sobre algo trivial.

Me levanto. Vou lavar a louça. Não tem louça para lavar. Pego uns copos e pratos limpos do armário, uns talheres reluzentes da gaveta, e começo a lavá-los assim mesmo. De cima da mesa, ouço meu telefone vibrar várias vezes. Dentro do aparelhinho, os amigos ainda não esgotaram as possibilidades de veredito para o que aconteceu. Mas o que foi que aconteceu mesmo? Um disse uma coisa; outro fez um gesto. Quantos foram os mortos e feridos dessa batalha? Lavo a louça e reflito e quase me corto e me pergunto se não é um caso de pedir para a Alexa tocar Ella Fitzgerald. E, quando dou por mim, estou preocupado.

“Que a cultura do cancelamento não tenha resultado em nenhum cadáver é um milagre”, digo para o apartamento vazio. Concluo apressada (e talvez equivocadamente) que é uma frase digna de ser usada num texto, neste texto. Fecho a torneira, seco as mãos, procuro papel e caneta e... Como era a frase mesmo? Ah, sim. Que a cultura do cancelamento não tenha resultado em nenhum cadáver é um milagre. É preciso ter a pele grossa para suportar essas chibatadas da vida. Nem todos têm. E, como vivemos num mundo que muitas vezes vê na aceitação pela multidão o único sentido para a vida, não é de se duvidar que uma hora ou outra um desses cancelados chegue a uma conclusão não só fatídica, mas também trágica.

Largo a caneta, me perguntando se deveria ou não incluir um “ainda” na frase. É quando escuto barulhos no corredor. Será que minha vizinha, essa mesma da risada espalhafatosa, sabe quem é Monark e Adrilles? Não que ela seja ignorante; eu é que sou, já que não sei nem o nome dela. Vizinhos curitibanos, sabe como é. Pelo menos digo “bom dia” se a encontro no elevador. Mas perguntar o nome já é exagero. É coisa de carioca. Voltando: será que minha vizinha tem uma opinião sobre esse assunto? Será que ela já se imaginou na Alemanha nazista ou na União Soviética stalinista? Se ela soubesse que passei o dia escrevendo, lendo e discutindo liberdade de expressão, cultura do cancelamento e saúde mental de celebridades canceladas, será que me consideraria louco ou um profissional dedicado a seu ofício?

Encontro refúgio para a minha loucura e/ou dedicação exacerbada na cadeira de balanço. A palha trançada pinica minha pele. A Catota? Que bom que você perguntou. Sei lá! Tá por aí. Quando ela quiser biscoitinho vai vir toda dengosa e fingindo amor, a danada. Antes de me deixar levar pelo romance policial que tenho em mãos, me permito uma última olhadela no simulacro de vida, nas redes sociais onde tudo parecer acontecer, mas, se você parar para pensar, nada acontece de fato.

Ao constatar que todos os que conheço e estimo, e até uns que não conheço ou não estimo, estão bem e continuam se xingando como se ter razão fosse a coisa mais importante do Universo, solto um suspiro de alívio. Às vezes para escapar do hospício basta abrir a porta. E dar o primeiro passo.
 
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Opressão e liberdade segundo Simone Weil

 



Diego Pereda analisa, para ACEprensa, o livro Opressão e Liberdade, de Simone Weil, traduzido recentemente para o espanhol:


Sin ver publicado ninguno de sus escritos en forma de libro, habiendo trabajado como maestra pero también como obrera en una fábrica de Renault, después de integrarse en la columna Durruti durante la Guerra Civil española y en la resistencia francesa, y tras morir de tuberculosis a los 34 años, no cabe sorprenderse de que la obra de Simone Weil (1909-1943) sea un tanto fragmentaria. Mística, revolucionaria e intelectual, esta filósofa educada en el judaísmo asimilado y, según algunos testimonios, conversa al catolicismo en sus últimos días, fue una de las pensadoras más lúcidas que dio el siglo XX francés. Que fuese capaz de sobresalir en esa época y lugar, y con una vida tan breve y tan plena, da la medida de su altura intelectual, y de la pérdida que supuso su muerte para el legado cultural y político de Occidente.

Su compromiso con la causa de los trabajadores industriales, principal materia del presente libro, le llevó a adoptar su forma de vida durante unos meses y la empujó inevitablemente al análisis pormenorizado de la obra de Marx, al que reconocía el mérito de haber sido el primer filósofo en sistematizar el estudio de la sociedad como una correlación de fuerzas, y también el de haber convertido en una disciplina autónoma e indispensable lo que hoy llamamos sociología. En el debe del alemán anotó casi todo lo demás, especialmente su concepción cientificista y mecanicista de la historia y del hombre y, por supuesto, la ignorancia absoluta de lo trascendente. Con respecto al fruto más llamativo del marxismo, el estalinismo, su corta vida le bastó para señalar detalladamente las carencias, errores y monstruosidades que otros intelectuales tardarían casi treinta años en reconocer.

Para Weil, la cuestión de la alienación es indisociable de la pérdida del sentido profundo del trabajo. La escisión entre lo manual y lo intelectual, la separación entre el producto que elabora el trabajador y su ignorancia sobre el porqué, el cómo y el para qué (o para quién) de su esfuerzo es uno de los desafíos centrales de nuestra era. Aunque mejoren las condiciones de vida de los trabajadores, tal y como ocurre en la actualidad, al menos en los países más desarrollados, esa deshumanización ha provocado que “aturdidos como estamos desde hace varios siglos por el orgullo de la técnica, [hayamos] olvidado que existe un orden divino del universo. Ignoramos que el trabajo, el arte, la ciencia, no son más que distintas maneras de entrar en contacto con él”.

Una de las cualidades más sobresalientes de Weil es su capacidad para desarrollar una filosofía social y política, muy influida por las ideas platónicas y cristianas, que no pierde en ningún momento sus dos ejes: en el vertical, la trascendencia, y en el horizontal, el sufrimiento de los hombres. A esta virtud se une un estilo literario claro, cargado de ejemplos y metáforas, y de una sencillez deliberada, que facilita la lectura a los poco familiarizados con el lenguaje habitual de los filósofos. Para comprender el siglo XX y repensar el XXI sería indispensable que la obra de Weil, bien difundida en España por la editorial Trotta y ahora por Página Indómita, ocupase el lugar de honor que se merece. En este empeño, Opresión y libertad es un magnífico punto de partida.
 
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Como os governos usaram manipulação psicológica para gerar medo e obter adesão ao lockdown

 

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A principal ferramenta dos psicólogos comportamentais envolvidos com governos é a teoria Nudge, termo que em inglês significa cutucar ou empurrar levemente, como incentivo ou para chamar a atenção. Entre psicólogos brasileiros é frequentemente apelidada de teoria do empurrãozinho. Eli Vieira para a Gazeta do Povo:


Cientistas do comportamento têm acompanhado de perto as atitudes da população em relação à pandemia, principalmente nos países desenvolvidos. Falando ao jornal britânico The Guardian, no início do mês, pesquisadores preocupados com o que consideram adesão insuficiente à terceira dose da vacina para Covid-19, culpam a queda de confiança dos cidadãos no governo, e associam essa queda ao escândalo do primeiro-ministro Boris Johnson, que foi flagrado numa festa, descumprindo os protocolos de segurança sanitária que ele próprio defendia. Também culpam a percepção do público – precisamente embasada - de que a variante ômicron é menos perigosa. “A preocupação com a infecção caiu em 52% dos adultos”, lamenta John Drury, professor de psicologia social na Universidade de Sussex. Os cientistas lamentam, ainda, que a mensagem do governo britânico em 2022 é de abertura e menos intervenções.

Esses profissionais, contudo, poderiam encontrar culpados pela queda de confiança popular entre os próprios colegas. Um dos motivos para a mudança de atitude do governo nesse ano foi o fato de que, em 2021, seguindo os conselhos de psicólogos do comportamento, as autoridades tentaram manipular psicologicamente a população a ter mais medo do vírus. A tentativa foi descoberta e denunciada.

A história completa é contada no livro A State of Fear (Um Estado de Medo, em tradução livre) da escritora, fotógrafa e cineasta Laura Dodsworth. O livro é de maio de 2021 e tornou-se um bestseller entre os britânicos. Longínquos são os dias da Revolta da Vacina, do início do século XX, quando governos invadiam lares e inoculavam cidadãos à força. Hoje, segundo o livro, autoridades públicas tendem a empregar especialistas em manipulação psicológica para fomentar o medo: “A Covid-19 é a maior ameaça que este país enfrentou na história de tempos pacíficos”, disse Boris Johnson. “É a maior ameaça à Alemanha desde 1945”, asseverou Angela Merkel.

A autora da obra é, à primeira vista, uma figura improvável para fazer a denúncia e contar uma história de abuso de autoridade e manipulação de características orwellianas. Em 2019, Laura ficou conhecida por um projeto no qual fotografou as vaginas de 100 mulheres, entrevistando 18 delas sobre o órgão sexual feminino. Estereótipos feministas à parte, no livro, ela se revela uma liberal preocupada. “Desde a primeira noite em que nos disseram que tudo seria fechado, percebi que eu estava mais assustada com o autoritarismo do que com a morte, e mais perturbada pela manipulação do que pela doença”, relata nas páginas. “Nunca antes colocamos as pessoas sadias em quarentena. Estávamos imitando a resposta da China totalitária ao vírus”. Ela encerra cada capítulo com um depoimento real de alguém que foi vítima da campanha de pânico e dos lockdowns, como a história de uma adolescente que ficou deprimida e começou a se cortar, de uma idosa cuja alegria de viver foi tirada e declara que gostaria de ter a opção de poder se arriscar a morrer de Covid.

O "empurrãozinho"

Recentemente, a psicologia passou por uma crise diante da constatação de que muitos resultados de pesquisas consideradas sérias falhavam ao ser repetidos. Porém, no caso do incentivo ao medo, há publicações que demonstram efetividade na estratégia. Numa metanálise da efetividade do apelo ao medo, publicada em 2015, Melanie Tannenbaum, psicóloga da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, juntou dados de 127 estudos, totalizando mais de 27 mil pessoas envolvidas. A conclusão dos pesquisadores é de que “há muito poucas circunstâncias” sob as quais os apelos ao medo não funcionam. O estudo considerou especialmente as mensagens para convencer o público a aderir a protocolos médicos.

A principal ferramenta dos psicólogos comportamentais envolvidos com governos é a teoria Nudge, termo que em inglês significa cutucar ou empurrar levemente, como incentivo ou para chamar a atenção. Entre psicólogos brasileiros é frequentemente apelidada de teoria do empurrãozinho. O filósofo canadense Joseph Heath, no livro de 2014 Enlightenment 2.0 (Iluminismo 2.0), resume assim a proposta dos fundadores da teoria, Cass Sunstein e Richard Thaler: “já que qualquer sistema precisará ter uma opção padrão, podemos fazer a mais benéfica ser a padrão”. A ideia é alterar o ambiente em que o indivíduo toma decisões de forma a guiá-lo, de antemão, em direção a uma decisão preferida.

Defensores da teoria do empurrãozinho usam suas consequências como evidência a seu favor. Uma das formas de dar um empurrãozinho nos cidadãos é, por exemplo, presumir que aceitam alguma política, a menos que digam “não” explicitamente. Estabelecer que todos são doadores de órgãos até declaração em contrário, por exemplo, aumenta a taxa de doadores em vários países, mas há controvérsia se a implementação do "consentimento presumido" aumenta por si essa taxa.

O próprio Heath reconhece que o empurrãozinho é uma forma de paternalismo, que era condenado como autoritário por filósofos liberais clássicos como John Stuart Mill, mas que nesse caso seria permissível, pois “protege-nos da nossa própria irracionalidade (…) somos submetidos a uma restrição não apenas para o nosso próprio bem, mas para o nosso próprio bem conforme o conceberíamos se nos sentássemos e pensássemos a respeito”. Com que direito especialistas que aconselham políticos nos substituem no ato de sentar e pensar, não está claro.

Paternalismo e condescendência têm uma longa história na parceria de especialistas da psicologia com governantes. Em meados do século XX, um pioneiro foi o sobrinho de Sigmund Freud, Edward Bernays. Em seu livro apropriadamente intitulado Propaganda, de 1928, Bernays lança o objetivo às claras: “A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e opiniões das massas é um elemento importante da sociedade democrática. Aqueles que manipulam esse mecanismo inconspícuo da sociedade constituem um governo invisível, que é o real poder governante do nosso país”. Bernays participou ativamente de iniciativas que incentivavam o governo americano para exagerar ao tratar da ameaça comunista e do risco de guerra nuclear nos anos 1950.

A ascensão da psicocracia

O Reino Unido merece destaque nesse assunto, pois foi um dos pioneiros em implantar os empurrõezinhos. Em 2010, implantaram sob auspícios do governo a Equipe de Insights Comportamentais (BIT), também apelidada entre psicólogos como Unidade do Empurrãozinho. Logo ela se tornou um negócio lucrativo como ‘companhia limitada com propósito social’, dispondo de escritórios em Londres, Manchester, Paris, Nova York e Toronto. Como conta Laura Dodsworth, a Unidade já cuidou de mais de 750 projetos e, em 2019, trabalhou em 31 países, treinando mais de 20 mil servidores públicos.

Quando Laura tentou entrevistar o fundador da Unidade, o psicólogo David Halpern, foi elogiada pela organização por seu trabalho anterior, até ofereceram emprego. Ela consultou um amigo especialista: “Ele riu e disse ‘parece um jeito de te neutralizar. Uma tática clássica de neutralizar um oponente é oferecer colaboração’.” A entrevista jamais aconteceu. Halpern também faz parte de outro órgão de ciência comportamental do governo britânico, o Grupo Científico de Influenza Pandêmica sobre o Comportamento. A sigla em inglês, SPI-B, soa como “abelha espiã”.

Foi do SPI-B que vazou um documento que deixou bem clara o tipo de influência feita sobre o governo. O documento, com data de 22 de março de 2020, cujo título é “Opções para aumentar a aderência às medidas de distanciamento social”, diz que “O nível percebido de ameaça pessoal precisa ser aumentado entre aqueles que estão complacentes, com o uso de mensagens emocionais impactantes”. Um dia depois, o primeiro-ministro fez um pronunciamento alarmante à população, no qual Laura e outros acreditam que foi acoplada a uma linguagem corporal que denunciava falta de sinceridade. Na ocasião, ele anunciou um lockdown de três semanas.

Os planos do governo de incentivar o medo encontraram pouca resistência na imprensa. O motivo disso não é apenas o de que “notícia é quando o homem morde o cachorro”, um adágio que sugere corretamente a inclinação do jornalismo ao inusitado e ao negativo. Houve uma queda de quase 50% nos investimentos trimestrais em publicidade no país, logo após a declaração soturna do primeiro-ministro. Com isso, o próprio governo aumentou sua participação como comprador de anúncios, o que incentiva a imprensa a não criticá-lo.

Assim como o consentimento informado é um pré-requisito ético para muitos tratamentos médicos, deveria ser também para políticas públicas numa democracia. Esse tipo de política de manipulação psicológica vai na contramão disso. Em vez de presumir que os cidadãos são racionais e persuasíveis por bons argumentos, presume que são irracionais e que devem ser empurrados para uma direção ou outra, supostamente para seu próprio bem, como rebanho.

Uma eleição com mais de 3 mil anos de história

 



Haverá um momento em que apenas duas opções vão parecer viáveis: o culto ao bezerro de ouro ou a volta ao faraó. Deus estará sempre pronto para lembrar você de que há alternativas e cabe a você manter a fé e seguir em frente. Alexandre Borges para a Gazeta do Povo:


Numa semana em que o assunto mais quente foi, tristemente, uma alegada apologia à ideologia mais antissemita já criada e responsável pelo genocídio de seis milhões de judeus, vale resgatar a sabedoria do Velho Testamento, herdada da Torá, um dos pilares do que se entende por Ocidente.

O Êxodo, segundo livro da Bíblia, relembra eventos históricos provavelmente ocorridos por volta de 1.200 a.C. Um erro nesta datação levou muitos especialistas, mesmo religiosos, a crerem que era um relato ficcional, mas essa é uma discussão que foge do escopo deste artigo. A saída do povo hebreu escravizado do Egito, que dá origem a Pessach, ou a "Páscoa Judaica", é comemorada até os dias atuais. Em 2022, a festa será de 15 a 23 de abril. Este que vos escreve acredita que é a descrição de eventos históricos, mas sigamos.

O regime político do antigo Egito era uma monarquia absolutista e teocrática, como qualquer colegial sabe, comandada por um líder que reunia os papéis de rei e sacerdote supremo. Eles tinham poder de vida e morte sobre todos os súditos já que seriam descendentes diretos do deus Hórus. O nome "faraó", pelo qual ficaram conhecidos, não era usado pelos egípcios e tem origem judaica.

Podemos entender o Antigo Egito como arquétipo da ditadura perfeita, aquela em que o mandatário tem poderes absolutos que são justificados por divindades. Quando o papel do líder de uma nação não tem limites, a tendência natural é um regime totalitário com um povo (ou parte dele) escravizado. Os hebreus, povo escolhido pelo Deus de Abraão, não poderia se submeter a um autocrata que reinava com violência e exigia ser tratado como uma divindade. A fuga era questão de tempo.

Deus resolveu intervir diretamente e livrar os hebreus do jugo egípcio. Ele falou com Moisés, prometendo a seu povo "uma terra boa e vasta, onde manam leite e mel" (Êx 3,8). A terra prometida forneceria alimento farto e liberdade aos imigrantes. O resto é história: Moisés comanda o povo para fora do Egito, abrindo o Mar Vermelho, mas essa é apenas a primeira parte da saga. Em vez de Canaã, os fugitivos vão para o deserto onde vagam por quarenta intermináveis anos.

Durante a viagem, Moisés tem que lidar com um povo rebelde e que vivia protestando: "Quem dera a mão do Senhor nos tivesse matado no Egito! Lá nos sentávamos ao redor das panelas de carne e comíamos pão à vontade, mas vocês nos trouxeram a este deserto para fazer morrer de fome toda esta multidão!" (Êx 16,3). Deus ouviu as queixas e forneceu pão do céu (maná), uma prefiguração da Eucaristia, na quantidade certa para que continuassem sua caminhada. "Ninguém deve guardar nada para a manhã seguinte", ordenou-lhes Moisés" (Êx 16,19). A benevolência de Deus não leva à fartura, mas à subsistência. É você quem deve, depois de alimentado e saciado, correr atrás do que quer, usufruindo plenamente de sua liberdade e recursos.

No Monte Sinai (Êx 24), Deus fornece a Moisés o norte moral que guiará o Ocidente pelos próximos milênios e sela sua Aliança. Quando o profeta desce (Êx 32), encontra o povo adorando um bezerro de ouro, uma imagem inspirada num dos falsos deuses egípcios, o touro Ápis. Moisés destrói o ídolo e comanda um expurgo sacrificial como penitência. Deus aceitou o arrependimento do povo e perdoou, selando novamente a Aliança. Os israelenses voltaram a falhar outras vezes, com graves consequências, mas seguiram seu caminho em direção a Deus.

O Brasil viveu 13 anos sob um regime com toques de messianismo em que muitos se tornaram prisioneiros, ao menos mentalmente, e precisavam se libertar. Ao enfrentar as agruras do "deserto", passaram a ter nostalgia da sensação de segurança dos tempos da escravidão e adorar um bezerro de ouro, uma nova versão dos mesmos falsos ídolos anteriores. Um dos mais primorosos diálogos da literatura, "O Grande Inquisidor" de Dostoiévski, reproduz com maestria essa luta eterna entre segurança e liberdade.

O único caminho para chegar à terra prometida, ontem e hoje, é não cair na tentação fácil dos discursos demagógicos dos falsos ídolos e seguir andando. Durante toda a jornada, embusteiros aparecerão prometendo acabar com suas dores em troca de devoção e, claro, muitos vão cair no conto (ou tomarão a pílula azul, para o nerds).

Haverá um momento em que apenas duas opções vão parecer viáveis: o culto ao bezerro de ouro ou a volta ao faraó. Deus estará sempre pronto para lembrar você de que há alternativas e cabe a você manter a fé e seguir em frente. Apesar dos altos e baixos da viagem, olhe para frente e continue.
 
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Isaiah Berlin contra o nacionalismo e seus disfarces

 



O filósofo e historiador das ideias Isaiah Berlin aborda, no livro Sobre o Nacionalismo, as origens da ideologia nacionalista. O volume organizado por Henry Hardy inclui todos os textos de Berlin sobre esse tema. Cesar Antonio Molina para o ABC Cultural:


Se reúnen por primera vez, en cualquier idioma, todos los ensayos en los que el filósofo e historiador de las ideas, de origen ruso-judío, Isaiah Berlin (1909-1997), reflexionó sobre el nacionalismo. Para el autor de «Dos conceptos de libertad», el nacionalismo es la más poderosa influencia sobre la vida pública en occidente durante el pasado siglo, y nosotros podemos añadir también que sobre el presente. Una expresión ideológica del Estado-nación que se creía decaería con el debilitamiento de las fronteras nacionales producido por las dos guerras mundiales y el desarrollo de la UE. Pero el nacionalismo no solo no ha desaparecido, sino que hoy en día, como estamos comprobando, es más peligroso que nunca. Si la humanidad se aniquila a sí misma, escribe Berlin, lo hará mediante el estallido de la violencia nacionalista, y no de la violencia social.

El nacionalismo nació ya con fuerza en Alemania durante el siglo XVIII. Hasta entonces esta ideología no había dado señales de vida. En medio del siglo XVIII, en medio de la fe en la universalidad de la razón y la ilustración que buscó la fraternidad, la armonía y la paz universales, el sentimiento nacional herido de Alemania contra Francia por su derrota en la Guerra de los Treinta Años, provocó la primera y profunda manifestación de lo que iba a ser una ideología destructora.

Prusia oriental fue el germen y Gottfried Herder uno de los primeros y grandes ideólogos del «volksgeist» y del «nationalgeist». Herder afirmaba que una de las necesidades esenciales de los hombres era la pertenencia a un grupo. Había una unidad en la que se había convertido la nación. Había un genio colectivo, no atribuible a autores individuales, que creaba mitos, leyendas, además de las costumbres. Por eso el exilio y la nostalgia «era el dolor más noble de todos», escribe Herder. El cosmopolitismo que Francia representó en el siglo XVIII, hacía desaparecer lo específico y conducía al desarraigo. Herder no excita a los unos contra los otros, sino que difundió la idea de una coexistencia pacífica entre la rica variedad de formas nacionales de vida, cuantas más diversas mejor. Frente a las invasiones francesas, frente a las revoluciones y uniformidad napoleónica, aunque esta supusiera la extensión de las ideas liberadoras, Herder llamaba a la autoafirmación nacionalista.

Orgullo patrio

Toda esta explosión de orgullo nacional no había sido prevista por nadie, únicamente Hegel se había referido a naciones «históricas» y «ahistóricas». Las primeras portadoras del «Geist» cósmico, pero se oponía al nacionalismo desbocado contra Francia y los judíos. Goethe y Hegel se volvieron impopulares en su propio país, entre los años 1813 y 1815, durante las guerras napoleónicas, porque se mostraron contrarios al creciente nacionalismo germánico. Por eso acusar a Hegel de nacionalista es falso. El verdadero filósofo peligroso de patrioterismo fanático fue Fichte que ensalzó el papel de Alemania como liberadora. Sin embargo Heine había escrito: «Kantianos implacables armados con hachas y espadas removerán la tierra de nuestra vida europea para arrancar las raíces del pasado. Fichteanos armados, a los que no detendrán ni el miedo ni el interés propio, entrarán en escena como aquellos primeros cristianos a los que ni el placer ni la tortura podrán quebrantar». Y también los discípulos de Schelling, los filósofos del antiguo panteísmo germano. Marx y Engels tampoco se enteraron de cómo se iba engendrando este monstruo. Para ambos estas ideas irracionales eran la manifestación de la burguesía reaccionaria condenada a desaparecer. Ellos estaban obsesionados con las clases sociales, y el nacionalismo como la religión era un fenómeno temporal burgués contra el proletariado.

Violento y contagioso

En el año 1848 las revoluciones democráticas fueron derrotadas por nacionalistas agresivos: Napoleón III y Bismarck. La Internacional socialista había coreado que nada conseguiría que los trabajadores marcharan unos contra otros. Lenin se indignó cuando los partidos socialistas de los países beligerantes en vez de proclamar una huelga general que habría detenido la Guerra del 14, se unieron a las banderas nacionales y fueron a la guerra.

Los acuerdos de paz de 1918 estimularon los sentimientos nacionalistas alemanes. En este momento surgió el nacionalismo moderno: violento y contagioso. La exaltación de lo local frente al cosmopolitismo de los vencedores. El nacionalismo para Berlin es una aberración detestable, la más poderosa y quizás más destructiva fuerza de nuestro tiempo. No hay que confundir los levantamientos nacionales contra el colonialismo, con el nacionalismo. El nacionalismo surge como una autoafirmación, como un sentimiento de opresión, como un sentimiento de humillación: una minoría ha preservado su propia tradición cultural y no quiere ser gobernada por una mayoría. Hay también un sentimiento de injusticia colectiva, como en el caso sionista.

El nacionalismo, para Berlin, era también una asfixia de las sociedades cerradas que favorecían a un grupo o una clase para autoperpetuarse y corromperse. Nadie predijo que el nacionalismo podría dominar el final del siglo XX y prolongarse en el presente. Nadie predijo nada y ahí está el monstruo.
 
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Briga de irmãos: Centrão e mercado não vêem diferenças entre Bolsonaro e Lula.

 



Coluna de William Waack para o Estadão:


Há setores do mercado que vivem no curtíssimo prazo e que pulam de Bolsonaro para Lula e vice-versa com a rapidez com que se especula por resultados imediatos. Os setores com horizontes mais distantes não enxergam diferenças significativas entre os dois líderes das pesquisas.

Mais de um grande fundo já disse isso aos cotistas. O mais recente foi o respeitado Verde, para o qual Lula e Bolsonaro “são irmãos gêmeos, separados no nascimento”. Ambos, diz carta redigida pelo fundo, recorrem ao mesmo “populismo eleitoreiro barato totalmente irresponsável”.

Essa afirmação resultou da análise “técnica” (levando em conta apenas modelos econômicos) dos instrumentos pelos quais o governo Bolsonaro pensa conseguir baixar preços de energia em geral e combustíveis em particular. Conclusão similar ao alerta feito pelo próprio Banco Central, segundo o qual a maneira pela qual o Planalto quer baixar preços e inflação arrisca a produzir o resultado contrário – obrigando o BC a subir mais ainda os juros.

Populismo eleitoreiro não é fenômeno restrito a personagens como Lula e Bolsonaro nem ao sistema político brasileiro. É generalizado mesmo em democracias liberais “estáveis” por toda a Europa. A questão para o Brasil, porém, é muito mais abrangente por causa do consenso amplo na sociedade brasileira de que a prioridade não é combater desigualdade, mas, sim, promover o crescimento dos gastos públicos, dos quais grupos privados e corporativistas extraem renda.

Esse tipo de “escolha” não é racional nem deliberada, e resulta de longo processo histórico e cultural – portanto, político. A composição do Parlamento brasileiro, com suas atuais inéditas prerrogativas de poder, espelha exatamente esse consenso. Uma amorfa massa “central” de deputados e senadores luta apenas por seus interesses paroquiais ou setoriais, acomodando-os à custa dos cofres públicos, sem diferenças ideológicas significativas.

O que mais impressiona quando se olha para o Brasil de uma perspectiva ampla é o longo tempo em que está preso à armadilha de renda média. Situação agravada de forma dramática pelas severas perdas sociais causadas pela pandemia na saúde, educação e renda. Esse “plano geral” – o das verdadeiras questões de fundo – não transparece no atual debate político-partidário.

Que se concentra em quem vai apoiar quem em troca de quê. O Centrão segue a lógica do sistema e tem como prioridade formar bancadas. Muito antes dos fundos sofisticados de investimento já havia demonstrado não ver diferenças significativas entre Lula e Bolsonaro. O resto é briga de irmãos.
 
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