MEDIÇÃO DE TERRA

MEDIÇÃO DE TERRA
MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 1 de agosto de 2026

Um Brasil que funciona só existe na cabeça de Lula

 



 

Francisco Carneiro Junior

“O socialismo nunca defendeu o povo — defendeu o Estado contra o povo, e destruiu, no caminho, a menor minoria que existe sobre a Terra: o indivíduo”. Ayn Rand

             Enquanto Brasília sonha com outubro, o Brasil sangra em silêncio.

O projeto que hoje ocupa Brasília não é um projeto de governo. É um projeto eleitoral disfarçado de governo. Não existe plano de nação ali dentro — existe cronograma de campanha. E a diferença entre as duas coisas é medida em vidas, em contas de luz, em presídios que viraram sede social do crime, em fronteiras que ninguém fecha. O horizonte deles é outubro de 2026. O horizonte do povo é o Brasil que sobra depois. Sacrifica-se o presente do brasileiro para financiar o futuro do partido — e a fatura, gigantesca, cairá sobre a mesa de cada família em 2027, quando o circo já tiver ido embora e restar só a lona rasgada.Olhe ao redor. Segurança pública, defesa nacional, infraestrutura, o interior esquecido, o cotidiano exaurido — em cada uma dessas frentes a sensação é uma só, monocórdica, obsessiva: abandono. Não é impressão. É método.

Comecemos pelo bolso, que é onde a ideologia perde a poesia e vira aritmética. Você paga luz, combustível, internet, plano de saúde, transporte, água — e nunca votou em quem decide, de fato, quanto você vai pagar por cada um desses itens. O Brasil mantém onze agências reguladoras federais com poder de editar norma, autorizar, fiscalizar, multar, interferir. Um poder imenso, quase invisível, que não passa pela urna e raramente passa pela imprensa. O problema não é a regulação em si — regular é função legítima do Estado moderno. O problema é quando a regulação deixa de prestar contas a alguém e passa a prestar favor a algum setor. Isso tem nome técnico: captura regulatória. E captura regulatória, meus caros, é apenas uma forma elegante de dizer que o Estado trocou de dono sem avisar o eleitor.

Agora olhe a fronteira, porque é lá que a ficção do “Brasil que funciona” se desfaz com mais violência. O país deixou de ser rota do narcotráfico internacional para se tornar base dele. O Tren de Aragua fornece armamento. O Comando Vermelho articula redes que atravessam continentes. O PCC se expande como uma corporação transnacional — porque é exatamente isso que ele é: uma corporação transnacional do crime, com filial, com logística, com departamento financeiro. E enquanto isso acontece, a cúpula da Polícia Federal chama de “equívoco técnico” a decisão de potências estrangeiras de tratar essas facções como organizações terroristas. Chamam de equívoco o que deveria ser chamado de diagnóstico tardio. O governo, em vez de agradecer a cooperação, veste a beca da soberania ferida — como se soberania fosse o direito de deixar o crime crescer sem interferência alheia, e não o dever de protegê-la com as próprias mãos, antes que outros precisem fazê-lo por nós.

A solução, aliás, nunca foi complicada — só foi, sistematicamente, evitada. Fronteira protegida. Dinheiro bloqueado. Bens confiscados. Lideranças isoladas em regime que impeça o comando de dentro da cela. Facções tratadas como o que são: ameaça à soberania nacional, não como problema de assistência social mal resolvido. Ou o Brasil enfrenta o narcoestado que se instala célula por célula, ou aceita ser playground do crime organizado — e nações não escolhem entre essas duas coisas por acaso; escolhem por covardia ou por coragem, e a covardia, infelizmente, também é política pública.

E é dentro do próprio sistema prisional que se vê o retrato mais cru do abandono. Quando o Estado perde o controle dos presídios, ele não perde um detalhe administrativo — perde a soberania sobre o próprio território, célula por célula, ala por ala. É nesse vácuo, morno e silencioso, que as facções recrutam, se organizam, se profissionalizam. Cada preso não ressocializado é um funcionário em potencial da maior multinacional do crime que o Brasil já produziu.

E é nesse cenário que ouvimos uma vereadora — Karen Santos, do PSOL — descrever traficantes como “trabalhadores megaexplorados” e defender a legalização das drogas como política de combate ao próprio tráfico. Segundo ela, a droga seria “uma mercadoria como qualquer outra”. Vejam a inversão: quem morre soterrado pela guerra das facções vira estatística; quem comanda o tráfico vira proletário oprimido. É a compaixão apontada para o lado errado da arma. E o pior: dita com a solenidade de quem acredita estar do lado certo da história — o que nos leva a um fenômeno mais profundo do que qualquer discurso isolado de plenário.

Porque existe uma engrenagem, quase invisível, que rege a política digital contemporânea, e que explica por que discursos como esse não desaparecem — eles se multiplicam. A internet não premia necessariamente quem está certo. Premia quem consegue fazer o adversário reagir. Há uma lei informal da internet que descreve exatamente isso: a forma mais eficiente de dominar uma conversa não é fazer a pergunta mais inteligente — é lançar a provocação mais irritante, aquela que ninguém consegue deixar sem resposta. O erro vira isca. A indignação vira combustível. E jornalistas, adversários, influenciadores, militantes de boa-fé começam, sem perceber, a trabalhar de graça espalhando exatamente aquilo que gostariam de destruir. Some a isso outro princípio, batizado em homenagem a um escritor italiano: a quantidade de energia necessária para desmentir uma mentira é ordens de grandeza maior do que a energia necessária para produzi-la. E some ainda a advertência de um linguista americano: negar publicamente um enquadramento é, paradoxalmente, reforçá-lo na mente de quem ouve — porque a palavra repetida grava a moldura, mesmo quando pretende apagá-la. Três mecanismos, uma só conclusão: nem toda provocação merece palco, porque na guerra de narrativas quem “corrige” costuma sair convencido de que venceu o debate — enquanto quem provocou, na verdade, venceu a pauta.

E a hipocrisia, aqui, atinge sua forma mais pura. Em palanque na universidade, antes de discurso do próprio presidente da República, ouvimos a acusação de que as igrejas seriam “máfias”. Mas, chegada a eleição, os mesmos lábios que insultaram os templos pedirão, mansamente, o voto dos que neles rezam. Quando alguém chama a igreja de máfia, não está atacando um prédio de tijolo e telha — está atacando milhões de pessoas de fé que sustentam famílias, recuperam vidas destruídas pelo vício, alimentam quem o Estado esqueceu. Quem conhece o trabalho das igrejas nas periferias sabe que ali não há crime organizado: há oração, acolhimento, prato de comida quente, esperança reconstruída tijolo por tijolo. A fé do povo não pode ser transformada em inimigo ideológico por quem, depois, precisará dela nas urnas. Respeitar as igrejas não é favor — é reconhecer a liberdade religiosa e a dignidade elementar de quem crê.

Mas para entender por que tudo isso se encaixa como peças de um só quebra-cabeça, é preciso voltar a 1985, quando um ex-agente da KGB desertou para o Ocidente e revelou o método. Yuri Bezmenov não foi treinado para plantar bombas — foi treinado para plantar percepções. O trabalho dele não era espionagem no sentido clássico. Era reformular, lentamente, a maneira como uma população inteira enxerga a realidade, até que essa população perca a capacidade de distinguir o certo do errado. Ele batizou o processo de subversão ideológica. Eu batizo de Brasil contemporâneo.

A subversão não chega de tanque. Chega pela escola que ensina a obedecer em vez de pensar. Chega pela mídia que decide, por você, o que merece sua indignação hoje. Chega pela cultura que glorifica o Estado provedor e culpa o empresário pela pobreza que o próprio Estado, com sua carga tributária asfixiante, ajudou a produzir. Bezmenov descreveu quatro etapas, e cada uma delas tem endereço no Brasil de 2026. Desmoralização: corroer os valores que sustentam uma sociedade produtiva — família, mérito, propriedade. Ele considerava essa etapa concluída no Ocidente já em 1985; no Brasil, ela amadureceu tardiamente, mas amadureceu. Desestabilização: atacar a economia real, as relações exteriores, a capacidade de defesa — leis que encarecem produzir, impostos que sufocam quem gera emprego. Crise: o colapso que chega, com pontualidade quase matemática, quando a base produtiva de um país é sistematicamente destruída. Normalização: o momento em que o povo deixa de se indignar e passa a administrar o caos como se fosse clima — carga tributária alta? “é assim mesmo”. Empresa fechando? “culpa do empresário ganancioso”. E aqui mora a peça mais trágica do tabuleiro: os idiotas úteis. Não são vilões conscientes — são, em sua maioria, pessoas de boa-fé que propagam a narrativa da própria ruína por ingenuidade, por vaidade, por ganância de aplauso, sem perceber que ajudam a afundar o mesmo barco em que navegam.

E é preciso dizer, com honestidade que a militância raramente pratica: a esquerda moderna não é uma conspiração de cinismo. É pior — é um sistema de poder que se autolegitima através da própria linguagem moral. A maioria de seus operadores acredita genuinamente no que prega. E é exatamente por isso que o sistema é tão resistente: um regime que depende de conspiradores conscientes é frágil, porque conspiradores podem ser expostos, comprados, desmascarados. Um regime que convence seus próprios operadores de que estão praticando o bem é quase inexpugnável, porque não há traidor a delatar — há apenas fiéis convictos. Roger Scruton deu nome a esse impulso: oikofobia — o desprezo sistemático pelo que é seu, familiar, herdado, local. É um movimento psicológico que precede o político. Primeiro se aprende a sentir vergonha da própria origem; depois se aprende a reparar essa vergonha através da militância; a militância então se torna identidade; e a identidade se torna o bem supremo, blindado contra qualquer crítica. O resultado é uma classe que se sente moralmente superior precisamente por ter rompido com tudo que a precedeu — a família, a tradição, a fé, a nação. Quanto mais se rejeita o passado, mais virtuoso se é. Quanto mais se pertence a ele, mais culpado se torna. É um sistema fechado, meus caros: não há como vencer esse debate por dentro, porque o debate, ali, nunca foi sobre argumentos — é sobre pertencimento moral, e pertencimento moral não se discute, se professa.

Se o brasileiro real, no seu dia a dia, em seus valores, em sua fé, é majoritariamente conservador — e se os partidos que dizem falar em nome do povo são sistematicamente progressistas — a pergunta que ninguém quer responder se impõe sozinha: quem, afinal, representa quem? A resposta é desconfortável, mas é precisa: a esquerda brasileira nunca representou o povo. Representou a classe intelectual que se autoproclamou porta-voz dele. E essa distinção não é detalhe acadêmico — é o núcleo exato do problema. Quando Antonio Gramsci formulou o conceito de hegemonia cultural, ele não estava ensinando como convencer a maioria a mudar de opinião. Estava ensinando como tornar a opinião da maioria irrelevante, controlando as instituições que decidem o que conta como realidade. Escola. Universidade. Imprensa. Entretenimento. Quem domina essas quatro estruturas não precisa vencer eleição nenhuma para governar — governa antes mesmo de a urna ser aberta.

E o que é o aparelhamento senão a hegemonia cultural com CNPJ, com organograma, com folha de pagamento? Não é teoria. É prática administrativa. Educação, saúde, previdência, o Bolsa Família — tudo instrumento; nada é fim em si. Um pedaço das Forças Armadas, capturado pela lógica da acomodação. Um pedaço da Polícia Federal, capturado pela lógica do “equívoco técnico”. As autarquias, a ANEEL, a ANATEL, o alfabeto inteiro das siglas que ninguém elegeu — tudo isso não administra o Brasil: administra o desvio, a cooptação, a promoção contínua de um projeto único, que é a utopia centralizadora de Brasília. E a essa utopia é preciso, finalmente, dizer basta. Precisamos rever, reexaminar, reconquistar aquilo que é nosso — porque a verdade incômoda é esta: nós não defendemos coisa alguma que seja nossa.

Enquanto isso, observe o mundo lá fora: as outras nações defendem, com unhas e dentes, até aquilo que não lhes pertence. Recebem o que não é delas, e ficam com o que recebem. O Brasil, ao contrário, entrega o que é seu — e agradece pela oportunidade. Por que a exceção somos sempre nós? O sistema, note bem, já nasceu arranjado para isso: os fundos estão definidos, as autarquias estão desenhadas, os recursos escoam para onde a lei manda escoar, obrigatoriamente, independentemente de mérito, de resultado, de qualquer critério que não seja o critério político que criou a norma. Não é desvio informal — é rolo institucionalizado, com força de lei, blindado contra qualquer revisão.

E aqui está o erro estratégico mais grave de décadas de resistência conservadora: nós só sabemos nos levantar contra indivíduos. Contra o ministro, contra o petista da vez, contra o rosto que a televisão nos mostra. Mas nunca contra a instituição — a autarquia, o fundo, a estrutura burocrática permanente — que segue ali, entronizada, cooptada, orientada contra o próprio país, muito depois de o indivíduo ter caído em desgraça e sido substituído por outro igual. Combater o sintoma e poupar a doença é a receita exata da derrota eterna. É a instituição, e não apenas o nome que a ocupa hoje, que precisa ser revista, disputada, reconquistada — porque enquanto lutarmos apenas contra pessoas, o aparelho continuará de pé, esperando, paciente, o próximo ocupante.

A esquerda não chegou ao poder no Brasil por vitória eleitoral esmagadora nem por sedução ideológica da maioria silenciosa. Chegou por infiltração institucional — lenta, paciente, metódica, executada ao longo de gerações por intelectuais e militantes que compreenderam exatamente aquilo que os conservadores brasileiros insistiram, soberbamente, em ignorar: que o poder duradouro não está em quem vence a eleição de outubro, mas em quem forma os juízes, os professores, os jornalistas, os funcionários públicos de carreira que permanecem no cargo enquanto os governos passam. Os conservadores brasileiros falharam de maneira monumental em construir as alternativas institucionais que poderiam ter alterado esse equilíbrio décadas atrás. E aqui vai a advertência mais dura deste texto, porque advertência sem dureza é apenas lamento vestido de análise: criticar a hegemonia cultural da esquerda sem ter erguido nada comparável não é diagnóstico — é queixa. É o general que denuncia o exército inimigo sem jamais ter treinado o próprio batalhão.

E, no entanto — e é aqui que este texto se recusa a terminar em resignação, porque resignação é exatamente o produto final que a subversão ideológica pretende entregar — reverter esse quadro é questão de construção, não de lamentação. Escola por escola. Instituição por instituição. Uma geração disposta a ocupar o espaço que a anterior cedeu por comodismo.

O Brasil não está condenado ao regime de exceção regulatória, ao narcoestado tolerado, à normalização do caos como clima. Está, isso sim, diante da última hora em que a construção ainda é possível sem que o colapso a torne inevitável. Um Brasil que funciona não é utopia de gabinete nem imaginação de discurso de posse — é projeto que se constrói com as mãos, com instituição, com coragem de nomear o crime pelo nome certo e a fé pelo respeito que ela merece. Existe, ainda, um caminho de volta. A pergunta que resta — e que cada brasileiro terá que responder, sozinho, diante da própria consciência, antes de outubro de 2026 — é se ainda restará gente disposta a percorrê-lo antes que a conta, gigantesca e avassaladora, vença de vez.

Francisco Carneiro Júnior

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