MEDIÇÃO DE TERRA

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domingo, 30 de agosto de 2026

Quando tudo cabe em um minuto, quem ainda aprende a permanecer?

 

Mackenzie

Quando tudo cabe em um minuto, quem ainda aprende a permanecer?

Midian Rebeca Justino de Araújo é professora de Linguística no Ensino Fundamental e Médio do Colégio Presbiteriano Mackenzie Agnes, no Recife. Mestranda em Educação Clássica e licenciada em Letras.

Há uma cena familiar: um vídeo termina e outro começa. Para muitos adolescentes, transitar entre conteúdos tornou-se cotidiano. Mas o que acontece quando, em vez de deslizar a tela, é preciso permanecer algumas páginas diante da mesma história?

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024 revelou que 53% dos brasileiros não haviam lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores. O dado não fala apenas dos jovens, e talvez isso já nos diga algo. Antes de responsabilizar uma geração inteira, convém reconhecer que o afastamento dos livros é um fenômeno mais amplo.

A leitura possui um tempo próprio. Um romance pede imaginação e disposição para não compreender tudo imediatamente. A reflexão de Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço, ajuda a pensar esse contraste ao opor a atenção profunda à “hiperatenção”, marcada pela rápida mudança de foco. E essa inquietação não é inteiramente nova: já em Quintiliano, a leitura dos bons autores estava ligada à formação de quem deveria aprender a pensar e a expressar-se bem.

Mortimer Adler, em Como ler livros, segue por caminho semelhante. Para ele, o leitor não permanece passivo diante de uma obra: faz perguntas ao texto e constrói seu julgamento. Pensemos, então: formar leitores não seria também ajudá-los a descobrir que um livro oferece uma experiência diferente daquela proporcionada pelo conteúdo breve?

Isso não transforma a tecnologia em adversária. Um vídeo sobre Machado de Assis pode despertar curiosidade por Dom Casmurro. Pode ser o primeiro encontro, a porta que se abre. O que vem depois dela, porém, exige outro tempo.

Nesse caminho, família e escola podem caminhar juntas, aproximando-se do universo dos adolescentes e favorecendo encontros significativos com os livros, para que a leitura também seja descoberta e sentida.

Talvez formar leitores na chamada “geração TikTok” seja menos uma batalha contra as telas e mais um convite à descoberta de outro ritmo. Afinal, ler é também atribuir sentidos, reconhecer-se e encontrar-se nas palavras do outro. E talvez seja nesse encontro que um livro deixe de ser apenas algo que se lê e encontre morada no leitor, um lugar de permanência na memória, no imaginário e na maneira como ele passa a interpretar a si mesmo e o mundo.

 



Midian Rebeca Justino de Araújo
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