MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O risco de transformar a eleição brasileira em palco da direita internacional

 


Sem projeto, Flávio recorre ao espetáculo

Pedro do Coutto

O lançamento oficial da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência deveria representar a afirmação de um projeto político nacional. O que se viu, porém, foi uma cerimônia marcada menos pela apresentação de uma agenda própria e mais pela tentativa de reafirmar a continuidade do bolsonarismo, pela presença simbólica de Jair Bolsonaro e pela intervenção de um presidente estrangeiro no debate eleitoral brasileiro. Em vez de projetar autonomia, o evento expôs a dependência de uma candidatura que ainda parece procurar sua própria identidade.

Flávio atacou o PT, criticou o governo Lula e prometeu chegar ao Palácio do Planalto acompanhado do pai, a quem atribui papel central em uma eventual vitória. A promessa tem força emocional para a base bolsonarista, mas também revela um paradoxo: uma candidatura que pretende representar o futuro continua organizada em torno da figura de um ex-presidente condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. O passado, nesse caso, não aparece apenas como herança eleitoral. É o eixo da narrativa.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – A própria convenção deixou isso evidente. Impedido de participar presencialmente, Jair Bolsonaro esteve presente por meio de uma mensagem produzida com inteligência artificial. A tecnologia permitiu reproduzir a presença política de um líder ausente, mas também criou uma imagem carregada de simbolismo: o candidato que busca representar a continuidade de um projeto precisou recorrer a uma versão virtual do próprio pai para ocupar o espaço que, em outras circunstâncias, seria naturalmente dele. A mensagem reforça a força do sobrenome, mas evidencia também a dificuldade de Flávio em se apresentar como liderança plenamente autônoma.

O elemento mais controverso, contudo, foi Javier Milei. A presença do presidente argentino transformou o lançamento em algo maior do que uma convenção partidária brasileira. Milei subiu ao palco, atacou Lula e o ministro Alexandre de Moraes e associou a candidatura de Flávio a uma suposta ofensiva continental contra o socialismo. A eleição brasileira passou, assim, a ser apresentada como parte de uma disputa ideológica latino-americana.

A estratégia tem lógica eleitoral. Flávio tenta transformar uma candidatura ainda marcada por dificuldades de articulação em um capítulo de uma onda conservadora internacional. Ao lado de Milei, busca transmitir a ideia de que não está isolado e de que existe uma corrente política regional capaz de enfrentar a esquerda. O problema é que essa associação pode funcionar para consolidar uma base já convencida, mas não necessariamente para ampliar o eleitorado.

PROJETO DEFINIDO – A eleição brasileira, afinal, não será decidida em Buenos Aires. Será disputada diante de uma sociedade que enfrenta problemas concretos, como segurança pública, custo de vida, emprego, saúde e educação. A presença de líderes estrangeiros pode produzir imagens fortes e alimentar as redes sociais, mas dificilmente substitui a necessidade de apresentar ao eleitor um projeto consistente para o país.

Há ainda uma questão institucional que não deveria ser minimizada. Um chefe de Estado estrangeiro participar ativamente do lançamento de uma candidatura presidencial no Brasil é algo incomum e politicamente sensível. Não se trata de afirmar que a presença de Milei constitua, por si só, uma interferência ilegal no processo eleitoral.

Mas sua participação introduziu uma dimensão externa em uma disputa que deveria, essencialmente, ser decidida pelos brasileiros. Ao atacar diretamente o presidente brasileiro e um ministro do Supremo Tribunal Federal durante um evento partidário, Milei deixou de ser apenas um convidado internacional e assumiu o papel de protagonista de uma disputa política doméstica.

REFERÊNCIA EXTERNA – O contraste é significativo. Enquanto Flávio procura se afirmar como alternativa para governar o Brasil, o palco do lançamento foi ocupado por referências externas: Milei, Jair Bolsonaro e até a inteligência artificial usada para recriar a presença do ex-presidente. A impressão que fica é a de uma candidatura que ainda precisa responder a uma pergunta fundamental: o que há de Flávio Bolsonaro além do sobrenome Bolsonaro?

Esse será um dos maiores desafios de sua campanha. O apoio de Milei pode oferecer entusiasmo à militância e reforçar a imagem de pertencimento a uma direita internacional. Mas uma eleição presidencial exige mais do que mobilizar os já convencidos. Exige conquistar eleitores que não votaram no candidato anterior, dialogar com setores moderados e apresentar uma agenda capaz de ultrapassar as fronteiras ideológicas de sua própria base.

Flávio precisa administrar três forças: a fidelidade ao pai, que continua sendo seu principal patrimônio eleitoral; a necessidade de conquistar uma direita menos confrontacional e mais capaz de formar alianças; e a pressão para integrar uma articulação internacional que tem em Milei um de seus principais símbolos. O equilíbrio entre essas dimensões será decisivo para saber se sua candidatura conseguirá crescer ou permanecer restrita ao núcleo mais fiel do bolsonarismo.

MAIS DO MESMO– Por isso, o lançamento merece ser observado menos pelo espetáculo e mais pelo que revela. Ao colocar Milei no centro da cerimônia, apresentar Jair Bolsonaro por meio da inteligência artificial e fazer da crítica a Lula e Alexandre de Moraes um dos principais eixos do discurso, a candidatura parece ter escolhido reafirmar suas trincheiras antes de demonstrar capacidade de ampliar seu território político.

Milei pode ter ajudado Flávio a ocupar as manchetes e oferecido à campanha uma fotografia poderosa para sua base. Mas a mesma imagem que fortalece sua identidade ideológica também pode reforçar a percepção de dependência de referências externas e de uma política cada vez mais internacionalizada por líderes que não disputarão a Presidência do Brasil.

ARTIFÍCIO –  A presença de Milei produziu um efeito ambíguo. Para os que já estão com Flávio, foi um gesto de força e solidariedade política. Para os que estão fora desse campo, pode ter parecido justamente o contrário: a demonstração de que uma candidatura que pretende governar o Brasil ainda precisa recorrer a um presidente estrangeiro para ampliar sua estatura.

A eleição, entretanto, será brasileira. E o desafio de Flávio Bolsonaro será provar que consegue ser mais do que o herdeiro político de Jair Bolsonaro e mais do que o aliado brasileiro de Javier Milei. Precisará convencer o eleitor de que existe, em sua candidatura, um projeto próprio de país. Até aqui, o lançamento ofereceu muitas referências ao passado e ao exterior. O que ainda falta apresentar, com clareza, é o futuro que pretende construir para o Brasil.

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