Nossa educação há muito foi capturada por um ecossistema sindical, político e acadêmico cuja obsessão é manter intocado o monopólio estatal sobre a educação pública. Fernando Schüler para o Estadão:
Semanas atrás, escrevi aqui sobre o sucesso da parceria da Prefeitura de São Paulo com o Liceu Sagrado Coração de Jesus,
no centro de São Paulo. A escola é confessional, católica, os alunos
são bem atendidos, há disciplina, os professores não faltam e os
resultados são bons. A escola é 100% privada, sem fins lucrativos, e sua
função 100% pública. Um clássico ganha-ganha.
A
prefeitura lançou agora um chamamento público para ampliar o modelo
para mais três escolas. Uma em Parelheiros, outra no Jardim Bandeirantes
e ainda outra no Jaraguá. É exatamente assim que se faz política
pública. O modelo é testado, em menor escala. E vai avançando, se os
resultados forem positivos.
De
minha parte, vejo algo incrível aí: a chance única de permitir que
crianças de famílias pobres possam estudar em escolas similares àquelas
frequentadas por seus pares de classe média e maior renda. É isto que
temos que fazer, se quisermos de verdade combater as desigualdades, no
Brasil.
Dias
atrás, escutava uma entrevista do professor Ricardo Paes de Barros
sobre nossa educação. Ele foi direto ao ponto: nós planejamos,
avaliamos, aumentamos os recursos da educação, mas os resultados são
“desastrosos”. E não sabemos bem o porquê. Paes de Barros e Laura Muller
realizaram uma importante pesquisa mostrando que, no conjunto
analisado, as escolas de tempo integral, vistas por muitos como uma
espécie de “bala de prata” da educação brasileira, perderam desempenho
entre 2019 e 2023. O Ideb médio dessas escolas caiu de 4,51 para 4,44,
enquanto o das demais apresentou pequeno avanço. A conclusão mais
prudente é a de estagnação. É um quadro semelhante ao revelado pelo
Pisa. Considerando a média aritmética das três áreas avaliadas, o Brasil
passou de aproximadamente 401 pontos em 2009 para 397 em 2022. Em
matemática, a nota caiu de 386 para 379.
O
problema começa quando se tenta entender o porquê disso. Em regra,
agimos de um modo algo estranho. Admitimos as mais diversas hipóteses,
menos uma. Nos recusamos a considerar que possa haver um problema
estrutural com o sistema estatal. Rejeitamos uma pergunta bastante
simples: não estaríamos basicamente fazendo a mesma coisa e esperando
resultados diferentes? Faz sentido dobrar sempre a aposta e colocar mais
dinheiro em um sistema que não funciona? E não porque há um problema
com os professores, com os diretores, com o currículo ou o que seja. Não
funciona porque insistimos em ignorar a lógica mais elementar dos
incentivos.
Em
primeiro lugar, não há competição. Uma escola privada capricha na
gestão por uma razão simples: porque do contrário os alunos vão embora. A
segunda questão trata do que os americanos chamam de “accountability”. O
fato elementar de que raramente alguém é responsabilizado se os
resultados não aparecerem. Os professores podem faltar 15% dos dias
letivos que “não dá nada”.
Se
os alunos não aprendem ou os pais estão insatisfeitos, a escola não
perde nada com isso. Isso vale para diretores, secretários ou
governadores, visto que a retórica política é sempre capaz de explicar
qualquer coisa. Há centenas de institutos, fundações e “especialistas”
dando sugestões sobre como melhorar o sistema. Mas se ele não melhora,
depois de 20 ou 30 anos, ninguém perde uma só noite de sono por causa
disso.
A
verdade é que nossa educação há muito foi capturada por um ecossistema
sindical, político e acadêmico cuja obsessão é manter intocado o
monopólio estatal sobre a educação pública. O resto, sendo bem direto,
importa muito pouco.
É
o que vemos agora, a partir da iniciativa da prefeitura de São Paulo.
Bastou abrir o modelo e permitir que os estudantes possam estudar em
boas escolas de gestão privada, com mais diversidade e resultados
significativamente melhores, que o ecossistema do monopólio estatal se
põe em movimento.
O
PSOL, espécie de porta-voz do grupo, entrou com uma ação na Justiça que
simplesmente pode inviabilizar todo o processo. A ação diz que o
programa é “ilegal”. Não é. O art. 213 da Constituição é claríssimo ao
dizer que os recursos públicos serão aplicados às escolas públicas,
“podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais e
filantrópicas”.
Nossa
educação básica é um sistema misto – estatal e não estatal. Esse é o
espírito da Constituição, bem desenhado no processo constituinte. Não
fosse assim, por que teríamos uma lei, aprovada pelo Congresso, à época
da ex-Presidente Dilma, o chamado “Marco Regulatório da Sociedade
Civil”, autorizando as parcerias com o setor privado sem fins
lucrativos? Exatamente a legislação que a Prefeitura de São Paulo
utiliza agora para levar adiante estas parcerias.
O
fato é que nossas crianças de menor renda merecem esta oportunidade. A
mesma que seus pares de maior renda. Elas não têm lobby, em lugar
nenhum, diferentemente da incrível rede corporativa que orbita no
entorno do sistema estatal.
O
que deveríamos estar discutindo é como fazer com que as parcerias
ofereçam o melhor resultado. Na experiência americana com as charter
schools, que são modelos de parceria, há dois dados fundamentais,
revelados pelo National Charter School Study, feito em Stanford: o
modelo como um todo oferece resultados melhores do que o das escolas
públicas tradicionais, e há um ganho ainda mais robusto quando as
parcerias são feitas com redes de ensino de maior porte, com experiência
e capacidade de investir em qualidade.
É
sobre isto que deveríamos estar discutindo. Olhando para frente, e não
para trás. Rompendo com a prisão ideológica em que nos encontramos, e
cuja conta é paga por mais de 80% dos alunos brasileiros que dependem
das redes públicas.
São
Paulo está nos oferecendo uma rara oportunidade de avançar. Trata-se de
um avanço voltado não aos filhos de juízes, promotores, políticos e
pessoas com renda para matricular os filhos em boas escolas, mas às
crianças de Parelheiros e do Jaraguá. E por nada deveríamos retirar
delas esta oportunidade.
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