BLOG ORLANDO TAMBOSI
Em sua coluna na revista Veja desta semana, Fernando Schüler mostra onde o mundo piorou:
Nosso
mundo teimoso parece sempre melhorar. A mortalidade infantil foi de
19%, em 1960, para menos de 4% em 2018, e a expectativa de vida
basicamente dobrou no último século. Mesmo nesses tão mal falados anos
de globalização, os dados mostram uma história surpreendente. Um
trabalhador médio é capaz de comprar 2,5 vezes mais coisas, bens e
serviços, com o mesmo tempo de trabalho, do que fazia há quarenta anos. É
possível que Keynes tenha errado no timing quando profetizou, em seu
famoso artigo dos inícios dos anos de 1930, que em perto de 100 anos
teríamos resolvido nosso “problema econômico”, mas a verdade é que no
sentido geral em que vamos caminhando, ele acertou.
Há,
porém, um aspecto sombrio nisso tudo: o declínio da saúde mental, em
especial de nossos adolescentes. Foi o que mostrou o amplo estudo
publicado agora pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC),
dos Estados Unidos, que apresentou uma piora significativa nos sinais de
insatisfação e depressão entre o público mais jovem na última década. O
estudo mostra que quase três em cada cinco meninas adolescentes
sentiram uma “tristeza persistente” em 2021, o dobro da taxa de meninos.
E que uma em cada três meninas considerou tentar o suicídio. Luca
Braghieri e outros pesquisadores publicaram um estudo na American
Economic Review mostrando um “aumento de 83% no número de jovens entre
18 e 23 anos com algum relato de depressão, entre 2008 e 2018”. Os dados
são abundantes e nos dão conta de um mal-estar mais amplo, na vida
atual, do qual ninguém está inteiramente livre.
Muita
gente tenta descobrir algum traço na economia, nos dramas sociais, nos
ventos da política, para esse fenômeno. Jonathan Haidt e Greg Lukianoff
vão na direção contrária: não há nada especialmente diferente com o
planeta, dizem eles, o que mudou é o contexto de hiperinformação no qual
mergulhamos. O universo onipresente da tecnologia e das redes sociais. A
partir daí, as hipóteses são muitas. Uma delas fala da perda dos
vínculos sociais. A rápida migração da sociabilidade cotidiana para um
universo digital de baixa empatia. Outra fala do “efeito comparação”. A
ideia de que vamos continuamente nos “empacotando para consumo público e
vendo a nossa popularidade e a dos outros permanentemente
quantificada”, como li por estes dias. O estudo de Braghieri mostrou que
a introdução do Facebook no ambiente universitário americano produziu
um “claro impacto negativo na saúde mental dos alunos, aumentando as
chances de piora de seu desempenho acadêmico”. E por fim há o tema cada
vez mais dramático da “economia da atenção”. Ninguém planeja seu dia
dizendo que “hoje quero ficar três ou quatro horas batendo boca ou
assistindo a vídeos inúteis”, provoca o pesquisador James Williams. Mas
as pessoas ficam. E sua atenção é radicalmente capturada, e a sensação
de uma permanente perda de foco e de tempo, e logo de sentido, passa a
ser um “quase normal” da vida contemporânea.
Existe
depressão entre os adolescentes também com a política. Há uma gradação.
Meninas no lado “progressista” são o grupo mais suscetível à depressão,
seguido pelos meninos com a mesma orientação. Meninas de afinidades
conservadoras vêm logo a seguir e por último os meninos na mesma linha.
Novamente, há a tentação da retórica política. Não faltou quem tenha
culpado o “inferno capitalista”, a “mudança climática”, e até mesmo
(sempre ele) a vitória de Trump. Quem colocou a bola no chão foi a
jornalista Michelle Goldberg, observando que o declínio da saúde
mental dos adolescentes tem uma inclinação negativa a partir de 2012,
ano em que Barack Obama foi eleito para seu segundo mandato e pouco
antes de a Suprema Corte Americana legalizar o casamento entre pessoas
do mesmo sexo. O problema nada tinha a ver com a ascensão deste ou
daquele político, mas com uma época em que redes como o Instagram, entre
muitas, crescem vertiginosamente, e são incorporadas ao modo de viver
da nova geração.
Haidt
e Lukianoff propõem uma inversão do raciocínio: o problema não está no
planeta, na tecnologia ou na ação das big techs. A tecnologia é um dado
com o qual precisamos lidar. Logo teremos novas gerações do ChatGPT, os
algoritmos ficarão ainda mais eficientes, a informação ainda mais
ubíqua, e o mundo ainda mais complicado. De modo que a questão crucial
não é criar algum tipo de redoma de vidro capaz de nos proteger das
impurezas da caverna digital, mas mudar a forma como encaramos o
problema. Em seu livro anterior, eles identificaram três “grandes erros”
que vêm pautando nossa cultura digital e nossa educação. Um deles é a
ideia de que “o que não te mata te fragiliza”. Outra é a confiança
excessiva em nossos “sentimentos e sensibilidade”. Por último, a ideia
comum no tribalismo atual, segundo a qual “a vida é uma batalha entre o
bem e o mal”. O cultivo desses três grandes erros definiria muito do
zeitgeist de nossa era digital e está na base do mal-estar
contemporâneo. Na mesma linha, a escritora Angela Nagle mostrou como um
tipo muito particular de cultura foi sendo forjado nos novos ambientes
digitais. Ela nasce em redes como o Tumblr, logo explode no Twitter e se
torna ubíqua. Sua marca: “Pessoas que desenham para si um tipo de
boutique identity, reagindo com raiva a qualquer um que não reconheça
seu caráter sensível e especialíssimo”. Entre seus mantras preferidos, a
ideia de um mundo hostil, o dano, o trauma. E a crença quase obsessiva
nas “palavras como forma de violência”. A tese é incômoda não para a
defesa de direitos, mas para certa obsessão identitária contemporânea,
que vai penetrando nas empresas, no cinema, na educação. O problema,
provoca a pesquisadora Jill Filipovic, é que a aposta reiterada na
linguagem do dano e da fragilidade termina por reforçar esse mesmo
sentimento de fragilidade, reduzindo a capacidade das pessoas para
“administrar adversidades inevitáveis e navegar em um mundo complicado”.
É
plausível que isso atinja com mais força nossos adolescentes. Eles
estão entrando agora no jogo, sem o aprendizado do sofrimento, e talvez
por isso estejam pagando a parte mais salgada da conta. Ainda me lembro
da leitura das memórias do revolucionário russo Victor Serge. Ele viveu
os anos duros dos inícios da revolução russa, até finalmente escapar
daquele inferno, e definiu sua experiência mais precoce como a de viver
em um “mundo sem evasão possível”. Nosso mundo nos oferece o inverso, a
sensação de uma evasão infinita. Observando o mal-estar contemporâneo,
foi esta a imagem que me veio à cabeça. E com ela a pergunta sobre como
lidar com isso. Com o excesso de ruído e de sombras na caverna digital
contemporânea, com a abundância de palavras, imagens e ideias que por
vezes no agridem, mas que podemos compreender como uma imensa riqueza a
nosso dispor, ou como um campo minado, um mundo sujo e hostil, do qual
precisamos nos proteger e com o qual nada temos a aprender.
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
Publicado em VEJA de 22 de março de 2023, edição nº 2833
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

Nenhum comentário:
Postar um comentário