BLOG ORLANDO TAMBOSI
Tal como o feminismo, o masculinismo demoniza o sexo oposto, em vez de propor alterações na pólis. Com feminismo e masculinismo, a sociedade fica dividida entre sexos inimigos e é incapaz de formar famílias. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Para
quem está na casa dos 30 e 40 anos, existe um gênero de conversas que
começa assim: “Gente! Eu estava vendo tevê e...” Dez anos atrás, todo
mundo estava vendo tevê, de modo que ter visto algo na tevê não era nada
de excepcional. As pessoas deixavam o televisor ligado e pegavam o
jornal de papel debaixo da porta. Hoje as pessoas mais politizadas leem
notícias de graça pela internet, escolhem algum programa audiovisual da
internet para ver na tevê conectada (essa escolha será pautada pela
orientação política do comentarista) e assinam (espero!) um bom jornal
digital para ler coisas mais detalhadas, com opiniões e apurações mais
ou menos afinadas com a do leitor. Ver televisão aberta acaba sendo
coisa de velhos despolitizados, ou de gente simples. Assim, chegar num
círculo de amigos e dizer: “Gente! Eu estava vendo tevê e…” é certeza de
novidade.
Pois
bem: ao que parece, a tevê agora está em campanha contra o gênero de
homens conhecidos como MGTOW (sigla de “os homens seguem o seu próprio
caminho”, em inglês), PUA (sigla de “artista da pegação”, em inglês),
red pill (“pílula vermelha” em inglês, em alusão ao filme Matrix) etc.
Os nomes são em inglês porque a coisa é, naturalmente, importada. E eu
posso resumir o fenômeno dizendo que é o feminismo dos homens. É
masculinismo. Tal como no feminismo, existem questões relevantes. O viés do Judiciário
em prol das mulheres na certa é o mais relevante de todos. No entanto,
tal como o feminismo, o masculinismo demoniza o sexo oposto, em vez de
propor alterações na pólis. Com feminismo e masculinismo, a sociedade
fica dividida entre sexos inimigos e é incapaz de formar famílias –
quanto mais de se contrapor ao establishment progressista.
Como
a maioria dos seres humanos é atraída pelo sexo oposto, o masculinismo e
o feminismo têm de inventar um jeito de lidar com isso. Na seara
feminista, há o velho lesbianismo político, que não deu lá muito certo,
além dos gêmeos empoderamento e vitimismo, que deram muito certo na
cultura pop e no Judiciário respectivamente. Funciona assim: as mulheres
devem ficar bonitas para atrair o maior número possível de homens e
extrair a maior quantidade de riqueza deles – como a material girl de
Madonna – e depois, se o homem tiver cometido o grave erro de fazer
filho, o Judiciário usa a pensão alimentícia
para fazer o homem pagar financeiramente por não ter correspondido às
expectativas emocionais da mulher. Em outras palavras, o feminismo
fomentou a predação dos homens pelas mulheres. Agora surge o
masculinismo promovendo a predação das mulheres pelos homens.
Os
masculinistas reclamam, não sem razão, de “as mulheres” (i.e., as
empoderadas) os verem como carteiras ambulantes. Eles, então, tratam as
mulheres como pedaço de carne e bolam estratégias para fazer sexo com o
menor risco financeiro possível. Em primeiro lugar, casamento, jamais.
Nos EUA é relativamente comum as mulheres depenarem os homens após o
divórcio, e essa ideologia vem de lá. A outra, claro, é evitar filhos a
todo custo. Então a meta é fazer só sexo casual. Considerar as mulheres
umas bonecas descartáveis.
E agora chegamos à incrível manchete que a tevê deu
e um amigo resolveu socializar: um indivíduo chamado Mike Pickupalpha
(que em português seria algo como Miguilim, o Alfa da Pegação), junto a
um sócio que não tem um nome engraçado, cobrava entre US$ 12 mil e US$
50 mil para alunos do curso de pegação virem até este Brazil, onde
“seduziam” brasileiras dando match no Tinder
(isto é, com uma brasileira sinalizando que gostou da sua foto num
aplicativo de paquera) e convidavam-nas para uma festa numa mansão. A
ideia era reunir o máximo de mulheres possível e, pela matéria,
completaram o quadro com profissionais do ramo. Como há mulheres que
usam o Tinder para procurar relacionamento sério, é provável que alguma
delas tenha notado que havia algo de errado, investigado e levado o caso
à imprensa – que, alerta, acha os bichos papões ideais para mostrar que
o feminismo é necessário.
Nessa
história toda, o mais intrigante é deixado de fora: que homem é esse
que acha que precisa pagar dezenas de milhares de dólares para sair do
país e aprender a pegar mulher com um – cof, cof – artista da pegação?
Bom, a cosmovisão desse pessoal eu já expliquei noutro artigo.
É um darwinismo social pop que divide homens em alfas e betas e crê que
as mulheres vão, inexoravelmente, correr atrás dos alfas. Contra toda a
experiência acumulada por milênios, creem que a humanidade é similar
aos gorilas e cachorros. Esse naturalismo barato está presente, pois o
Alfa da Pegação e seu parceiro mostraram um kit que os alunos deviam
levar: “pílulas do dia seguinte [...], camisinhas e perfumes com
feromônios – que supostamente secretariam substâncias para chamar
atenção das mulheres”. Imaginem só a ingenuidade do distinto e
científico público que acredita num perfuminho chama-mulher.
Menos
afeita a especulações filosóficas, uma amiga sugeriu que os artistas da
pegação são apenas uns caras que ganham dinheiro para fazer o que os
pais e irmãos mais velhos faziam antigamente: levar um filho para um
prostíbulo e iniciar nas coisas de homem. O pessoal está carentão e
isolado, aí dá nisso. Embora o costume de levar os filhos a um
prostíbulo não seja um traço da cultura dos EUA, há de se levar em conta
o fato de que esse país tem há muito tempo uma alta taxa de divórcios e
mães solteiras. Ou seja, dá tempo de os meninos filhos criados por mães
que odeiam os seus pais terem se tornado adultos. Eles não têm uma
figura paterna em casa (se bobear, até a avó odeia o avô), a mãe não tem
como iniciar o filho nesse âmbito e ele fica, então, à mercê de
qualquer golpista que prometa uma chuva de mulheres. No mais, como as
mães abandonadas costumam descontar nos filhos a raiva que sentem dos
pais, explica-se por que há tantos misóginos à disposição desse mercado.
No
mais, vale tirarmos o chapéu para a estratégia dos artistas de pegar
cliente. Ao contrário do que o darwinismo social pregava, a exogamia faz
uma prole mais saudável do que a endogamia, e um indivíduo sempre
parecerá mais bonito quando é exótico do que quando é comum. É melhor
ser uma sueca no Brasil do que na Suécia, é melhor ser uma brasileira na
Suécia do que no Brasil, e quem não me deixa mentir é a deputada
Ocasio-Cortez, que não é nenhuma beldade e que passaria em brancas
nuvens no Brasil, mas que os americanos, mesmo de direita, têm por
latina sexy. O mero fato de trazer os alunos gringos para o Brazil já
faz deles exóticos e, portanto, mais interessantes. Ao verem que são
mais notados durante o curso, vão atribuir isso às técnicas aprendidas, e
não à mudança geográfica. Isso pode deixá-los mais confiantes e, como
confiança é essencial a um homem paquerador, eles devem mesmo sair do
curso pegando mais mulher do que antes. Vão achar que seguiram técnicas
científicas e eficazes, mas caíram numa ilusão benigna.
Seja
como for, esses alunos de pegação partem do pressuposto de que se dar
bem na vida é pegar um monte de mulher e não ficar com nenhuma. É de se
perguntar, também, se essa mentalidade não é a contraparte da empoderada
há bastante tempo, já de antes de existirem movimentos masculinistas
organizados.
A versão em texto da matéria televisiva é desta quinta. Um dia antes saiu uma reportagem especial de Kim Paim
sobre a suposta viagem do MBL à Ucrânia (aparentemente só provas de que
estiveram na Eslováquia) e as notas fiscais de compras em dinheiro vivo
que eles apresentaram. A matéria trouxe de volta não só as falas do
Mamãe Falei sobre as ucranianas, que lhe valeram a cassação, como também
entrevistas em que Renan Santos se gaba muito de ter aprendido sueco
para viajar e pegar suecas. Pelas falas de ambos, depreende-se que
mulheres servem para colecionar e ostentar. Nenhum desses ativistas
políticos é do ramo da pegação, e o MBL não parece pretender ter
vínculos com o masculinismo. Ou seja: Mamãe Falei e Renan Santos são
“normais”, mas pensam igual a masculinista. Signo de sucesso é “pegar
mulher” lá na Suécia e voltar de mãos abanando. Parece aqueles
pesque-pague em que se devolve peixe à lagoa.
Fiquemos,
então, com a seguinte hipótese: a cultura pop, comandada por um punhado
de oligopólios, fomenta a atomização da sociedade por meio do ódio
entre os sexos. Feminismo e masculinismo pregam a mesma coisa, que é a
predação do sexo oposto. É um círculo vicioso, porque funciona melhor em
indivíduos que nasceram em lares instáveis. Essa ideologia faz muito
mal aos seus adeptos, porque finge que a vida é uma eterna adolescência:
que os homens vão estar sempre funcionando, que as mulheres vão estar
sempre bonitas. Nela, não há prazer desvinculado do sensório e do
consumo. Não há prazer grátis para homens nem mulheres. Um dia, quando
esses indivíduos ficarem velhos demais ou tristes demais para essa
brincadeira, vão morrer de overdose ou de eutanásia.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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