BLOG ORLANDO TAMBOSI
A única conclusão que tiro disso tudo é que gente gorda pode ou não emagrecer, mas gente burra vai morrer burra — e que erro da natureza a burrice não doer. A crônica de Ruy Goiaba para a Crusoé:
Já
começo este texto sacando a minha carteirinha do “lugar de fala”. Sou
gordo e tendo a confundir empatia com empadinha: quando alguém diz que
precisamos ter “mais empatia uns com os outros”, concordo com entusiasmo
e acrescento que a minha é de camarão — sem azeitona, por favor. Estou
tentando emagrecer, mais pelo histórico de diabetes na família que por
qualquer razão estética. O caminho é árduo (e sem empadinhas), mas vamos
que vamos: no pain, no gain, when the going gets tough the tough gets
going, escolha seu clichê.
É
claro que há muita gente, no mundo todo, com seriíssimos problemas de
obesidade mórbida. Na ficção, um personagem com essas características
acabou de render um Oscar ao ator Brendan Fraser: em “A Baleia”, ele
interpreta Charlie, um professor de inglês que pesa cerca de 270 kg, com
todas as complicações que disso decorrem. Em entrevistas, Fraser disse
que o papel o obrigou a usar próteses de até 130 kg — o que a imprensa
de língua inglesa chamou de fat suit.
Nem
preciso dizer, porque vocês já adivinharam: é claro que, além de o
filme ter sido acusado de gordofobia, problematizaram a escolha do
elenco (“por que não escolheram um ator obeso mórbido para o papel?”).
Até aquela revista que era de surfe e mulher pelada e, ultimamente,
dedica-se a expiar todos os pecados do seu passado sexista publicou uma
chamada usando “A Baleia” como gancho, falando em “opressão
romantizada”, alegando que o uso de próteses exclui “pessoas gordas” do
cinema e — claro, como não? — pontificando que “precisamos falar sobre
fat suit” (não, não “precisamos falar” sobre coisa alguma, seus
reverendos metidos a hipsters, seus viciadinhos no êxtase da
santimônia).
Fica
até difícil listar os motivos pelos quais esse é o “debate” mais idiota
de todos os tempos da última semana (tenho fé que, na próxima semana, o
grande tema de discussões nas redes sociais será ainda mais cretino,
seja ele qual for), mas vou tentar resumir. Um ator de 270 kg, além de
não ser exatamente fácil de encontrar, correria riscos muito sérios de
ter problemas de saúde durante as filmagens — morrendo, por exemplo, o
que de quebra mataria o filme ou obrigaria a produção a correr atrás de
outro ator com IMC acima de 70. E vejam: eu pensava que “ator”, por
definição, fosse alguém dedicado a interpretar personagens que são
diferentes dele. Uma pessoa precisa ter câncer para fazer o papel de
alguém com câncer? Laurence Olivier não podia interpretar Hamlet porque
não era um príncipe dinamarquês? Denzel Washington, que não é general
nem escocês, pode atuar como Macbeth? Luciano Pavarotti e outros
cantores líricos deveriam ser proibidos de dar vida e voz a personagens
magros?
Há
uma história clássica, e talvez apócrifa, sobre um filme em que
Laurence Olivier e Dustin Hoffman contracenaram, “Maratona da Morte”, de
1976. Hoffman teria passado uma noite sem dormir para uma cena em que
seu personagem sofria de cansaço pós-insônia, e Olivier teria
perguntado: “Meu querido, por que você simplesmente não tenta atuar?”.
No que depender da esquerda identitária, essa ideia vai pelo ralo: duas
das ocupações que mais propiciam esse difícil exercício de se colocar no
lugar do outro — a do ator e a do escritor — virariam puro testemunho,
vetado a quem não tenha identificação absoluta (o tal “lugar de fala”)
com o personagem que interpreta ou com aqueles que cria. “Ah, mas
representatividade importa.” Sem dúvida, e é ótimo termos hoje, por
exemplo, muito mais atores negros em papéis relevantes do que décadas
atrás. Mas é mesmo necessário que a busca por representatividade mate a
representação?
Sou
plenamente capaz de subir numa mesa e gritar um morra! para os padrões
opressivos de magreza (desde que a referida mesa aguente o meu peso).
Nem vou comentar o exagero inverso, glorificar “corpos gordos” cuja
condição pode sujeitá-los a uma vida de problemas médicos e limitações:
acredito que pessoas adultas têm o direito de estragar sua saúde como
bem entenderem. A única conclusão que tiro disso tudo é que gente gorda
pode ou não emagrecer, mas gente burra vai morrer burra — e que erro da
natureza a burrice não doer.
***
A GOIABICE DA SEMANA
Todo
mundo já falou de Guilherme Boulos muito entusiasmado com uma cisterna,
essa inovação tecnológica mais velha que Jesus Cristo (e aliás citada
várias vezes na Bíblia), numa comunidade do MTST. Mas acho que o que
mais curti foi ver o deputado do PSOL chamar uma casa de taipa de
“bioconstrução”: temos que estimular mesmo outros criadouros de
barbeiros, aqueles insetos que transmitem a doença de Chagas. Quando se
dizia que esse povo psolista gosta de gente de “coração grande”, eu não
imaginava que a coisa fosse tão literal assim.

Boulos e a cisterna: o PSOL tem tudo para fazer o país progredir para o século 19
Postado há 6 days ago por Orlando Tambosi

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