BLOG ORLANDO TAMBOSI
Aos pobres, seja pobreza de patrimônio ou de tempo de vida, resta a família, uma das instituições mais criticadas. Luiz Felipe Pondé para a Folha de São Paulo:
O que é mais importante? Dinheiro
ou amor? Carreira ou família? Questões como essas são conhecidas como
impasses morais ou as tais das "escolhas" que tanto se fala por aí. "A
vida é feita de escolhas."
Pacientes que sofrem com tratamentos de doenças graves
falam que descobrem o que é essencial na vida e creio neles. A
proximidade da morte possível nos faz entrar numa outra temporalidade,
e, com isso, ver as coisas sob uma nova luz, luz essa que apenas a
possível morte próxima nos daria.
Situações
assim abrem nossos olhos para o quanto perdemos tempo com ninharias do
tipo ganhar mais dinheiro, consumir, inventários, odiar os vizinhos,
fazer intrigas. Muitas coisas que nos parecem essenciais se dissolvem em
pó.
Mas,
quem nunca enfrentou um inventário na família, não tem o direito de
discursar sobre a beleza da natureza humana, compreendida como
comportamentos que se repetem há milênios dadas certas circunstâncias
—que inteligentinhos com títulos não me venham com o papo furado de que
"não existe natureza humana".
Por
exemplo, a família tem sido uma das instituições mais criticadas nas
últimas décadas pela inteligência pública, da academia a imprensa.
Autoritária, patriarcal, opressora. Sob palmas "progressistas",
atropela-se a família como desnecessária, a menos que tire carteirinha
de família inteligentinha. Restou universo como o evangélico conservador para valorizar a família.
Aos pobres resta a família, seja pobreza de patrimônio ou de tempo de vida.
A
verdade é que na vida cotidiana e real, tudo é mais ou menos. Nada é
preto ou branco. O cinza impera absoluto. E o cinza é uma cor
sabidamente discreta e pouco glamourosa.
Uma
das promessas da modernidade –e aqui ela é irmã das formas mágicas de
espiritualidade– é a de que a vida iria brilhar para sempre, a partir da
máquina a vapor, do telégrafo, e, agora, o gozo com o ChatGPT.
Este
tipo de expectativa é claramente infantil. Há algo de imaturo na
incapacidade de perceber que existem questões para as quais não há
solução. Tudo que podemos fazer é lidar com elas nas suas diferentes
manifestações ao longo da duração da própria vida e das contingências
que nos são apresentadas.
A
verdade é que sem dinheiro a vida sufoca. Come-se mal, a saúde degenera
mais rápido –o que não nega o absurdo do custo da medicina, suas máfias
e seus seguros saúde canalhas–, as perspectivas de autorrealização
diminuem.
Só
quem tem dinheiro para comprar tudo a venda é que pode dizer o que o
dinheiro não compra. E os pobres que afirmam coisas assim, o fazem por
autodefesa, ressentimento e tentativa de não perder a pouca dignidade
que resta a eles.
Mas,
o fato é que viver apenas pelo dinheiro pode mesmo destruir uma série
de outros vínculos na vida que nos são necessários e que o simples
abandono desses vínculos pode implicar em deformações existenciais e de
caráter.
O
mesmo tipo de ambivalência assola questões acerca da carreira
profissional, principalmente entre os mais jovens que são a bola da vez
do massacre capitalista. Os sintomas, rapidamente assimilados pelo
mercado da saúde mental, comprovam sua etiologia: altíssimas
expectativas de todos, pais inseguros, competição violenta.
Viver
programando a carreira é uma demanda do mercado de trabalho. Portanto,
dizer que você tem "uma escolha" aqui pode ser retórica típica da
psicologia positiva, que, na verdade, não passa de psicologia a serviço
do marketing da felicidade de consumo.
O
fato é que muitas vezes a vida não tem solução plena. Ou a resposta que
damos a ela é sempre carregada de efeitos colaterais indesejáveis.
Alguém
acha, por exemplo, que uma mulher que aborta um filho o faz feliz?
Alguém acha que uma mulher que não aborta um filho, quando queria
fazê-lo, não corre o risco de fazer os dois infelizes e se arrepender?
Claro, sei que existem pessoas no YouTube que discursam sobre o
arrependimento de ser mãe como forma de amor sincero –risadas? A mentira
hoje é um método científico.
A vida é um mais ou menos contínuo. Na família, no amor, no trabalho, na política.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

Nenhum comentário:
Postar um comentário