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Família e amigos não são importantes ou igualmente importantes para todos os membros da nossa espécie. Muitos de nós não têm amigos, ou são mercuriais com a família; e não são menos humanos por isso. Miguel Tamen para o Observador:
O
Filósofo observou que havia duas espécies de vida: a activa e a outra.
Consideremos a vida activa: existem muitos tipos. De facto, para
podermos ter uma vida activa basta-nos ser agentes, não no sentido
policial, mas num sentido mais lato. Um agente num sentido lato é um
animal capaz de realizar actividades. Nem todos os animais são capazes
disso, embora quase todos os animais humanos sejam. Sem dificuldade, os
agentes humanos içam porcos, pintam quadros, guiam camiões, ou dão
descomposturas.
Podem
porém fazer certas coisas com desembaraço reconhecido; e nessa altura
diremos que a sua vida activa é esplêndida. Uma vida activa esplêndida é
uma vida que consiste em actividades a que terceiros reconhecem mérito,
isto é, a que reconhecem um desembaraço particular. O reconhecimento do
mérito parece estar ligado à frequência das mesmas actividades. Quanto
mais tempo alguém passar a exercer as mesmas actividades de modo
desembaraçado maior será a probabilidade de as suas actividades serem
consideradas esplêndidas; e quanto menos activo alguém for menos
admiração as suas actividades tenderão a suscitar. Quase ninguém admira
um búzio; e quase todos uma formiga.
A
julgar pelas declarações públicas das pessoas com vidas activas mais
esplêndidas, as coisas que consideram mais importantes na sua vida, e a
que agradecem mais frequentemente, são a família e os amigos. Família e
amigos não são importantes ou igualmente importantes para todos os
membros da nossa espécie. Muitos de nós não têm amigos, ou são
mercuriais com a família; e não são menos humanos por isso, ou farão
menos parte da espécie. As pessoas com vidas activas mais esplêndidas
parecem porém estar particularmente gratas à família e aos amigos.
Os
cientistas e os admiradores têm-se interrogado sobre a razão. A
resposta mais frequente é que admiram coisas que contrastam com a
lufa-lufa do seu múnus. Passando o dia a causar efeitos por esse mundo
fora, não poderá deixar de saber bem gozar de vez em quando dos efeitos
benfazejos que a família e os amigos suscitam. Família e amigos não
parecem requerer nenhum esforço particular para que produzam efeitos:
temo-los ou sempre os tivemos, e sempre por perto.
Mas
esta explicação parece incompleta. Por um lado, a família e os amigos
também podem ser preferidos por pessoas cujas vidas são pouco
esplêndidas. Ora tal como não há razão para excluir da humanidade quem
não tenha amigos, assim não há razão para negar amigos a quem não seja
esplêndido. O que é peculiar nas vidas dos agentes esplêndidos, e que as
suas declarações tão bem mostram, é pelo contrário que tantas vezes
nelas tudo seja apenas actividade; que família e amigos sejam para elas
ocasiões para actividades. Gostam da família e dos amigos como aquilo de
que gostam mais, isto é, como novas ocasiões para fazer aquilo que
fazem melhor. Gostam deles como gostam de guiar um camião, pintar um
quadro, içar um porco ou dar uma descompostura.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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