BLOG ORLANDO TAMBOSI
Incursão de batalhão rebelde em território russo, com tanques e blindados, cria um novo e inesperado problema para o Kremlin. Vilma Gryzinski:
Tanques,
blindados, forças organizadas e dois dias de confrontos filmados por
drones, para não deixar dúvidas, na região de Belgorod, uma cidade de
340 mil habitantes a 40 quilômetros da fronteira com a Ucrânia. É de dar
pesadelos em Vladimir Putin e seus asseclas.
Pior
ainda quando se sabe quem são: integrantes de dois grupos, Corpo de
Voluntários Russos e Legião Liberdade para a Rússia, formações de
tamanho indeterminado — entre mil e 1,5 homens, calcula-se — que ocupam
um lugar especial, e complicado, no leque de voluntários estrangeiros
que combatem do lado ucraniano.
Alguns
ataques contra objetivos estratégicos já haviam sido feitos em
localidades russas ao alcance dos ucranianos, mas a operação lançada na
segunda-feira não tem precedentes. Segundo o mar de boatos nas redes, os
atacantes chegaram a tomar duas cidadezinhas e puseram fogo num prédio
do FSB, o serviço de espionagem de Putin. Criaram um problema tão grande
que toda a máquina de desinformação do governo foi mobilizada para, em
primeiro lugar, minimizar o incidente, e, em segundo, propagar que os
atacantes são ucranianos.
O ineditismo é tão surpreendente que foi feito até um meme do famoso vídeo em que, logo no início da invasão russa, Volodymyr Zelensky
aparece com os assessores mais próximos para provar que não haviam
fugido. “Todos estão aqui”, repete o presidente. Trolagem: ao fundo,
aparece o nome de Belgorod.
Os
sabotares “ucranianos” foram expulsos de volta para seu país, sofrendo
70 baixas, com cinco blindados destruídos, disse o Ministério da Defesa
em Moscou, numa daquelas declarações que provocam risadas, mesmo no meio
da tragédia de uma guerra.
“Durante
a operação antiterrorista, as formações nacionalistas foram bloqueadas e
derrotadas por ataques aéreos, fogo de artilharia e ações cinéticas de
unidades da Guarda Fronteiriça”, especifica o comunicado, indicando,
indiretamente, que foi uma operação de grande monta, embora pareça ter
sido concebida mais como instrumento de guerra psicológica. A retirada
dos moradores de pequenas cidades da região também foi um sinal de que a
operação teve repercussões maiores do que uma incursão quixotesca.
“Existe
pânico no distrito de Belgorod, uma evacuação em parte organizada, mas
também uma fuga espontânea”, afirmou a Legião de combatentes russos. Em
linguagem dramática, acrescentou: “A guerra vai continuar até que o
corpo enforcado de Putin enfeite as muralhas do Kremlin e o tribunal da
opinião pública condene sua gangue”.
É,
evidentemente, bazófia. Os rebeldes russos não têm capacidade de fazer
“guerra” a Moscou. Mas podem incomodar — além de humilhar —, desviando
recursos que normalmente seriam concentrados na ocupação dos territórios
ucranianos conquistados e na esperada contra-ofensiva com o arsenal de
armamentos sofisticados que a Ucrânia ganhou. São armas de respeito,
incluindo as baterias de mísseis de longo alcance HIMARS e Storm Shadow,
tanques Leopard 2 e Challenger 2, os futuros F16, fora a proteção a
Kiev fornecida por dois sistemas Patriot — tudo do bom e do melhor.
O
timing da operação indica uma coordenação com os comandos ucranianos ao
coincidir com o momento em que os russos comemoram a tomada de Bakhmut,
que vai até ser “reconvertida” para o nome russo, Artemovsk. Quem olha
para o mapa da Rússia, o maior país do mundo, com 17 milhões de
quilômetros quadrados — o dobro do Brasil —, pode se perguntar como um
grupo de mil combatentes pode afetar um gigante dessas dimensões.
Mas
a Rússia propriamente dita tem população, grandes cidades e principais
atividades concentradas para o lado do ocidente, mais vulnerável a
forças vindas da Ucrânia.
Como
depende dos Estados Unidos e dos aliados europeus para resistir à
invasão, a Ucrânia teve que assumir o compromisso de não usar em
território russo os armamentos fornecidos pela aliança ocidental, para
evitar que a guerra se transforme num confronto direto entre as maiores
potências nucleares do mundo.
A
atuação dos grupos rebeldes russos, formados por ex-militares e até
integrantes do FSB, permite à Ucrânia se eximir de envolvimento.
Obviamente, os rebeldes não poderiam dar um passo sem aprovação superior
e o fornecimento de material bélico de Kiev. É difícil também conceber
que tudo não faça parte de um plano maior da Ucrânia.
Qual
a efetividade do ataque? A Operação em Belgorod foi muito além do tudo
visto até agora, inclusive, provavelmente, o envio dos dois drones que
explodiram sobre a cúpula do Senado no complexo do Kremlin — outro ato
que foi minimizado por Moscou, num indício evidente de que não foi uma
operação de bandeira falsa.
Existem
ainda os dois misteriosos atentados a bomba que mataram Daria Dugina, a
filha do teórico do “mundo russo”, um conceito que justifica
intelectualmente o novo imperialismo, e do blogueiro militar Vladen
Tatarski.
Colocar
uma bomba num carro — provavelmente o alvo era Alexander Dugin, o pai —
ou dentro de uma estatueta entregue a Tatarski durante uma palestra num
bar de São Petersburgo não é uma tarefa fácil num estado policial
mobilizado para a guerra. Curiosamente, as autoridades russas, que
prenderam a mulher usada como mula para dar o “presente” ao blogueiro,
não falam mais nada sobre os dois atentados.
Os
voluntários russos que se organizaram na Ucrânia costumam reclamar que
são tratados com suspeita — por motivos óbvios, que lugar melhor para
infiltrar agentes duplos a serviço de Moscou?
Também
não são nada diplomáticos em matéria de linguagem. No ano passado, Ilia
Bogdanov, ex-agente do FSB que entrou para a resistência na Ucrânia,
abordou o maior terror russo, o da fragmentação do país em repúblicas
independentes, dizendo numa entrevista: “Não ligo a mínima se a Rússia
perder a integridade territorial”.
Qual será o próximo golpe?
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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