
Charge do Mariano (Charge Online)
José Casado
Veja
O governo está disfuncional. Cinco meses se passaram desde a irradiante festa da posse presidencial até às melancólicas reuniões desta terça-feira (30) na Câmara e no Itamaraty. Em vinte semanas, Lula não conseguiu avançar na reorganização governamental. Adiou-se a votação da Medida Provisória sobre a estrutura dos ministérios, cuja validade termina nesta quinta-feira, simplesmente porque não havia segurança sobre a aprovação.
Destino similar teve a ideia de ressurreição da União de Nações Sul-Americanas, que motivou a reunião de cúpula no Ministério das Relações Exteriores.
UNASUL SUBMERGE – Lula convocou o encontro, mas liquidou-o ao decidir reabilitar, com honras de Estado, o ditador venezuelano Nicolás Maduro. Resultado: não conseguiu apoio dos líderes de uma dezena de países convidados sequer para mencionar a Unasul no comunicado coletivo. Ficou para decisão futura, se houver acordo algum dia.
“Basta de instituições”, fulminou o presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, durante o encontro no Itamaraty, acrescentando: “Creio que devemos parar com essa tendência de criação de organizações. Vamos às ações, deixando de lado o caminho que tem se mostrado equivocado.”
Desde a campanha eleitoral, Lula definira a refundação da Unasul como prioridade na política externa para a região. Formatou-a no primeiro mandato (2003-2007) como bloco político de oposição aos Estados Unidos, principalmente em organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA).
DISPUTA POR LIDERANÇA – O viés antiamericano embalou ambições de competição pela liderança da América do Sul entre Lula, Hugo Chávez (Venezuela) e Néstor Kirchner (Argentina). A irmandade”, como Lula definiu ontem, se perdeu no próprio enredo: Chávez e Kirchner vislumbraram a chance histórica de mitigar o poder regional do Brasil — dono de metade do território, da população e do Produto Interno Bruto (PIB) sul-americano.
A Unasul pereceu na briga política. Seu legado foram dois prédios: um na Metade do Mundo, vilarejo na periferia de Quito, agora convertido em escola pública para indígenas equatorianos; outro na vila de San Benito, em Cochabamba, região central da Bolívia, abandonado em meio a denso matagal. Custaram quase cem milhões de dólares, equivalentes a R$ 500 milhões, a maior parte paga pelo Brasil.
Simbolizam o fracasso de uma arquitetura integracionista baseada na multiplicação de instâncias burocráticas da diplomacia, desenhadas como anteparo coletivo e permanente ao imperialismo ianque.
SEM CHANCE – Deu errado pelas incongruências dos governos Lula, Chávez e Kirchner. A ressurreição, aparentemente, ficou inviável. Lula ficou sem a matriz do seu projeto de liderança regional.
Semana passada, na reunião do G7 em Hiroshima, Japão, perdeu o rumo no jogo de poder dos EUA, China, Europa e Rússia, e continua sem ser reconhecido como mediador da paz na Ucrânia.
Resta a política ambiental, cuja vitrine mundial é a Amazônia. É seu melhor trunfo diplomático, mas como o governo está disfuncional, e sem entusiasmo com a agenda ambiental, o Ministério do Meio Ambiente acabou desidratado pela Câmara na votação da Medida Provisória sobre a reorganização do governo.
MAIS PROBLEMAS – As mudanças prevaleceram e o Senado coonestou, reduzindo poderes de Meio Ambiente e Povos Indígenas.
As derrotas legislativas se acumulam. O retrocesso na demarcação de terras indígenas é caso exemplar, vai ser decidido pelo Supremo Tribunal Federal.
Sem votos suficientes no Congresso, especialmente na Câmara, Lula está cada vez mais dependente da arbitragem do STF. É a antipolítica, observam alguns dos seus aliados.
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