BLOG ORLANDO TAMBOSI
Apenas dizer “liberdade” pode ser insuficiente, mas ninguém acredita que isso é ruim. Não à toa, o preço dela é a eterna vigilância. Lucas Berlanza para o Instituto Liberal:
Em
meio à Guerra de Secessão (1861-1865), o 13º presidente dos Estados
Unidos Abraham Lincoln discursou em Baltimore sobre a tragédia daquele
conflito. Mostrou que se tratava de um exemplo da dificuldade que é
definir o que é liberdade.
“As
Colônias do Norte dizem estar lutando pela liberdade, mas as Colônias
do Sul também alegam estar lutando pela liberdade”, afirmou. “Afinal,
qual liberdade? A verdade é que o mundo nunca teve uma boa definição
para a palavra liberdade”, esbravejou.
Ao usarmos a mesma palavra, não queremos dizer a mesma coisa.
Como
afirmou o jurista italiano Bruno Leoni, “liberdade é algo que está
simplesmente ali, e a única questão é encontrar as palavras corretas
para descrevê-la”. Mas não é algo simples, pois a liberdade não se
refere a um objeto, a uma coisa concreta.
As vantagens de definir palavras concretas
Linguisticamente,
algo concreto é bastante fácil de ser compreendido pelos ouvintes. Para
eliminar qualquer incerteza, basta apontar para a coisa a que estamos
dando nome ou definindo. Assim, duas palavras que se referem a uma mesma
coisa e que são usadas por nós e por nossos ouvintes teriam sua
equivalência comprovada.
É
essa forma de conversação que permite o diálogo entre pessoas de
línguas diferentes. Foi assim que os exploradores europeus conseguiram
se comunicar com nativos quando chegaram na América. É assim que uma
criança aos poucos compreende sua própria mãe.
Infelizmente,
as dificuldades são maiores quando tentamos definir coisas que não são
materiais e quando nossos ouvintes não sabem o significado da palavra
que estamos usando.
Nesse
caso, não podemos apontar um objeto material. Nossa forma de entender é
diferente, precisamos descobrir um fator comum de uma forma diferente.
Definindo palavras que se referem a coisas abstratas
Palavras
como Justiça, Direito, Democracia são problemáticas justamente por
isso. São termos que geralmente estão tão enraizados em um contexto
histórico definido que não podemos encontrar palavras correspondentes na
língua de outros contextos. Tudo isso se aplica também à palavra
liberdade: não é possível apontar algo material e dizer: isso é
liberdade.
Ela
tem diferentes significados de acordo com os contextos históricos em
que vem sendo usada, tanto na linguagem comum quanto em linguagens
técnicas de política e economia.
Nesse
sentido, a palavra liberdade parece “flutuar sem âncora”, com mudanças
semânticas introduzidas à vontade, por uma série de pessoas diferentes
em lugares diferentes. Filósofos que discordam dos significados já
aceitos nas linguagens comuns do ocidente criam novas definições, e tudo
fica ainda mais confuso.
A
definição de liberdade em Filosofia, Economia, Política, Moral e assim
por diante são diferentes, aumentando a quantidade e a gravidade das
confusões possíveis. Isso ocorre a ponto de alguns astutos tentarem
explorar as conotações favoráveis dessa palavra para persuadir outras
pessoas a mudarem suas respectivas formas de comportamento para
comportamentos novos e até mesmo opostos àqueles, isto é, discursos a
favor da liberdade para ações anti-liberdade.
Talvez
seja exatamente isso que tenha ocorrido para as Colônias do Sul
justificarem como um ato de liberdade escravizar indivíduos para os
coagir como mão de obra.
Liberdade é algo eminentemente positivo
A
conclusão é que definir liberdade não é fácil, mas virou consenso que
liberdade é um princípio básico dos bons sistemas políticos.
A
despeito de ser difícil definir liberdade, uma definição efetiva talvez
seja a de que se trata de uma palavra utilizada por indivíduos
comumente para significar experiências psicológicas com conotações
positivas. Afinal, ninguém usa a expressão “estou livre” no sentido de
que estão sem algo que consideram positivo. Por exemplo, ninguém diz
“estou livre de dinheiro” ou “estou livre de saúde”.
Apenas
dizer “liberdade” pode ser insuficiente, mas ninguém acredita que isso é
ruim. Não à toa, o preço dela é a eterna vigilância.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário