BLOG ORLANDO TAMBOSI
É o massacre dos inocentes, escreve Vilma Gryzinski:
Não
vejo esperança para o futuro de nosso povo se ele depender da juventude
frívola de hoje, pois com toda a certeza a juventude é tão
irresponsável que não há palavras para descrever. Quando eu era jovem,
aprendíamos a ser controlados e a respeitar os mais velhos, mas a
juventude atual é extremamente desrespeitosa e incapaz de se controlar.”
A advertência feita há 2 700 anos por Hesíodo, o poeta que sistematizou
a mitologia grega, inaugurou um hábito que se repetiu através dos
séculos: achar que os jovens estão perdidos. Literatura romântica,
histórias em quadrinhos, Coca-Cola, rock, funk, filmes da Disney,
marxismo, gramscismo, pós-modernismo, blusinhas cropped e,
naturalmente, drogas foram alguns dos elementos invocados em tempos mais
recentes como deturpadores das mentes juvenis, inventados pelo
imperialismo americano ou pelo comunismo internacional para escravizar
seres em formação.
O
fato de que tenha havido alguns exageros nesse percurso não elimina o
efeito deletério sobre crianças e adolescentes de uma novidade sem
precedentes na história humana: as redes sociais, onde todos se comparam
e são julgados, repelidos ou incentivados. O psicólogo social e
acadêmico americano Jon Haidt associa as redes a dois fenômenos
concomitantes: o aumento da depressão em meninas, mais sensíveis ao
julgamento dos grupos, e a disparada do que nos EUA é chamado de
liberalismo ou progressismo, traduzido em movimentos estudantis nos
ambientes universitários para proibir palestrantes, castigar
“desviacionistas” e implantar políticas de restrição à liberdade de
expressão. Em conjunto, esses fenômenos produziram três regras opostas
aos fundamentos para uma personalidade saudável: 1) o que não mata me
faz mais fraco; 2) sempre acredite nos seus sentimentos; 3) a vida é uma
batalha entre pessoas boas e pessoas más.
Essa
tríade incentiva a debilidade, não a força interior, o que suscita uma
pergunta perturbadora: estariam pais liberais criando meninas
psicologicamente mais fracas, ao se verem como vítimas do patriarcado e
de outros males? A produção em massa de jovens deprimidas foi retratada
numa pesquisa de 2020. À pergunta “Já ouviu de um profissional de saúde
que você sofre de algum problema na área da saúde mental?”, as respostas
na faixa dos 18 aos 29 anos foram espantosas: mais de 50% das jovens de
orientação liberal responderam que sim, contra pouco mais de 30% dos
homens. Moderados: quase 30% das jovens e menos de 20% dos rapazes.
Conservadores: 20% das mulheres e cerca de 15% dos homens. Quaisquer que
sejam as simpatias políticas, as mulheres são sempre mais expostas.
Outro
fenômeno: a quantidade de meninas que procuram ajuda médica dizendo que
são meninos trans é hoje, na Inglaterra, de 75%, contra 25% dos jovens
do sexo masculino. Uma inversão da proporção registrada há poucos anos.
Isso indica que fatores sociais estão pesando de maneira avassaladora
sobre meninas, muito mais expostas não só ao desejo de aprovação social
como ao próprio uso das redes — meninos tendem mais a ser abduzidos pelo
universo dos jogos. “A juventude é a coisa mais bela da vida. Que pena
desperdiçá-la com jovens”, provocava Bernard Shaw. E se, descontando a
ironia, estivermos realmente desperdiçando nossas jovens?
Publicado em VEJA de 22 de março de 2023, edição nº 2833
Postado há 6 days ago por Orlando Tambosi

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