Aos 86 anos, o diretor americano fala sobre a acusação de assédio que arrasou sua carreira, lamenta o boicote de Hollywood e revela desencanto com o cinema atual. Entrevista a Raquel Carneiro, para as Páginas Amarelas de Veja:
São
muitos os fantasmas que rondam Woody Allen. Hipocondríaco, o cineasta
de 86 anos ficou aterrorizado com a pandemia. Além das perdas humanas, a
Covid-19 agravou a situação dos cinemas, que já vinham perdendo espaço
para o streaming — o que também tira o sono do diretor. Essas
preocupações, claro, são ínfimas perto da avalanche advinda do movimento
#MeToo, que ressuscitou uma antiga acusação feita por sua ex-mulher Mia
Farrow, em 1992, de que o diretor teria abusado da filha adotiva do
casal, então com 7 anos. Na época, o cineasta estava se divorciando de
Mia, a quem acusa de plantar falsas memórias na criança. Julgado e
sentenciado pelo tribunal do cancelamento, Allen, um avesso a
entrevistas, notou que precisava falar. Lançou em 2020 um livro de
memórias no qual destrincha os pormenores das investigações — todas elas
descartaram a acusação. Mesmo assim, Hollywood optou por boicotar
Allen. Mas, resiliente, ele não parou de trabalhar. Acaba de chegar aos
cinemas seu 49º filme, O Festival do Amor, que celebra os grandes
mestres do cinema, mas não tem celebridades no elenco. A VEJA, por
telefone, Allen criticou o entretenimento atual, refletiu sobre a morte e
atacou a cultura do cancelamento.
O
Festival do Amor faz uma viagem pela história do cinema europeu, além
de alfinetar produções óbvias embaladas para o Oscar. Por que tal
crítica agora?
Eu
cresci assistindo a filmes de Hollywood. Adorava ir ao cinema e ver na
tela atores como Humphrey Bogart, por exemplo. Depois da II Guerra, eu
tinha uns 18 anos, as barreiras entre Estados Unidos e Europa diminuíram
e um novo mundo cultural se abriu com produções europeias chegando aos
cinemas americanos. De repente, as opções não eram apenas filmes de
mafiosos, faroestes ou musicais desmiolados: eram filmes que tratavam o
espectador como adulto, como alguém capaz de pensar.
Quer dizer que Hollywood faz o contrário, não leva o espectador a pensar sozinho?
Não
só Hollywood, mas o cinema de hoje. Sou um saudosista do cinema do
passado. Foi um período maravilhoso. Meus amigos e eu esperávamos
ansiosos pelo próximo filme francês, sueco, italiano que entraria em
cartaz. Hoje, os roteiros apostam em soluções falsas, reviravoltas
estúpidas e finais que não confrontam o espectador. Claro, ainda existem
os cineastas que podem ser chamados de artistas, mas eles estão
passando por um momento difícil.
Difícil em que sentido?
Filmes
são caros de fazer. Um cineasta não consegue realizar sua arte sozinho,
como um músico que compra um instrumento e começa a tocar por aí. Ou um
escritor que não precisa de muito dinheiro para escrever um livro —
apenas o suficiente para não morrer de fome, claro. Já o cinema demanda
uma estrutura, uma equipe, e milhões e milhões de dólares. Por isso, um
filme se tornou um produto. Se a estimativa de bilheteria não for alta o
suficiente, como é o caso dos filmes de arte, é difícil encontrar quem
queira investir no seu projeto.
Essas dificuldades não são tão antigas quanto o cinema de arte?
Não,
a lógica não era assim nos anos 1960 ou 1970, quando alguns milhões em
bilheteria eram suficientes para sustentar uma produção. Mas, quando a
indústria de Hollywood descobriu que era possível passar de 1 bilhão de
dólares em faturamento, isso mudou tudo. Afinal, por que gastar tempo e
dinheiro em uma produção para poucos espectadores, se é possível lucrar
alto com outros títulos?
A
indústria cinematográfica com bilheterias bilionárias é alimentada por
filmes de super-heróis. O senhor aceitaria dirigir um filme desse tipo?
Eu
não assisto a filmes de super-heróis. Por que dirigiria um? Não me
interessam. E, mesmo que eu quisesse dirigir um, faria um péssimo
trabalho. Não saberia nem por onde começar. Só sei fazer os meus filmes,
que são completamente outra coisa.
Entre as críticas aos longas de heróis está a infantilização do público. Concorda com essa visão pessimista?
Sim,
as tramas para adultos migraram do cinema para a televisão, ficando sob
a responsabilidade de séries e minisséries. Em Nova York, as salas que
exibem filmes de arte e estrangeiros estão fechando. Mais de 75% dos
cinemas da cidade fecharam. Antes, eu podia atravessar a rua e ser
transportado para a Itália, ou para o Brasil, através de um filme. Mas
isso hoje é difícil de encontrar, pois não são filmes rentáveis.
Nos
últimos anos, impulsionada pelo movimento #MeToo, voltou à tona a
suposta acusação de abuso de sua filha Dylan Farrow contra o senhor.
Mesmo se tratando de alegações descartadas por investigações, o senhor
caiu na malha fina do cancelamento. O que pensa desse momento?
A
cultura do cancelamento é estúpida e até risível. Um dia ela vai passar
e quem a alimentou vai olhar para trás e ficará envergonhado. Assim
como aconteceu com o macarthismo, movimento dos anos 1950 que acusava
pessoas de subversão e comunismo. Hoje nos envergonhamos ao olhar para o
passado sem entender como uma cultura perversa como aquela ganhou tanta
força e atingiu milhares de americanos. Um dia, muitas pessoas terão
vergonha de terem endossado a era do cancelamento.
Atores
famosos que trabalharam em seus filmes disseram estar arrependidos e
chegaram a doar seus cachês. Como avalia essa reação e o boicote a seu
nome que se instaurou em Hollywood após a acusação de abuso?
Penso
que eles estejam cometendo um erro. É difícil. Bem difícil. Não sei nem
como responder a essa pergunta. Mas acho que eles estão cometendo um
erro. Quando entrei em contato com alguns atores para atuarem em O
Festival do Amor e eles disseram que não queriam trabalhar comigo, eu
contratei outros artistas que toparam. E isso é tudo o que posso fazer
agora: dar continuidade ao meu trabalho. Existem diversos atores que
aderiram ao boicote, e muitos outros que ainda querem atuar nos meus
filmes e é com esses que vou ficar.
Com tantos dedos apontados para o senhor, chegou a pensar em parar de fazer filmes?
Venho
pensando em muitas coisas. Sei que posso continuar fazendo filmes, pois
existem ótimos profissionais como figurinistas, diretores de
fotografia, produtores e muitos atores talentosíssimos que não me
condenaram e não veem problema em trabalhar ao meu lado. Mas não sei
quantos filmes mais ainda vou fazer. Meu próximo filme será o
quinquagésimo. É um número bastante alto. Será que cinquenta são
suficientes? Quem sabe?
Para
alguém que há cinco décadas faz um filme por ano é difícil imaginar que
o senhor queira eventualmente se aposentar. Pensa nisso após completar
estes cinquenta filmes no currículo?
Sempre
achei que faria filmes enquanto eu vivesse, mas vai saber.
Especialmente nesse momento em que o tipo de filme que faço fica apenas
três semanas em cartaz para, em seguida, ir para o streaming. Ou pior: é
lançado na TV e no cinema ao mesmo tempo. Não, eu não quero isso.
Por quê?
Sou
do tempo em que um filme não era sufocado pelos arrasa-quarteirões e
ficava em cartaz nos cinemas por tempo suficiente para crescer no boca a
boca e atrair a atenção das pessoas. Isso demora, pois são filmes com
verbas pequenas, que não gastam milhões em marketing. É um público que
vai ao cinema porque quer, é intencional, não é uma escolha aleatória na
TV.
Mas o senhor é um diretor renomado, uma grife que atrai a atenção. Acha que seu público diminuiu?
O
que mudou foi a lógica do mercado. Não importa se você é o Steven
Spielberg, ou o Martin Scorsese, ou o Woody Allen. Tudo agora vai direto
para o streaming. Quando comecei, não era esse o acordo, não era esse o
plano. Ficar em casa de pijama, com a família, alguns amigos e ligar a
TV é legal, mas esse é outro tipo de experiência. No cinema, você sai de
casa, se arruma, entra numa sala com desconhecidos e compartilha
emoções, se surpreende, fica até o final. Não pega o controle e
interrompe o filme do nada porque, enfim, quer ir ao banheiro ou fazer
pipoca. Você organiza sua agenda para se adequar à ida ao cinema, e não o
contrário. Eu entendo, ver um filme em plataformas de streaming é mais
cômodo e mais barato. Mas, desse jeito, será o fim do cinema como o
conhecemos. Então não tenho certeza se quero continuar trabalhando nesse
esquema.
Se parar de dirigir filmes, o senhor pensa em fazer o quê?
Talvez
eu queira, em algum momento, migrar para o teatro. Posso usar minhas
habilidades para fazer uma peça ou, quem sabe, escrever livros. Se bem
que as pessoas mal leem livros atualmente também. Até os livros estão em
extinção, as pessoas agora querem ouvir livros. Dá para acreditar?
Duvido que haja algo mais irritante do que ouvir um audiobook em vez de
ler um livro de verdade. Por essas e outras razões, é mais provável que
eu faça algo para o teatro, onde ainda é possível reunir uma plateia com
centenas de pessoas para assistir à mesma história, ao mesmo tempo. É o
tipo de experiência que me interessa, que me atrai.
Um
dos pontos altos de O Festival do Amor é uma sátira da famosa cena de O
Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, em que o protagonista joga xadrez com a
Morte. No seu filme, a entidade de preto aconselha o homem a se cuidar
mais, comer melhor e a parar de fumar, para adiar aquele encontro no
futuro. Seu pavor em relação à morte é bem conhecido. Como está sua
visão sobre o tema?
Não
mudou muito, para dizer a verdade. Obviamente, conforme a gente
envelhece, em especial durante uma pandemia, a morte se torna mais
presente na mente de todos. Só nos Estados Unidos, a Covid-19 matou
quase 1 milhão de pessoas. Mas cada um tem sua perspectiva sobre como
lidar com a morte. E achamos que é possível ser racional e intelectual
sobre esse assunto.
Por que o senhor vê essas inquietações com ceticismo?
Uma
pessoa, por exemplo, pode pensar: morrer vai terminar com os problemas
da vida, me dará tranquilidade. Outras vão dizer: vou sentir tanta falta
deste mundo, das coisas boas da vida, não quero morrer. Há também os
que tecem discursos religiosos para falar sobre o fim da vida e o começo
de outra. Mas tudo isso não passa da nossa divagação intelectual. O ser
humano é biologicamente programado para resistir à morte. Podemos
tagarelar quanto for sobre o assunto, mas reagir e manter a espécie viva
está no nosso DNA. Então meu falatório, no fim das contas, não serve de
nada. Se alguém chega a um lugar com uma arma, você imediatamente tenta
se proteger, quer reagir ou fugir. É natural resistir à morte, e eu
continuo a fazer isso.
Publicado em VEJA de 12 de janeiro de 2022, edição nº 2771
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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