Ter a superioridade bélica faz perder a simpatia da opinião pública. Vilma Gryzinski, na edição impressa de Veja:
Toda
vez é a mesma coisa: imagens de civis feridos chegando a hospitais,
famílias arrastando suas poucas posses diante de casas e prédios
completamente destruídos, pais arrasados pela perda de filhos. Como não
se solidarizar com a dor dessas pessoas? É impossível, obviamente. Por
causa dessas cenas, Israel entra em qualquer conflito em Gaza já
perdendo a batalha da opinião pública, por mais proezas bélicas que
alcance num campo de combate quase insustentável: cidades de alta
densidade populacional. As disparidades no número de vítimas também são
invocadas para acusar Israel de reação desproporcional. Algumas
considerações ajudam a entender os fatos:
–
Israel move céus e terra para defender sua população. Tem abrigos
antiaéreos que atendem boa parte dos habitantes e desenvolveu o Domo de
Ferro, o sistema de mísseis, originalmente considerado impossível, que
consegue interceptar até 90% dos foguetes lançados a partir de Gaza
pelas duas organizações que operam no território, o Hamas e a Jihad
Islâmica Palestina.
–
Os dois grupos fazem exatamente o contrário. Construíram extensos
sistemas de túneis por toda a Faixa de Gaza, chamados pelos militares
israelenses de “metrô”, mas nenhum civil tem acesso a eles. A rede
subterrânea é usada apenas pelos militantes armados para se proteger e
desfechar ataques em caso de invasão por terra. Boa parte dela foi
destruída nas últimas semanas.
–
Comandos operacionais, depósitos de armas e baterias de foguetes, que
entram em Gaza procedentes do Irã através dos túneis na fronteira com o
Egito, são instalados deliberadamente ao lado, debaixo ou até dentro de
casas, prédios, escolas, mesquitas e hospitais.
–
Como atingir um inimigo protegido por várias camadas de escudos
humanos? O método desenvolvido por Israel consiste em avisar antes que
vai bombardear um determinado prédio. Avisar literalmente: desde o
conflito anterior, em 2014, a inteligência militar de Israel levantou
650 000 números de telefone de moradores de Gaza, com as respectivas
localizações. Um telefonema em árabe dá o ultimato. Um método
complementar é disparar um míssil de baixo poder explosivo no topo dos
prédios, como uma espécie de precursor do que está por vir.
–
É horrível? Sem dúvida. E nem sempre é dado o aviso. “Guerra é
crueldade; não tem como mudar isso. Quanto mais cruel, mais cedo acaba”,
resumiu notoriamente o general William Tecumseh Sherman, que massacrou o
sul americano durante a Guerra Civil.
–
A legitimidade dos alvos tem de ser aprovada pelos advogados das Forças
Armadas israelenses. Isso, evidentemente, não impede erros, mas
minimiza o número de vítimas civis.
–
Nada disso aconteceria se Hamas e Jihad não tomassem a iniciativa de
jogar foguetes dirigidos deliberadamente contra alvos civis. Gaza, uma
pequena e estreita faixa de terra de 40 quilômetros de comprimento,
conquistada por Israel na guerra defensiva de 1967, foi entregue aos
palestinos em 2005. Tornou-se o pior exemplo, para os israelenses, do
que acontece quando abrem mão do controle de territórios que deveriam
constituir um futuro Estado palestino, tão justo e necessário. E,
infelizmente, tão longe da realidade.
Publicado em VEJA de 26 de maio de 2021, edição nº 2739
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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