Não podemos deixar os inimigos da democracia e os seus idiotas úteis manipular os termos da discussão, como nos casos dos ataques a Israel e da invasão de Ceuta. Rui Ramos para o Observador:
A
melhor maneira de ganhar as discussões não é ter bons argumentos, mas é
definir os termos da discussão de maneira que, por melhores que sejam
os argumentos da parte contrária, ela nunca possa ganhar. É isso que
fazem os inimigos das democracias ocidentais, que, logicamente, são
também os inimigos do Estado de Israel, a única democracia no Médio
Oriente. Por isso, antes de discutirmos os casos de Gaza ou de Ceuta,
convém começar por contestar o modo como os inimigos da democracia e os
seus idiotas úteis colocam as questões.
Sobre
Gaza: não, o conflito não é entre Israel e os chamados “palestinianos”,
mas entre Israel e a organização terrorista Hamas, que usa a população
da Faixa de Gaza como escudo humano nos seus ataques contra Israel. Sim,
os habitantes judeus e árabes da Palestina têm direito a Estados
separados e independentes, conforme a Resolução 181 da ONU, só que não é
isso que o Hamas pretende, mas a destruição do Estado judeu. É por
isso, aliás, que tendo potências inimigas de Israel ocupado o território
correspondente ao Estado árabe entre 1948 e 1967, jamais fizeram
qualquer diligência para estabelecer esse Estado: o que lhes importava
era — e é — a erradicação de Israel, e não a autonomia dos árabes.
Sobre
Ceuta: não, o que está em causa não é a política de imigração ou de
asilo da Comunidade Europeia, mas o recurso a massas de migrantes pelo
Reino de Marrocos como meio de demolir as fronteiras espanholas. Sim,
talvez a UE precise de discutir as suas políticas de asilo e de
imigração. Só que não é obviamente isso que move o Reino de Marrocos ao
despejar migrantes em Ceuta, mas punir a Espanha por ter acolhido um dos
líderes da resistência contra a ocupação marroquina da antiga colónia espanhola do Sahara (o Sahara espanhol) — um caso que faz lembrar o de Timor-Leste, e é da mesma época.
É
tudo isto que a utilização das populações como arma confunde. Israel
tem direito a existir e portanto a defender-se. Mas o Hamas, ao forçar
os habitantes de Gaza a servir de protecção às suas bases, tenta
garantir que, se quiser defender-se, Israel terá de fazer baixas civis, e
parecer cruel. Os Estados europeus têm direito a fronteiras
internacionalmente respeitadas. Mas ao organizar invasões de crianças, o
Reino de Marrocos procura obrigar a Espanha, para defender as suas
fronteiras, a reprimir menores, e a parecer desumana.
Numa
semana, compreendemos o que espera as democracias ocidentais. Não vai
ser fácil. O Ocidente está, no Médio Oriente e no Norte de África,
confrontado com movimentos e regimes que usam literalmente a população
como carne para canhão. A maior dificuldade em lidar com esses
movimentos e esses regimes está na sua ideia de que têm a demografia, e
também a psicologia do seu lado. A demografia têm certamente.
Em 1960, a Europa Ocidental tinha 152 milhões de habitantes, e o Médio
Oriente e o Norte de África, 80 milhões. Hoje a Europa Ocidental tem 196
milhões, e o Médio Oriente e o Norte de África, 470 milhões. Esta
inversão da relação de forças demográficas é um dos grandes temas dos
movimentos e dos regimes do outro lado do Mediterrâneo. É essa suposta
vantagem populacional que os anima na sua recusa da paz e da democracia.
Estão certos de que um dia, com o crescimento da população árabe e
muçulmana em Israel e, através da imigração, na Europa Ocidental, irão
subverter e dominar o Ocidente.
Não
é, porém, a única vantagem que julgam ter sobre os ocidentais. Segundo
eles, o Ocidente dispõe sem dúvida de superioridade tecnológica. Mas
estaria tolhido no uso desse poder. Primeiro, pelo culto pós-religioso
da vida humana individual, que teria tornado o Ocidente incapaz de
suportar a morte e o sofrimento, tanto dos seus como dos outros;
segundo, pelo sistema democrático, que não só o sujeitaria a discussões
inconclusivas, mas à propaganda dos seus inimigos. Movimentos e regimes
sem escrúpulos em provocar morte e sofrimento, tanto entre o inimigo
como entre as populações que dominam, poderiam assim compensar a sua
inferioridade tecnológica. Bastar-lhes-ia confrontar as democracias
ocidentais com opções que coloquem em causa os seus valores
humanitários, e esperar que os decorrentes debates, ajudados pela
propaganda anti-ocidental, paralisem qualquer vontade de defesa. Por
isso, o Hamas submete a população de Gaza à guerra, e Marrocos expõe
crianças ao risco de afogamento.
A
Ocidente, nunca as águas terão estado tão turvas. A extrema-esquerda
acedeu nos últimos anos à área do poder em vários países. Nas
universidades e na imprensa, tornou-se aceitável equiparar o único
Estado de direito democrático do Médio Oriente à Alemanha nazi, ou
interpretar a integridade das fronteiras dos Estados democráticos
ocidentais como indiferença pela humanidade. A questão das fronteiras é
uma boa introdução ao caos actual. Sim, o Ocidente tem muito a ganhar
com a imigração. Mas imigração não é o que vimos em Ceuta. Não é
possível ter sociedades bem ordenadas se estiverem sujeitas a influxos
populacionais súbitos e desordenados, como o território espanhol, que
num dia foi submetido a uma massa invasora equivalente a 10% da sua
população. A multiplicação deste tipo de acontecimentos só poderia
resultar no colapso do Estado e dos serviços públicos e no aumento da
ilegalidade, da insegurança e da miséria, sem benefícios para quem está
nem para quem chega. Os governos ocidentais sabem isso. Mas não têm
coragem para protagonizar esse lado do debate em público. Um dos efeitos
desta cobardia foi a sub-contratação da defesa de fronteiras a regimes
como o da Turquia e de Marrocos, encarregados de reter os migrantes do
outro lado do Mediterrâneo. Como seria de esperar, esses regimes já
perceberam o poder de chantagem que lhes foi dado. Agora, sabem que
podem abrir e fechar a torneira das migrações para obterem o que querem
da União Europeia.
Entre
os bem pensantes do Ocidente, é hoje de bom tom ter muito medo da China
ou da Rússia. As democracias ocidentais não deveriam, porém, subestimar
a ameaça destes movimentos e regimes do Mediterrâneo. Sobretudo,
convém-lhes não deixar que esses movimentos e regimes consigam
transformar em fraquezas aquilo que são aquisições civilizacionais
importantes para toda a humanidade, como o humanitarismo e a democracia.
É preciso que esses valores continuem a ser uma força.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário