O perigo das ideias e utopias que pretendem reinventar o mundo em plena pandemia. Por Selma Santa Cruz, na revista Oeste desta semana:
Alguém
perguntou a Manuela D’Ávila, candidata comunista à prefeitura de Porto
Alegre, que tipo de comunismo ela defende, o de Cuba ou o da China. Como
fazia quando participou da chapa do Partido dos Trabalhadores na última
eleição presidencial, ela preferiu devanear na resposta: “Nenhum dos
dois, o modelo é aquele que a gente vai construir no Brasil”. Mais de 30
anos após o desmoronamento fragoroso dos regimes comunistas, a proposta
de substituir o sistema sob o qual vivem bilhões de pessoas por um
modelo que jamais deu certo em parte alguma pode parecer apenas um
desatino, típico de nosso atraso político. Mas ele reflete o caráter
utópico por trás do crescente e perigoso movimento contra o capitalismo,
que vinha ganhando força desde a crise financeira de 2008 e a covid-19
impulsionou.
Diante
do desastre causado pelo lockdown prolongado — desaparecimento de meio
bilhão de empregos, perspectiva de encolhimento de 5% do PIB global e
perda de US$ 11 trilhões de produção no ano que vem, com as
consequências humanas e sociais que isso implica —, governos e
organismos internacionais têm se empenhado em tentar religar os motores
da economia. Busca-se ainda, como assinalou dias atrás a
diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina
Georgieva, ir além das medidas emergenciais para implementar reformas
que permitam não apenas resgatar os inéditos níveis de prosperidade
anteriores à pandemia, mas corrigir disfunções do modelo para adequá-lo
às demandas do século 21.
Esse
será o objetivo, por sinal, da conferência internacional que o FMI vai
convocar, nos moldes da de Bretton Woods, que articulou em 1946 a
reconstrução do mundo devastado pela 2ª Guerra e a depressão dos anos
1930. Justamente neste momento de calamidade, contudo, quando a pobreza
volta a aumentar no planeta pela primeira vez em uma década, iniciativas
de reformas como essa são contestadas por uma avalanche de propostas no
sentido inverso. Para um número crescente de “progressistas”, não se
trata de consertar o sistema, mas de substituí-lo. Embora a maioria não
se dê ao trabalho de esclarecer como essa ruptura poderia ser conduzida,
em plena pandemia, sem agravar a miséria ou causar tumultos sociais.
Os
questionamentos não partem, no entanto, como se poderia supor, só dos
órfãos do marximo-leninismo, que proliferam nos meios artísticos,
acadêmicos e intelectuais. Nem de seus pares que tentam derrubar o
sistema na base da violência, como os autodenominados antifascistas, os
Antifa. A maioria dos quais, a propósito, já nem se apresenta como
comunista nos países avançados, onde o próprio vocábulo saiu de voga
após a queda do Muro de Berlim. Tanto que os partidos que por lá ainda
insistem em ideologias caducas têm optado por nomes menos assustadores —
caso do La France Insoumise, A França Insubmissa, ou do italiano Cinque
Stelle, Cinco Estrelas. E disfarçam seu caráter revolucionário sob
bandeiras políticas de apelo universal, como a defesa do meio ambiente, o
combate ao racismo ou às injustiças.
As
investidas contra o capitalismo se multiplicam nas mais variadas
frentes. Um exemplo é a recente encíclica do papa Francisco que atribui a
maioria das mazelas do mundo ao que ele qualifica como “teorias
mágicas” do neoliberalismo. “O mercado, por si só, não resolve tudo,
embora às vezes nos queiram fazer crer nesse dogma de fé”, pontificou
Sua Santidade, como se elucubrasse sobre cânones eclesiásticos. As
críticas se disseminam, inclusive, entre expoentes do pensamento
econômico, como os prêmios Nobel de Economia Joseph Stiglitz e Paul
Krugman, num espectro diversificado, que acomoda diferentes graus de
radicalismo e opiniões para todos os gostos.
Há
ideias extravagantes, como a chamada “teoria do donut”, que pretende
substituir o capitalismo por um novo modelo moldado à imagem de uma
rosquinha. E propostas francamente delirantes, como a do No Growth
Movement, que defende a interrupção do crescimento econômico para poupar
os recursos naturais — tese que pode soar glamourosa para as elites dos
países ricos, habituadas a uma oferta incomensurável de bens e serviços
de primeira, mas despreza as necessidades de bilhões de pessoas ainda
excluídas da economia de mercado. E dos 90 milhões que a crise está
empurrando de volta à miséria da qual haviam escapado.
O
debate, no entanto, inclui também posicionamentos qualificados de
instituições e economistas respeitáveis, para os quais o capitalismo
precisa de reformas para sobreviver. Esse foi o mote, por exemplo, de
uma campanha lançada no fim do ano passado pelo jornal britânico
Financial Times, espécie de bíblia do jornalismo econômico liberal:
Capitalism Reset (Capitalismo, Hora do Recomeço). “O modelo capitalista
liberal proporcionou paz, prosperidade e progresso tecnológico nos
últimos 50 anos, reduzindo dramaticamente a pobreza e elevando os
padrões de vida ao redor do mundo”, pontuou o editor à época, Lionel
Barber, ao justificar a iniciativa. “Mas às vezes é necessário reformar
para preservar. Hoje, o mundo chegou a esse momento.”
Uma
perspectiva semelhante norteou, em janeiro último, a reunião do Fórum
Econômico Mundial, em Davos. E nesta semana a prestigiosa MIT Technology
Review, revista do Massachusetts Institute of Technology, o MIT —
insuspeito berço de inovação capitalista —, foi na mesma direção com uma
edição intitulada “Capitalism is in crisis; we need to rethink economic
growth” (O capitalismo está em crise, precisamos repensar o crescimento
econômico).
O
que estaria transformando o capitalismo em vilão número 1 do mundo em
meio à pandemia? Uma explicação possível é que surtos de peste não
favorecem a racionalidade. O pânico coletivo e o caos que propagam
sempre criaram, ao longo da história, ambiente propício para profecias
apocalípticas e utopias messiânicas. Mas as críticas têm raízes mais
antigas, na crise financeira de 2008. Os protestos contra a recessão
global que se seguiu, simbolizados pelo Occupy Wall Street, foram o
embrião de muitos dos movimentos antissistema que proliferaram desde
então pelo planeta.
Para
os adversários do capitalismo, o colapso de 2008 expôs disfunções do
sistema, que a pandemia teria agora exacerbado. Entre essas alegadas
distorções, eles destacam o incentivo à maximização imediatista dos
lucros dos mercados financeiros e de acionistas de grandes corporações.
Nessa ótica, a chamada “financeirização da economia”, aliada à falta de
visão de longo prazo e de consideração pelos interesses da sociedade
como um todo, estaria comprometendo a capacidade do sistema de continuar
gerando riquezas, inovação e desenvolvimento.
Esse
seria o caso, sobretudo, das economias maduras e estagnadas da Europa,
incapazes de gerar empregos em quantidade suficiente para as novas
gerações, o que resulta em descontentamento social e radicalismos
políticos. Embora discutíveis, já que ignoram a forte regulamentação dos
mercados e seu controle cada vez maior pelo Estado, tais argumentos vêm
ganhando respaldo até mesmo entre capitalistas bilionários. “Como
capitalista, posso dizer que o capitalismo está falido”, exagera, por
exemplo, do alto de sua fortuna de US$ 17 bilhões, o megainvestidor Ray
Dalio, dono de um dos maiores fundos de investimento do mundo, o
Bridgewater Associates. “Ou ele se transforma ou morre.”
Como
a morte do capitalismo já foi anunciada prematuramente uma infinidade
de vezes, no entanto, sem que ainda se tenha confirmado, parece fazer
mais sentido o ponto de vista dos que acreditam que o sistema passa
apenas por mais uma de suas frequentes mutações. E mostrará uma vez mais
sua capacidade de adaptação, como tem ocorrido ao longo dos séculos.
Essa versatilidade, afinal, é reconhecidamente uma das forças
incontestes da economia de livre iniciativa, que a fez disseminar-se de
forma quase hegemônica pelo mundo, a despeito de suas contradições e da
rejeição que inspira em certas elites intelectuais. Haja vista ter sido
adotada até mesmo pela China comunista.
Nesse
sentido, enquanto muitos apontam a crise de 2008 como prova das
deficiências do capitalismo, outros destacam a recuperação econômica que
lhe sucedeu como evidência de sua resiliência. Mais um ponto a favor da
economia de mercado é a superioridade de seu desempenho quando
comparado ao do dirigismo estatal marxista ou populista. A esse
respeito, um meme que circula nas redes talvez valha mais do que mil
palavras, ao mostrar o contraste entre a vitalidade da Coreia
capitalista em relação a sua vizinha comunista numa imagem noturna,
vista do espaço. De um lado, um mar de luzes, do outro, apenas trevas.
Uma
das dificuldades do debate é que, ao simplificarem exageradamente o
diagnóstico dos problemas, os antolhos ideológicos e os idealismos
pueris prejudicam o encaminhamento de soluções realistas. As propostas
de economistas mais pragmáticos, que enxergam oportunidades concretas
para uma nova expansão capitalista na transição da economia fordista
para a digital e sustentável, atraem de fato pouca atenção na competição
com as concepções mirabolantes. Como a tal “teoria do donut”, que dá
título ao livro da economista britânica Kate Raworth, lançado com certo
estardalhaço no Brasil no ano passado: Economia Donut: uma Alternativa
ao Crescimento a Qualquer Custo.
Segundo
Raworth, o consenso liberal calçado em leis como a da oferta e da
procura, e em uma crença supostamente equivocada sobre a natureza
egoísta do ser humano, teria criado um modelo econômico que perdeu a
noção do bem comum. A alternativa, como se fosse possível abolir um ou
outro, seria um novo sistema moldado segundo a aparência de um donut —
analogia que ela descreve como “um compasso para o progresso humano”.
“Parece
uma rosquinha, e a parte de dentro é onde as pessoas caem quando ficam
sem casa, dinheiro, água e alimentação. Não queremos que ninguém fique
ali.” Já os contornos externos do donut corresponderiam aos limites
ambientais, como tentou explicar durante sua passagem pelo país para
divulgar a obra. “O objetivo é que todos fiquem dentro do donut, mas sem
aumentar demais a pressão no sistema de vida do planeta.” Pode parecer
bizarro, mas a ideia foi adotada recentemente de forma experimental,
para tentar amenizar os efeitos da pandemia, pela prefeitura de Amsterdã
— uma das cidades-símbolo do capitalismo por seu papel na globalização
mercantil do século 17.
Nada
contra utopias. Como reza o ditado, imaginar o futuro é parte do
esforço para construí-lo. Mas projetos de engenharia social são
perigosos, costumam cobrar um alto preço humano sem garantia de
resultados. Como já foi exaustivamente provado pelos experimentos
marxistas na extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, o
do socialismo bolivariano na Venezuela, as repetidas tentativas em
Cuba, na Nicarágua e em várias ex-colônias europeias no continente
africano, como o Zimbábue.
Pois
sistemas econômicos são construções complexas, fruto da
auto-organização humana, não de teorias abstratas concebidas por mentes
iluminadas. “Por isso, mesmo um grupo inteligente de pessoas cometerá
erros enormes se tentar criar algo totalmente diferente”, ponderou
recentemente o economista norte-americano Noah Smith em artigo no site
da Bloomberg, no qual advertiu também que a implementação de mudanças
sociais radicais nunca é fácil. “As revoluções tendem a ser violentas e
caóticas, e os indivíduos que acabam no poder são geralmente os que mais
se preocupam em preservar sua dominação, em vez de garantir o bem-estar
material das pessoas que governam.”
Uma sábia advertência contra os radicalismos do momento atual e o perigo das ideias decrépitas que se recusam a morrer.
BLG ORLANDO TAMBOSI


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