Ninguém se transforma num demônio apenas porque leu um livro ou porque estabeleceu um pacto satânico com uma corrente política. Bruno Garschagen, via Oeste:
Lembro
ainda hoje do meu espanto ao ouvir o professor João Carlos Espada, numa
das primeiras aulas do mestrado em Ciência Política no Instituto de
Estudos da Universidade Católica Portuguesa, citar o seguinte trecho de
um texto de Anthony Quinton, no The Oxford Illustrated History of
Western Philosophy (Oxford University Press, 1994): “A importação das
ideias de John Locke teve na França efeito similar ao do álcool num
estômago vazio”.
Como
é possível que as ideias de um mesmo autor possam ter fundamentado dois
eventos históricos tão profundamente distintos quanto a revolução
inglesa e a revolução francesa?
E
aqui temos elementos que ajudam a explicar comportamentos similares em
eventos históricos decisivos: raciocínio moral, cultura política e a
experiência do indivíduo na sociedade num dado momento. Numa situação de
normalidade, uma sociedade civilizada não permitiria os horrores da
revolução francesa, da revolução russa, do nazismo alemão. Rupturas
políticas têm ideologias como pano de fundo, mas outras razões como
origem.
Reduzir
escolhas e atos individuais a posições políticas atrapalha a
compreensão adequada dos fenômenos políticos. Essa visão limitada a
respeito do problema leva a uma falsa impressão de que as ideias são a
origem e não uma das causas de atos abomináveis, como, para usar um
exemplo recente, o incêndio criminoso de duas igrejas no Chile, no
domingo passado.
O
que a experiência concreta e estudos de comportamento político e
psicologia moral revelam é que ideologias são, muitas vezes, o
combustível ou a justificativa para tais atos, não sua causa. Mesmo
jovens revolucionários que nunca leram uma linha de seus ídolos
políticos foram seduzidos por uma percepção do que seria o núcleo
ideológico ao qual se alinharam.
Muitos
indivíduos se tornam militantes pela indignação diante de algum
problema social grave (pobreza) ou de violência contra pessoas de um
dado grupo (mulheres, homossexuais etc.). E é a intuição moral, termo
utilizado pelo psicólogo Jonathan Haidt no livro The Righteous Mind: Why
Good People Are Divided by Politics and Religion (Vintage Books, 2013),
que vai aproximá-los de correntes políticas de esquerda, de centro, de
direita.
Outros
indivíduos podem se tornar cruéis em razão de terríveis experiências de
vida. Sua revolta, ressentimento, violência acabam sendo extravasados
por meio da atuação política.
Como
mostra Haidt em seu livro, só ideias não transformam um cidadão
pacífico num jacobino, num bolchevique, num revolucionário que usa a
violência como método político. É algo que esse indivíduo tem
interiormente junto com a realidade que o cerca o que permite o
compromisso ideológico e sua ação política.
Ninguém
se transforma num demônio apenas porque leu um livro ou porque
estabeleceu um pacto satânico com uma ideologia política. O demônio que
essa pessoa traz dentro de si é, às vezes, despertado pelo envolvimento
com o grupo político com o qual se identifica e pelo qual foi acolhido.
Esse sentido de pertencimento, de identidade tribal, de abrigo social, é
elemento poderoso no direcionamento de comportamentos. As ideias
políticas entram com a função de explicar e legitimar atos dentro de um
esquema teórico aparentemente perfeito que enquadra a realidade à
ideologia.
Na
maioria dos casos, o compromisso ideológico nasce de características
individuais e dos sentimentos — não de uma opção exclusivamente
racional. Adolf Hitler não se revelou um monstro em razão de seu
antissemitismo. Fosse assim, todos os antissemitas na Europa teriam
feito algo similar em diferentes países do continente.
É
por isso que, quanto mais profundo o vínculo, mais difícil é o
rompimento e ele não se dá por vias teóricas, mas por algum tipo de
trauma, de desilusão, como conta Paul Hollander no livro O Fim do
Compromisso: Intelectuais, Revolucionários e Moralidade Política
(Colares: Editora Pedra da Lua, 2008).
Hollander
mostra que, nos países comunistas, os defensores fervorosos do regime
tinham uma “capacidade elástica de tolerar ou recusar determinadas ações
políticas ou transgressões morais” e que essa tolerância era
determinada por aquilo que servia ou não ao partido e ao projeto de
poder.
Esse tipo de crente político, segundo Hollander, acredita fervorosamente que:
1) suas convicções e compromissos merecem todo o apoio e dedicação;
2)
os fins pretendidos são realizáveis e os meios usados em sua procura,
quaisquer que sejam, são aceitáveis e moralmente perfeitos;
3) sua postura tem sempre de ser a de proteger o objetivo final contra quaisquer eventuais ameaças e ataques.
A
mudança individual que permite o rompimento com a ideologia está
relacionada, de acordo com o autor, à “capacidade variável de tolerar ou
recusar determinadas ações políticas ou transgressões morais”. A
relação entre crenças políticas, suas finalidades e os critérios morais
individuais é configurada ou estabelecida pelo limiar moral. Se isso não
é modificado, o vínculo se mantém.
Nos
países comunistas, as fontes e a natureza da desilusão com os regimes
só acontecem “quando os crentes [políticos] concluem que as suas crenças
e compromissos já não merecem o seu apoio e dedicação, que os fins
pretendidos são irrealizáveis e os meios usados na sua procura são
inaceitáveis e moralmente imperfeitos”. Válidos também para países não
comunistas, os exemplos apresentados por Hollander mostram que o fim do
compromisso só foi possível depois de uma dolorosa, hesitante e gradual
experiência de desilusão política.
Ideologias
revolucionárias devem ser expostas, explicadas, criticadas,
desmascaradas, rejeitadas, mas só esse trabalho não provocará mudanças
naqueles que já estabeleceram o vínculo político. Talvez a forma mais
eficiente de ajudar uma pessoa comprometida ideologicamente seja usar
uma argumentação moral em vez de uma argumentação política. Caso
contrário, o resultado poderá ser o inverso do pretendido: aprofundar —
em vez de quebrar — o compromisso.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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