Os antivacina se dividem em dois grupos: os naturebas e os conspiracionistas da internet. Bruna Frascolla para a Gazeta:
Vacina
contra a poliomielite e o sarampo são coisas tão bem estabelecidas, que
não é fácil convencer os antivacina de sua eficácia. Fazer as pessoas
crerem em coisas não estabelecidas é mais fácil do que fazê-las crerem
nas muitíssimo bem estabelecidas; afinal, só estas últimas requerem um
imenso grau de teimosia ou fanatismo para serem negadas. Teimosia e
fanatismo minam qualquer conversa.
Os
antivacina se dividem em dois grupos: os naturebas e os
conspiracionistas da internet. Os primeiros sacralizam a natureza e
acham que tudo o que é artificial é venenoso. São gente urbana que acha
que a natureza foi fielmente representada na obra cinematográfica Bambi.
Caso
o natureba seja vegano, ainda se recusará a tomar vacina por causa de
princípios éticos, uma vez que as vacinas são testadas em animais, e
achar que a vida humana vale mais que o de um rato é o abominável
preconceito de “especismo”. Embora exista caso de natureba antivacina
coberto pela imprensa, há a lenda de que só os conspiracionistas da
internet, direitistas, são antivacina.
Por
outro lado, há quem ache que a direita terraplanista não existe, e é
tudo uma invenção da imprensa progressista. E esta, a seu turno,
aproveita para pintar todo direitista de terraplanista. Agora, quando
Bolsonaro se opõe à obrigatoriedade da vacina xing-ling, está feita a
festa: todo mundo que não quer tomar esse troço feito a jato é um
bolsonarista terraplanista antivacina.
É
claro que essa generalização não é minimamente razoável. Vacinas levam
tempo para ficar prontas. Em Oxford, situada numa democracia, vira e
mexe aparece algum voluntário tendo piriri. Na Rússia e na China,
nenhuma notícia negativa. Quem não for um completo desmemoriado há de se
lembrar do sumiço de Li Wenliang, o médico que alertou aos colegas
sobre o novo vírus, foi preso e acabou morto.
Evoca-se
a autoridade do Butantã, ao mesmo tempo que a verba da pesquisa
paulista é cortada pelo governo do estado. Nessas circunstâncias, eu
acho mais fácil o Brasil aprender com a China a ter sua própria pandemia
do que fazer uma vacina boa em menos de um ano. Vislumbro o mundo a
deplorar o hábito brasileiro de comer churrasquinho de gato, vetor da
novíssima pandemia.
Tá todo mundo doido
A
questão da vacina está uma gritaria: tem gente com medo da vacina e
gente com medo dos antivacina. Em meio a tanta gritaria, que fazer? Bom,
quem vira militante antivacina – contra as vacinas tradicionais e bem
estabelecidas – é gente com pleno acesso à informação e a serviços de
saúde. É gente que crê porque quer crer, e não está ao meu alcance fazer
ninguém mudar de ideia. Isso, só quem pode fazer são as doenças do
século XIX. Resta, então, falar dos que não são naturebas e não querem
tomar a vacina da China: grupo no qual estamos eu e os conspiracionistas
de internet. Contarei a fábula do parente terraplanista.
Era
uma vez, ainda na era pré-covid, no longínquo ano de 2019, uma jovem
que teve um filho. Essa jovem acontecia de ser minha prima, e me contou
então a última novidade: o tio Fulano agora é antivacina, diz que existe
um tal Papa da vacina, que sabe tudo de vacina, que fala de vacina no
Youtube, e que ela (a minha prima) não deveria dar vacina nenhuma para o
filho porque o Papa da vacina diz que não é pra dar vacina. Ela,
naturalmente, não deu trela pro tio e vacinou o menino.
O
parente em questão era apolítico desde que me entendo por gente. Mas,
desde 2018, estava apavorado com uma parenta que sempre foi de esquerda,
e militante. A parenta falava umas barbaridades em grupo de família do
WhatsApp, e ele começou a suspeitar que fosse louca. Acreditava em
teorias conspiratórias divulgadas por Marilena Chauí e Zé de Abreu,
segundo as quais Moro é um agente da CIA que prendeu o inocente Lula
para roubar o pré-sal, e a facada de Bolsonaro foi uma farsa montada
pelo Mossad em parceria com a Globo e o Hospital Israelita Albert
Einstein. Lá pelas tantas, a parenta botou Paulo Freire nas alturas, e
ele descobriu que era o nome da escola da filha dele. Ficou desesperado.
Foi
então pesquisar o assunto na internet e caiu em Olavo de Carvalho. Eu
sabia que Olavo tinha divulgado vídeo de conspiracionista antivacina. Se
ele tinha virado antivacina depois dessa, é provável que tenha visto
mais vídeos estrambólicos divulgados por Olavo de Carvalho – o que
inclui os do youtuber terraplanista Bruno Alves. Então, num momento de
ócio, mandei ao parente aquela perguntinha marota pelo WhatsApp: “Qual é
o formato da terra?”
Ele
respondeu que depende. A nova ciência experimental vem refutando a
teoria corrente segundo a qual a terra seria “redonda, molhada e
giratória” (sic). A NOM (Nova Ordem Mundial), que inclui a Rainha da
Inglaterra, John Lennon e o Papa Francisco, quer fazer o homem crer que é
somente uma forma de vida aleatória voando numa bola pelo espaço,
quando na verdade o homem tem uma relação próxima com Deus, foi criado
por ele e posto no centro da Criação, a qual é um disco com uma abóboda
tal como diz a Bíblia. A NOM revelou seu plano em "Imagine", de John
Lennon, e em "Mr. Crowley", de Ozzy Osbourne.
Mostrei
meu achado para a minha prima, que só acreditou mediante prints, e
ficou apavorada. Eu, que sou uma diletante, achei um barato e fui
pesquisar mais: entrei em tudo quanto era grupo de terraplanista no
Facebook. Dei a sorte de ver que um deles era administrado por um
conhecido meu, que criou um grupo para atrair terraplanistas e
desmistificá-los. Ganhei, assim, um expert em terraplanismo para saber
como interagir com o parente.
Nos
grupos, aprendi que eles pretendem acreditar só em coisas que têm
comprovação na experiência ao seu alcance. Apresentam uma foto do mar no
horizonte e de um copo d’água, e “provam” assim que a água não faz
curva, de modo que a terra só pode ser plana. Mas se mostrarem a eles a
foto de uma moeda com uma gota d’água em cima, eles irão ficar brabos e
desconversar. Eles se sentem muito superiores por serem uma pequena
parcela da humanidade que sabe a Verdade. Até fazem memes com a alegoria
da caverna, de Platão, em que eles são os que saíram da caverna,
enquanto nós estamos dentro.
Terraplanistas
são religiosos e anticapitalistas, e é o anticapitalismo que os leva a
serem antivacina. A Big Pharma, a indústria farmacêutica, existe para
fazer todo mundo adoecer e vender remédios depois.
As
vacinas seriam cancerígenas, e a NOM (que inclui Bill Gates) as injeta
nas pessoas para elas terem câncer e darem dinheiro à Big Pharma por
tratamentos.
O
leitor se lembra da querela da fosfoetanolamina, a “pílula do câncer”?
Essa pílula – feita na USP! – curaria qualquer tipo de câncer a um preço
baixo. Por isso, a Big Pharma mandaria dizer que era tudo
charlatanismo, mas Bolsonaro, Dilma Rousseff e Jean Wyllys atuaram para
obrigar a USP a continuar fornecendo as benditas pílulas para todo
mundo. Como o anticapitalismo os unia, não é de admirar que se juntassem
na luta contra a Big Pharma.
Voltemos
à saga do parente terraplanista. O expert em terraplanismo decifrou
para mim o que ele queria dizer com coisas como a farsa da “blue
mapple”. “Blue mapple” era para ser “Blue Marble”, ou gude azul, a foto
da terra tirada pela NASA em 1972, durante a Missão Apollo 17. Desde
então, a NASA tem refeito a Blue Marble juntando fotos de satélite. Os
terraplanistas pegam imagens homônimas, que são montagem, e “provam” que
a Blue Marble é não passa de uma montagem feita pela NASA.
Segui
o conselho de deixar de lado a Rainha da Inglaterra e perguntar o que
os pilotos de avião, os professores de física e os astrônomos diletantes
têm a ganhar com a NOM, já que eles também “mentem” dizendo que a terra
é redonda. Esta é a pergunta que os terraplanistas nunca respondem.
Perguntei, e o meu parente contou que já foi atrás de pilotos de avião
tentar desmascará-los. Perguntou-lhes como faziam para acompanhar a
curvatura da terra, em vez de seguir em linha reta rumo ao espaço. Os
pilotos ficaram olhando-o com uns olhões, o que só prova que eles têm
medo de contar a verdade. Essa foi uma das coisas mais engraçadas que já
ouvi. O parente ficou brabo comigo porque descobriu que não levo a
sério as suas convicções e me bloqueou do WhatsApp.
Mas
felizmente já desbloqueou. Eu, que não sou adepta do tati-bernardismo
cultural, não quero briga em família por causa de política, e nem mesmo
por causa de doidice.
Moral da história
Com
a história da vacina chinesa, eis que agora eu estou junto com o
parente terraplanista, em encarniçada oposição à “vachina obrigadória”.
Mas, assim como a parenta que crê na inocência de Lula e nas intrigas do
Mossad, sigo firme e forte em defesa da vacina contra a poliomielite, o
tétano, a febre amarela, o sarampo. E o leitor também estará ao lado de
pelo menos um desses doidos.
A
moral da história é que não importa onde você esteja: se procurar
direitinho, sempre encontrará um doido ao seu lado. Então não temos
saída senão julgar as coisas usando os nossos miolos, em vez de
simplesmente aderir a um fantasioso bando das pessoas sensatas.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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