Se existe um movimento flagrantemente anti-intelectual denunciado por
intelectuais, é exatamente aquele que é liderado pelos próprios
intelectuais. Famintos por militância “progressista” e empanturrados de
ideologia esquerdista, seus membros tem ampla predominância no ambiente
acadêmico, seja nos EUA ou no Brasil. Artigo do professor João Leonardo
Marques Roschildt, via Gazeta:
O descrédito dos intelectuais contemporâneos surge com a decadência
de seus intelectos. Sem qualquer vergonha, nos últimos anos alguns
saíram do armário e deixaram as antigas vestes de pensadores para
assumirem de vez sua militância progressista. Outros, ainda enrustidos,
tentam mascarar suas ideologias coletivistas com posturas sisudas,
“técnicas” e isentas. E ainda existem aqueles que travestem suas ideias
conforme a “música” do momento.
Se em uma crise de meia-idade descobre-se a perda do brilho da
juventude e o início de uma opaca velhice, pode-se afirmar que a
intelectualidade se encontra nesse estágio. Seus membros, antes vistos
como ilustres sábios por boa parte da sociedade, nos últimos anos caíram
em desgraça na mesma proporção de boa parte dos grandes veículos de
comunicação. Assim, como as pessoas que atravessam aquela fase da vida,
estes intelectuais passaram a conviver diariamente com a insegurança das
mudanças sociais e políticas ocorridas. Desanimados com a falta de
aceitação social, desenvolveram um saudosismo por um passado político
recente “nunca antes visto na história” dos intelectuais. No fundo, a
revolucionária intelectualidade contemporânea é bastante reacionária. Em
alguns casos, buscando o sossego da solidão como forma de não serem
perturbados pelos governos “fascistas” ou cobrados pela sociedade, os
mais abonados optaram pelo autoexílio. Nunca nos “paraísos” socialistas,
mas sempre em países alinhados com o “demoníaco” capitalismo, como
Alemanha, Estados Unidos e França.
As acusações mais levianas sobre a origem dessa rejeição pública à
classe intelectual repousam naquilo que poderia ser denominado de
anti-intelectualismo. Na essência, esse movimento teria asco a tudo que é
produzido por estudiosos nas mais diversas áreas do conhecimento. Nos
dizeres da “autoexilada filósofa” Márcia Tiburi, “há um ódio que se
dirige atualmente à inteligência, ao conhecimento, à ciência, ao
esclarecimento, ao discernimento”, o que definiria o
anti-intelectualismo. Em suma, é a negação bestial daquilo que o
intelecto humano supostamente é capaz de produzir de mais glorioso para a
resolução dos seus problemas.
Mas aqui mora um perigo, visto que em toda impulsiva incriminação há
uma ausência de prudência. No caso em questão existe um adicional: a
maldade ideológica por parte dos acusadores. Dentro da miopia
progressista, o espaço para críticas centrais às suas diversas formas de
pensar no mundo deve estar resguardado no esquadro dos aspectos
toleráveis definidos pelo próprio progressismo. Em resumo, as
mirabolantes ideias de um progressista só podem ser criticadas
legitimamente por outro progressista. No jogo de aparências desenvolvido
não existe uma real discordância. E todo aquele que afrontar o
“tolerável” ou desaprovar alguma “vaca sagrada” da esquerda será
classificado como antidemocrático, reacionário, machista, sexista,
racista, homofóbico e intolerante. Para estes mestres do pensamento
esquerdista, a pluralidade deve ser entre iguais.
Em alguma medida, os que denunciam uma suposta existência no Brasil
de um movimento anti-intelectual são bons exemplos do que foi dito e
padecem dos males que atribuem a seus antagonistas. Ou, para ficar em um
caso, alguém duvida que Márcia Tiburi não é o pleno enquadramento da
definição de anti-intelectualismo? Nesse embate, no córner vermelho está
o progressismo, ao passo que no córner azul está o conservadorismo,
apelidado pejorativamente (e com muita ignorância) de reacionarismo.
Desta forma, pode-se afirmar sem dúvida alguma que, na linha de
raciocínio progressista, a anti-intelectualidade congrega tudo o que se
contrapõe ao seu modus operandi. Para a “fina flor” da falsa erudição,
se existe alinhamento mental com o dito “progressismo”, aqui há uma
intelectualidade, ao passo que, se sobram proximidades com o
conservadorismo, aqui jaz anti-intelectualidade.
Desta forma, o “progressismo” tenta blindar-se das críticas mais
contundentes e severas, sempre atribuindo ao seu inimigo uma imaginária
aversão à sabedoria e à racionalidade, o que constituiria uma prática
irregular para o embate de ideias. Como maciçamente os “especialistas”
da grande mídia são “progressistas”, algo que se reproduz (ou é
reflexo?) nas universidades, vende-se a ideia de que a menor
discordância das ideias “iluminadas” significa o início do
obscurantismo. O encanto da maior parte dos veículos de comunicação com
essa vanguarda a favor do “progresso” produz a inventiva perspectiva de
consenso sobre uma abordagem, o que por inúmeras vezes não corresponde à
realidade. O meio acadêmico, recluso em seus prédios, concebe ideias
“inovadoras” estapafúrdias que são continuamente aplaudidas entre os
pares, o que infla o ego dos “especialistas”.
Em razão de esses experts não lidarem muito bem com a verdadeira
oposição de ideias, qualquer rejeição à sua visão de mundo ou agenda
ideológica é sinônimo de irracionalidade. Nada mais natural; afinal, um
“progressista” crê piamente que seus ideais representam a marcha do
progresso. Logo, se alguém é um firme obstáculo às suas convicções, deve
ser alguma besta não esclarecida. E se tal atitude “retrógrada” provém
do povo, do senso comum, pior ainda; afinal, não se espera algo de
diferente do ignorante patuléu que precisa ser instruído adequadamente
para pensar e executar as teorias dos visionários de gabinete.
No fim de abril de 2020, uma professora de Direito de Harvard,
Elizabeth Bartholet, fez uma severa crítica ao homeschooling, também
chamado de educação domiciliar no Brasil. Em sua visão, exposta na
Harvard Magazine, tal situação é descrita como extremamente perigosa
para as crianças em razão do controle autoritário que os pais têm sobre
seus filhos no cenário da educação domiciliar. Com a firme ideia de que
este modelo educacional deve ser banido, Bartholet diz que qualquer
prática que não oferte uma “educação significativa” (uma educação que
faça sentido) estaria violando os direitos das crianças ao impedi-las de
contribuírem positivamente para uma sociedade plural e democrática. E,
sem titubear, acrescentou que o homeschooling não protege as crianças de
serem abusadas, visto que, ao isolarem os infantes do convívio público,
principalmente no caso das crianças de 4 a 5 anos de idade, os
principais “repórteres obrigatórios”, os professores, que alertam as
autoridades diante das evidências que remetem a abusos ou negligências,
não conseguiriam cumprir tal tarefa exatamente pelo fato de a criança
não estar na escola. De acordo com ela, tais violências perpetradas por
pais que defendem o homeschooling são comuns nos EUA.
Ao falar sobre a realidade norte-americana, Bartholet declarou que as
situações de homeschooling só estão regulamentadas com as exigências
mínimas para que os pais possam executar essa prática em 12 dos 50
estados dos EUA. Isso traz como consequência que há a possibilidade de
que pais que não sabem ler possam manter seus filhos longe da escola
privando-os do conhecimento, o que, de acordo com a professora, não
seria algo incomum.
Fazendo referência a um longo artigo de sua autoria, publicado na
reconhecida Arizona Law Review, Bartholet reforça que os pais escolhem a
educação domiciliar, de acordo com pesquisas, por inúmeras razões:
proteção contra bullying, possibilidade de práticas esportivas diversas
ou até mesmo flexibilidade de horários para outras atividades. Mas, na
maior parte dos casos (mais de 90%), os norte-americanos optam por
retirar seus filhos das escolas porque são cristãos conservadores que
não concordam com a cultura “progressista” do sistema de ensino, o que
para ela constitui um grave erro, pois estes pais não estariam engajados
com os valores democráticos, com o fim da discriminação e com o ideal
de tolerância. E a professora reforça que existem casos em que algumas
famílias duvidam do valor da ciência, estimulam a subserviência feminina
e a supremacia branca.
Assim, frente a este verdadeiro atestado de atrocidades infantis,
resta a Bartholet apresentar o seguinte questionamento retórico: “nós
achamos que os pais devem ter todo o tempo, essencialmente um controle
autoritário sobre seus filhos de zero a 18 anos?” Como uma levantadora
de vôlei que coloca a ponteira pronta para finalizar, a professora
responde: “Eu acho que é sempre perigoso colocar pessoas poderosas no
comando de impotentes, e dar total autoridade aos poderosos”. Logo,
banir o homeschooling é a solução.
Bem, sem se dar conta do que falou, Bartholet é exatamente a poderosa
que quer guiar os impotentes. Afinal, é a “especialista” que deseja
planejar a vida social dos “ignorantes” e “reacionários” pais que não
sabem educar seus filhos. Como na crítica “racialista” e “elitista”
feita pelo mainstream aos homens brancos, de baixa instrução e do
interior dos EUA que elegeram Donald Trump, a “estudiosa” direciona sua
raiva aos cristãos conservadores. E é na escola que se aprendem os
valores do pluralismo e da democracia...
Esta espécie de “intelectual”, além da mera arrogância que
caracteriza boa parte da classe “pensante”, julga-se poderosa o
suficiente para modificar, de um gabinete, a vida dos cidadãos. Estes
“sábios” acreditam estar vivenciando a ascensão das trevas morais,
sociais e políticas por não comungarem de nenhum dos valores
conservadores que emergiram nas eleições recentes ao redor do mundo
ocidental. E, diante disso, creem que a iluminação típica das divindades
esteja pairando sobre suas cabeças para que elaborem ações sociais que
“eduquem” compulsoriamente os indivíduos.
No caso da professora, expressando o mais íntimo rancor para com
cristãos e conservadores, e generalizando casos pontuais de abusos e
maus-tratos com crianças por parte de seus pais para justificar suas
alegações, há a construção de uma narrativa que transpõe a luta de
classes para dentro do seio familiar, seguindo no melhor esquema dos
herdeiros do marxismo. Enquanto os pais são vistos como “poderosos” e
“autoritários”, os filhos são classificados como “impotentes”. É a
versão de opressores versus oprimidos turbinada pelo homeschooling. Com
essa preconcepção entendida como verdadeira dentro da narrativa
fantasiosa de Bartholet, existe um firme espaço que legitima o banimento
da educação domiciliar. Afinal, como alguém pode defender uma educação
que não seja significativa, com abusos, negligências e atos tirânicos
dos pais, supostamente algo típico de famílias conservadoras cristãs que
defendem a intolerância, o preconceito, o racismo e a misoginia, algo
avesso à democracia? Se a narrativa está certa, a professora
“especialista” está correta. E como não estar certa em um mundo
constantemente narrado por “progressistas”?
Como bem apontou o professor Tom Lindsay em artigo para a Forbes,
Bartholet não tem nenhuma evidência que consiga comprovar suas
principais alegações, quais sejam, a de que existem abusos constantes
contra crianças em educação domiciliar. Citando um estudo do pesquisador
Brian D. May, intitulado “Child abuse of public school, private school,
and homeschool students: evidence, philosophy, and reason”, publicado
em 2018, Lindsay aponta que existem índices relevantes de abusos contra
crianças cometidos por funcionários de escolas, exatamente aqueles que
seriam “repórteres obrigatórios” para denunciar tais violências. E ainda
acrescentou, citando May, que, com os dados disponíveis até o momento,
pode-se dizer que “a taxa de abusos de crianças em famílias homeschool é
mais baixa do que o público em geral”.
A conclusão mais simples e objetiva é a de que os “especialistas” são
pródigos em ideologias e escassos em evidências. Não há laço de amizade
entre um “progressista” e os fatos. E Bartholet é só mais um exemplo
que resume essa realidade. Estes “estudiosos” para o “progresso” não se
envergonham em proferir ideias que não correspondem a fatos porque são
adulados pela grande mídia sem sofrer o mínimo desconforto do confronto
firme de ideias. Assim, encontram um terreno fértil para atingirem a
tradição e as atitudes de vida daqueles que não gozam de seus
prestígios: os cidadãos comuns.
Todavia, o Brasil tem “sua” Bartholet. Aliás, com um ano de
antecedência e expressando a mesma opinião de Bartholet, o professor
Paulo Modesto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), já defendia
praticamente as mesmas ideias no ano de 2019. Em texto divulgado no site
Conjur, intitulado “Homeschooling é um prejuízo aos direitos da criança
e do adolescente”, Modesto não foi modesto nas críticas ao ensino
domiciliar.
Defendendo como a escola é um local de aprendizado, de reconhecimento
e de “equalização de diferenças”, Modesto diz que o homeschooling
“promove o enclausuramento do educando e o torna vulnerável a discursos
homogêneos, estritamente vinculados à ideologia dos pais ou de grupos em
que estes estejam inseridos (igreja, partido, sindicato), sem
participação plural ou o contraditório de outra instância crítica. Há
perda da vivência comum ou coletiva, risco acrescido de negligência e
violência doméstica, enfraquecimento do sentido de horizonte comum e de
cidadania”. Ainda acrescentou que a escola é um local que protege as
crianças contra violência doméstica, pois permite a fiscalização
comunitária do desenvolvimento das crianças e adolescentes. Só não
apareceram as palavras “autoritário” e “perigoso”. Lembrando que
“igreja” equivale a cristão e que “cristão”, na mente de
“progressistas”, equivale a conservador, logo, na prática, não faltou
palavra alguma. De resto, Bartholet parece ter copiado a tese do
professor da UFBA, o que mostra o “internacionalismo” do “progressismo”.
Claro que os críticos dirão que é uma teoria da conspiração...
Da mesma maneira, as assertivas de Modesto são um produto exclusivo
de seu intelecto. Nada do que afirmou guarda correlação necessária com a
realidade. Na essência é a sua ideologia que está sedenta pelo poder de
determinar os caminhos da educação domiciliar no Brasil. Como pode-se
afirmar que há enclausuramento do educando? Ele não pode conviver com
outras crianças e adolescentes? E como os filhos ficam vulneráveis às
ideologias dos pais sem convívio plural? Na escola brasileira não
existem indícios de uma doutrinação ideológica? Pode-se falar em risco
acrescido de violência doméstica com base em que evidências? Por qual
razão se enfraquece a cidadania? A ideia de uma adequada cidadania só se
aprende na escola? Mesmo com o Brasil ocupando péssimas posições em
rankings internacionais que avaliam nossos estudantes, a escola é um
local de aprendizado? Vivência coletiva só ocorre na escola?
No fundo, Modesto e Bartholet, ao expressarem de forma cifrada que
tudo é na escola, nada contra a escola, e nada fora da escola, dialogam
com a célebre frase de Mussolini que ajuda a entender o conceito de
fascismo: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”.
O fato é que a imaginação totalitária nem sempre se julga totalitária.
Tentando esquivar-se do suposto autoritarismo familiar e de todos os
males “antidemocráticos” que parecem representar o espírito dos lares
daqueles que optam pela educação domiciliar, os dois “pensadores” recaem
na fantasia de um mundo perfeito no ambiente escolar. No melhor modelo
do seriado de humor Chaves, os intelectuais fazem tudo “sem querer
querendo”: rejeitam modelos tirânicos propondo tiranias; defendem a
pluralidade de ideias prescrevendo uma única visão de mundo; “livres” de
preconceitos e embebidos de tolerância, não perdem tempo em rotular
negativamente cristãos e conservadores; criticam as ideologias sendo
ideólogos; contrários à discriminação, são campeões em discriminar.
Se existe um movimento flagrantemente anti-intelectual denunciado por
intelectuais, é exatamente aquele que é liderado pelos próprios
intelectuais. Famintos por militância “progressista” e empanturrados de
ideologia esquerdista, seus membros, com ampla predominância no ambiente
acadêmico, seja nos EUA ou no Brasil, lançam mão de um sentimentalismo
travestido de pseudociência para defenderem agendas doutrinárias
importantes para suas causas. Estes “pensadores” refletem o que há de
mais anticientífico, paranoico, obscuro, avesso à sabedoria e incapaz de
racionalidade que a humanidade conseguiu produzir. Podem ter a chancela
de instituições de ensino renomadas, que foram paulatinamente
aparelhadas pelo corporativismo “progressista”, mas não escondem o quão
afastadas estão suas ideias de uma razoável instrução intelectiva.
A verdadeira anti-intelectualidade é nociva para a sociedade.
Mitomaníacos por natureza, estes “sábios” adulteradores da realidade
mentem compulsivamente sobre fatos para agradarem seus cúmplices, para
obterem notoriedade pública, para ascenderem na carreira universitária e
para implementarem suas fantasias teóricas. Não há perigo maior do que
estar à mercê destes autoritários.
João Leonardo Marques Roschildt é
professor do curso de Direito do Centro Universitário da Região da
Campanha (Urcamp) e autor de A grama era verde.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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