A “extrema-ciência” não reconhece refinamentos, pois não é legítima
ciência, não está interessada na verdade. Artigo do professor Robson de
Oliveira, publicado pela Gazeta do Povo:
O neologismo “extrema-imprensa”, forjado nas redes sociais, trata de
caracterizar a manipulação do jornalismo por ideólogos. Nada de mais. A
língua é viva e presta-se a todas essas transformações. Tal como foi
concebido, “extrema-imprensa” surge como caricatura do urgente papel que
o jornalismo tem na sociedade. Trata-se da instrumentalização do bom
jornalismo que, em vez de informar, pretende “fazer justiça” pela
manipulação da narrativa dos fatos. Há outros neologismos possíveis como
“extremo-teatro”, “extrema-pedagogia”, “extremo-cinema”,
“extremo-blogueiro”, “extremo-cronismo esportivo” etc. O ponto comum
entre essas posturas é a manipulação das narrativas, a fim de criar, a
partir de uma caricatura, um espantalho a se destruir ou um herói a se
defender. Ao que parece, a pandemia de coronavírus pariu uma nova
palavra: a “extrema-ciência”.
Assim como suas coirmãs linguísticas, a “extrema-ciência” também
falsifica a noção original, para “fazer justiça” contra os espantalhos
criados pelo viés ideológico predominante nas redações, nas coxias e,
agora, nos grupos de pesquisa. É preciso reafirmar que, assim como o bom
jornalismo, a ciência nada tem a ver com isso. A “extrema-ciência” é
uma corrupção da ciência, pois, em vez de ocupar-se com a verdade,
procura ocultá-la ou distorcê-la, a fim de servir a interesses
distintos. Essa é a razão pela qual atrizes, humoristas, jornalistas,
professores e toda sorte de agnósticos e céticos, que até anteontem
defendiam a inexistência da verdade, hoje bradam a plenos pulmões:
“ciência, ciência, ciência”. O que mudou para relativistas e agnósticos
clamarem pela verdade da ciência? A verdade voltou a existir?
A contradição se explica porque a “extrema-ciência” não presta
serviço à verdade, mas submete-se absolutamente a interesses
ideológicos. Os justiceiros da ciência pretendem descrever a crise atual
como se um lado representasse a luz e a verdade, enquanto o outro
encarna a ignorância e as trevas. Mas essa é apenas mais uma forma de
desinformação.
Sobre esse modo de manipulação da opinião pública pela
“extrema-ciência”, o britânico John C. Lennox, PhD em matemática e
professor da Universidade de Oxford, cunhou uma ideia que bem pode
iluminar o momento delicado pelo qual passa o mundo. O contexto do
extrato é o da pseudodisputa entre ciência e teísmo, mas a questão pode
ser aplicada ao debate sobre o lugar da ciência na vida das pessoas e
das sociedades. Diz o matemático, no documentário Expelled: “Se temos
dois cientistas distintos – e de fato, podemos ter muito mais em cada
lado, como sabe – a afirmar coisas exatamente opostas, isso indica que o
conflito não é entre a ciência e a crença em Deus. De outra forma,
esperaríamos que todos os cientistas fossem ateus. Mas é um conflito
entre duas visões do mundo. [A disputa] É entre cientistas, que têm duas
visões diferentes sobre o mundo”.
Parece-me que essa análise do professor Lennox é precisa e expressa
bastante bem o que ocorre, de forma restrita, na batalha sobre a
aplicação da hidroxicloroquina aos afetados pelo vírus no Brasil, mas
também trata do lugar da ciência na sociedade, numa perspectiva
alargada. Com efeito, se há dois cientistas distintos (e há muito mais) a
afirmar procedimentos exatamente opostos no tratamento da doença, claro
está que a razão dessa disputa não está no fato de a ciência ter
procedimentos incontestáveis sobre o assunto, mas que o centro do debate
se encontra em outro lugar. A “extrema-ciência” trabalha para dar a
impressão de que a comunidade científica é uníssona nos procedimentos,
com o intuito claro de desacreditar o dissenso e para esconder que o
fator decisivo da questão está oculto em ouro lugar. E o oculto, esse
outro lugar que reúne o fundamental da querela, é, em última análise, a
visão de mundo do cientista.
Visão de mundo (Weltanschauung, em alemão) é conceito conhecido na
filosofia contemporânea (Franz Brentano, Martin Heidegger e o próprio
Círculo de Viena, dentre outros, utilizam esse conceito) e consigna o
conjunto de valores e pré-conceitos que constitui o horizonte
epistemológico do ser humano. Um entendimento equivocado pode comparar
visão de mundo com a soma das crenças que compõem a compreensão do
indivíduo particular. Mas essa postura ainda é muito redutora. Não se
trata apenas do resumo da perspectiva geral sobre a realidade que cada
homem traz dentro de si. É mais que isso. É a condição de possibilidade
para toda compreensão do mundo à sua volta. A Weltanschaunng indica para
o rapazola que a piscadela da moça é um sinal de que o amor está à
porta e não o reflexo automático de um cisco no globo ocular da menina.
Ou que o pigarro na sala de estar é uma indicação para se mudar de
assunto e não efeito de uma infecção em andamento. Veja o como clamor
“ciência, ciência, ciência” é enganador, pois sem as condições para
interpretação dos dados (a piscadela e a tosse são materialmente só
isso: piscadela e tosse), o triplo brado é só propaganda e nada mais.
Com efeito, não é a ciência que determina o modo como o cientista
interpreta os dados à sua volta, não é a ciência que constrói a visão de
mundo do pesquisador, mas ocorre justamente o contrário: é a visão de
mundo do cientista que orienta as possibilidades de interpretação dos
dados coletados pelo experimento e pela observação. Afinal, os dados
colhidos por instrumentos não são autointerpretáveis, não é? Eles
necessitam de significado, demandam sentido, solicitam explicação e
essas características não chegam ao pesquisador junto com os dados
impressos pela máquina. Pelo contrário, o significado dos dados
científicos é oferecido pelo gênio do pesquisador, pela riqueza interior
do cientista, pelo horizonte criativo do estudioso: enfim, por sua
visão de mundo (Weltanschaunng). Mas a “extrema-ciência” não reconhece
tais refinamentos, pois não é legítima ciência, não está interessada na
verdade. Ela necessita descrever o embate como se fosse uma batalha
entre nós e eles, entre cientistas e obscurantistas, o que é um
reducionismo frágil. A pergunta que resta fazer é: que visão de mundo
move a “extrema-ciência”?
Robson de Oliveira é professor de Filosofia da PUC-RJ e diretor do CTSmart.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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