Os jovens são, desde os anos 1960, um fetiche da burguesia - e dos mais óbvios. Coluna de Luiz Felipe Pondé (FSP):
Pergunto-me: de onde
vem a paixão louca pela série "Game of Thrones" ("GoT" para os íntimos)?
A resposta deve ser longa. Não quero respondê-la aqui.
Espanta-me que
pessoas tão preocupadas em serem boas (como as contemporâneas, cheias de
causas do "bem") podem gozar com uma produção (nada de pessoal contra a
série, inclusive porque não me incluo entre as pessoas que querem ser
boas) tão violenta –tanto no nível explicitamente físico quanto no
político e no psicológico. É evidente que a velha pulsão de morte
freudiana encontra em exemplos como essa série seu parque temático do
mal.
Essa questão me serve
de gancho para pensar uma outra, esta sim, que me ocupa há algum tempo.
Por que mentimos tanto sobre os jovens hoje em dia? Outra, relacionada à
anterior: por que eles mentem tanto sobre si mesmos e tantos de nós
batemos palma para esse espetáculo de "mortos-vivos"?
Um parêntese. O
título acima, "World peace" (paz mundial), era a resposta que as
candidatas ao concurso de Miss Universo davam à pergunta "o que você
mais deseja na vida?". Esta questão vinha acompanha por outra: "Qual é
seu livro de cabeceira?". A resposta: "O Pequeno Príncipe". Afora a
ingenuidade aparente dessas respostas, lembro-me bem desses concursos
porque era uma delícia ver tantas gostosas num programa só, e de tantos
países diferentes. Sei. Hoje em dia achar uma mulher gostosa é
"masculinidade tóxica".
Explicado o título,
voltemos às duas questões enunciadas anteriormente sobre os jovens. Numa
pesquisa recente de um desses institutos com credibilidade que saiu na
grande mídia, os jovens latino-americanos, inclusive os brasileiros,
revelaram ter o mesmo humor depressivo mostrado em pesquisas com jovens
americanos.
Depressão, medo do
futuro, falta de expectativas, dificuldades nos relacionamentos
afetivos, queda de esperança no cotidiano. Nada de novo no fronte desde
meados dos anos 2000, quando começaram a aparecer pesquisas de
comportamento nos Estados Unidos com os chamados "millennials". E as
escolas, as universidades e as famílias continuam na sua batida
mentirosa e marqueteira sobre como os jovens estão "evoluídos".
O que chamou minha
atenção especificamente nessa pesquisa não foi o estado de humor dos
jovens latino-americanos. Como costumo dizer, atuando em graduação há
mais de 20 anos, podemos constatar, no mínimo, duas coisas.
A primeira é que, a cada ano, nós, professores, estamos mais velhos, enquanto os alunos têm sempre a mesma idade.
A segunda é que
podemos perceber, claramente, que o humor dos jovens está a cada ano
mais depressivo. Os jovens estão piores, e não melhores.
O que chamou minha
atenção especificamente foram as respostas desses jovens, que a pesquisa
trouxe, como causas para esse humor depressivo: a preocupação com o
aquecimento global, a violência contra os animais e os direitos humanos e
a perseguição à liberdade de expressão.
Perdoe-me a
sinceridade: essas "causas" são mentira e marketing. Não acredito nessas
"causas". Não que os temas não sejam preocupantes, mas não creio que
elas sejam as verdadeiras causas do humor depressivo entre os jovens.
Acho que elas são respostas prontas que mostra no que transformamos os
jovens. Eles são, desde os anos 1960, um fetiche da burguesia. E dos
mais óbvios. Pais e escolas adoram esse fetiche porque ele os faz
parecer geradores de um futuro melhor. Porém, o que ocorre é que esse
fetiche aumenta a distância entre a realidade (psíquica, social e
política) desses jovens e a projeção que o marketing de comportamento
faz deles.
A maioria esmagadora
da população não liga para liberdade de expressão. Só quem liga para ela
são jornalistas, professores, artistas ou intelectuais em geral. A
menos que a repressão sobre a liberdade de expressão torne seu jantar
impossível, ela que se dane. Quanto às outras "causas", elas estão bem
distantes do dia a dia concreto da maioria esmagadora desses jovens. Mas
muita gente acredita mesmo que esses deprimidos estejam assim porque
"querem um mundo melhor". Mas essas respostas são como a resposta "world
peace", dada pelas gostosas no concurso de Miss Universo. Puras "fake
news" com aprovação de todos.
Creio mais que as
causas sejam famílias disfuncionais, mercado de trabalho em
transformação monstruosa, instabilidade afetiva, insegurança
identitária, desconfiança epidêmica. Dizer que estão deprimidos por
causa de questões políticas e sociais é mais fácil do que enfrentar o
quarto desarrumado e o banheiro sujo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário