A uniforme identificação
da União Europeia com o plano central de “Mais Europa” arrisca-se
seriamente a resultar em “Mais Europa com Menos Europeus”. Texto do
professor João Carlos Espada, publicado pelo Observador:
O eventual leitor
deste artigo terá sobre o autor pelo menos uma vantagem decisiva: quando
este texto for publicado já serão conhecidos os resultados oficiais das
eleições europeias de ontem — o que não é o caso na altura em que este
artigo está a ser escrito. Ainda assim, arrisco-me a abordar o tema das
eleições europeias — que têm a especificidade adicional de serem
eleições “de protesto”, sem directo impacto governativo nem no plano
nacional nem no plano europeu.
Um ponto de partida
possível será o discurso de despedida de Theresa May, primeira-ministra
britânica, na passada sexta-feira. A sra. May será sem dúvida a
principal responsável pelo descalabro eleitoral que tudo indica terá
penalizado duramente o seu Partido Conservador nas eleições europeias.
Mas proferiu um discurso honroso, a que não faltou a sincera emoção
final, quando concluiu expressando a sua “gratidão pela oportunidade de
servir o país que amo.”
Outro aspecto que
merece apreço foi o seu elogio do espírito de compromisso. Citando Sir
Nicholas Winton, que foi um empenhado protector de crianças perseguidas
pelo nazismo, Theresa May recordou que ele lhe tinha dito: “nunca se
esqueça de que ‘compromisso’ não é uma palavra suja”.
Creio que a sábia
recomendação de Sir Nicholas devia ser hoje sobretudo recordada aos
líderes da União Europeia em Bruxelas. Estamos a assistir há vários anos
a uma espécie de rebelião dos eleitorados nacionais de inúmeros países
europeus — uns atrás dos outros, é a expressão adequada neste caso. Essa
rebelião exprime-se na fuga de um número crescente de eleitores dos
partidos centrais clássicos para partidos até há pouco marginais,
nalguns casos até há pouco simplesmente inexistentes.
Venho argumentando
repetidamente, desde pelo menos 2012 (num artigo no Journal of Democracy
que retomei na mesma revista em 2014 e num livro sobre Portugal, a
Europa e o Atlântico, com muito amável Prefácio de Manuel Braga da
Cruz), que os eleitores não estão a votar nesses partidos sobretudo por
eles serem extremistas. Estão a votar nesses partidos porque eles são os
únicos que dão voz a uma preocupação crescente dos eleitores: a
preocupação com o sentimento nacional e o desconforto com a
centralização supra-nacional.
Por que motivo não
têm os partidos centrais dado a devida atenção ao sentimento nacional?
Basicamente, porque eles têm sido seduzidos por uma ideia que é, pelo
menos, peculiar no âmbito das tradições liberais-democráticas: a ideia
de planificação central.
O nobre projecto de
cooperação entre as nações europeias teve desde o início pelo menos duas
interpretações (o que não deve ser visto necessariamente como uma
desvantagem). De um lado, existia a ideia de cooperação entre as nações
europeias; de outro lado, havia o sonho cartesiano de uma sucessão de
passos conduzindo inevitavelmente a um Estado europeu supra e
pós-nacional.
Não creio que
houvesse necessariamente um problema nessa co-habitação entre diferentes
interpretações do projecto europeu. A democracia parlamentar, onde
realmente tem existido duradouramente, foi sempre uma co-habitação entre
projectos e visões do mundo diferentes, por vezes até teoricamente
opostas. O milagre da democracia parlamentar consiste precisamente em
permitir a conversação civilizada entre projectos rivais — os quais, por
via dessa conversação, vão gradualmente amaciando o seu entusiasmo
dogmático, sem por isso terem de perder as suas convicções distintivas.
Por esta razão, o
problema da União Europeia não reside, em meu entender, na existência de
uma visão planificadora cartesiana. Se essa visão existe com expressão
significativa, é desejável que tenha voz na União Europeia e nos
corredores de Bruxelas. O grande problema é quando essa visão
planificadora cartesiana gera uniformização e deixa de estar em
concorrência com uma visão rival — uma visão fundada na prioridade do
sentimento nacional e da soberania dos parlamentos nacionais.
Receio ter de repetir
que esta uniformização cartesiana está na origem da sucessiva erosão
eleitoral dos partidos centrais. A ideia e o slogan de “Mais Europa”
tornou-se comum aos partidos centrais, de centro-direita e de
centro-esquerda. Fundamentalmente por essa razão, os eleitores que não
querem “Mais Europa” deslocam-se para partidos marginais — ou/e para a
abstenção. Como venho alertando há vários anos, a uniforme identificação
da União Europeia com o plano central de “Mais Europa” arrisca-se
seriamente a resultar em “Mais Europa com Menos Europeus”.
É aqui que devemos
voltar ao conselho que Sir Nicholas terá dado a Theresa May: “nunca se
esqueça de que ‘compromisso’ não é uma palavra suja”. Esta sábia
recomendação deve ser hoje recordada aos líderes da União Europeia em
Bruxelas. Se estes realmente defendem a União Europeia (e acredito que
defendem, ainda que numa versão peculiarmente planificadora) devem
escutar a mensagem dos eleitores. Isso não implica abandonarem por
completo os sonhos planificadores — o que seria da minha parte uma
exigência dogmática de um espécie de “plano anti-planificador”. Mas
seguramente exige que aceitem uma humilde atitude de compromisso e
moderação relativamente ao desconforto dos eleitores.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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