Coluna dominical do jornalista Carlos Brickmann:
O presidente Michel
Temer é coerente: está onde sempre esteve (talvez isso só mude no fim do
mandato, quando perder o foro privilegiado). Temer, ao assumir,
lembra-se? extinguiu o Ministério da Cultura, apenas para em seguida
voltar atrás, diante da reação dos prejudicados. Agora, em quatro horas,
anunciou a tabela de preços mínimos para o frete e, diante da reação de
líderes dos caminhoneiros, que ameaçaram parar de novo, recuou, revogou
a tabela e prometeu outra, exatinho como eles exigiam. Os reclamantes
nem pediram licença: invadiram o Ministério dos Transportes. E, mais uma
vez, viram o presidente obedecer a quem gritasse mais.
Enquanto isso, como
se comporta o mercado? Uma carga de 300 kg de São Paulo a Roraima sairia
por pouco menos de R$ 1.200. Mas apareceram transportadores se propondo
a levá-la por R$ 1.000, ou menos. A questão nem é tanto de preço: é que
o caminhoneiro autônomo não pode parar, se quiser pagar as contas. E
quem está ganhando com isso? Caro leitor, é ele mesmo: Joesley. Ou eles,
os de sempre: os frigoríficos. O criador não pode segurar os bois no
pasto, sob pena de ter prejuízo. Frigoríficos aproveitam a paralisação:
oferecem preço menor pelos bois, e os criadores, pressionados, aceitam.
Os frigoríficos ganham também na outra ponta, exportando com o dólar
alto. Quem pensa nos caminhoneiros de verdade, ou nos criadores?
E Temer, não pensa? Talvez até pense, mas não hesita em dar a ré.
O dinheiro que falta
O Governo diz que o
orçamento não comporta novos gastos. Deve ser verdade: o déficit deste
ano está por volta de R$ 160 bilhões. Mas será que não dá para mexer
nisso? O empresário Zizinho Papa, presidente emérito da Federação do
Comércio, que será candidato a deputado federal pelo PSDC paulista, dá
números: temos 54 governadores e vices, 81 senadores, 11.136 prefeitos e
vices, 1.024 deputados estaduais, 513 deputados federais. Vices e
governadores, deputados federais, senadores, prefeitos, todos têm carro
oficial. Deputados estaduais, não todos, mas muitos, têm carro oficial.
Sem luxo: bons carros, como Toyota Corolla, Honda Civic, Chevrolet Cruze
e outros do mesmo nível, custam no mínimo R$ 80 mil. É preciso tudo
isso? Não são só os carros: se reduzirmos à metade o número de 69.620
políticos com mandato, qual o problema? E qual a economia?
Os números
A política nos custa
(tudo, incluindo o que é mesmo indispensável) R$ 150 mil por minuto, R$ 9
milhões por hora. São quase R$ 78 bilhões por ano. Isso, claro, não
inclui as boas aposentadorias, nem o seguro-saúde ilimitado e vitalício.
Reduzir esse gasto pela metade e poupar R$ 39 bilhões será mesmo
impossível? E deve ser bom fazer política: há 35 partidos com registro
no TSE, todos recebendo parcelas do Fundo Partidário, todos com direito a
financiamento público de campanha. Há 73 partidos em formação. Qual a
diferença entre um e outro? A semelhança, essa nós sabemos.
A grande festa
A despesa é alta mas a
festa continua – afinal, quem paga somos nós. A Câmara Municipal de São
Paulo acaba de aprovar um bom reajuste (77%) numa gratificação aos
funcionários. Coisa pouca, para quem legisla: apenas R$ 5,7 milhões por
ano. Mas analisemos as despesas da Câmara: nela, há 254 funcionários
recebendo mais do que o teto municipal, de R$ 24,1 mil. Há quem ganhe R$
59 mil, quase o dobro do teto federal, que é o salário dos ministros do
Supremo. E isso antes do aumento da tal gratificação.
Detalhe: dos 254 que
ganham acima do teto, 133 estão aposentados. Ali não vigora o INSS: é
outra lei, mais boazinha. É proibido regular micharia.
Buscando dinheiro
Uma decisão da
Justiça Federal, na terça-feira, mostrou, a quem ainda não sabia, onde é
que o Governo busca dinheiro para a farra de gastos: foi suspensa a
portaria 75 do Ministério do Planejamento que tirava R$ 203 milhões do
orçamento do SUS, da segurança alimentar, da assistência técnica à
agricultura familiar, de repressão à violência contra a mulher e do
setor de transportes, e transferia tudo para a publicidade – aquelas
coisas de “Ordem é Progresso”, que tanto contribuem para a popularidade
de Temer. A decisão foi do juiz Renato Borelli, da 20ª Vara da Justiça
Federal.
E chega!
Agora é hora de
descansar um pouco da triste realidade brasileira. Este colunista acaba
de ler (e recomenda) uma delícia de livro: “A História da Literatura
Erótica e Meus Contos Malditos”, de Antônio Paixão.
O livro, lançado no
dia 5, foi-me recomendado por um apreciador de boa literatura: o
advogado Orlando Maluf Haddad – aliás, que tal fazer sua biografia, que
inclui o resgate de presos pela ditadura uruguaia, rompendo o cerco da
Operação Condor, que unia os ditadores do Cone Sul da América? Uma nova
tarefa para o bom escritor Paixão.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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