O país tem quase 40 mil
postos de combustíveis. Antes da greve, o preço era livre. Como o
governo vai saber qual o valor então vigente em cada posto? Artigo de
Carlos Alberto Sardenberg, via O Globo:
Vamos falar
francamente: não existe a menor possibilidade de o governo federal
conseguir cumprir as duas medidas principais que prometeu aos
caminhoneiros e empresas de transporte: regular os preços do diesel e do
frete rodoviário. Não porque seja traidor. Mas, primeiro, porque a
tarefa seria impossível mesmo se estivessem lá os melhores técnicos.
Segundo, porque mesmo se os técnicos fossem geniais, os políticos não os
deixariam fazer a coisa certa.
Assim, ao tentar controlar e tabelar dois preços complexos, o governo consegue causar uma enorme confusão. O frete, por exemplo.
No auge da greve, o
governo, via Agência Nacional dos Transportes Terrestres, ANTT, publicou
uma tabela de preços mínimos do frete rodoviário em todo o país. No
detalhe: caminhão por caminhão, eixo por eixo, quilômetro por
quilômetro. Você lê a tabela e parece coisa de gênio: caramba, pensaram
em tudo!
Passam-se alguns
dias, greve já acabou, e simplesmente se paralisa o transporte de soja
no país. Não por outra greve, mas por conta: produtores e empresas
comercializadoras fizeram o cálculo e verificaram que o frete ficou
muito mais caro do que o preço pré-greve, formado pelo mercado. Mais
contas ainda: pequenos e médios agricultores chegam à conclusão de que
valerá mais a pena comprar um caminhão do que contratar frete
terceirizado.
A distorção parece
tão evidente que o pessoal do governo nem discutiu. Quer dizer, o erro
não foi reconhecido formalmente, mas a ANTT ficou encarregada de fazer
outra tabela, ouvindo também a parte do agronegócio. Vai dar errado de
novo, pois os caminhoneiros vão insistir na primeira tabela que, aliás,
está em vigor até que seja feita a outra.
Repararam bem? Tem
uma tabela oficial, mas nem tanto, porque vai mudar. Claro que não será
utilizada. A soja que espere. Ou, seus consumidores que esperem. Ou vai
por fora da lei: um frete a preço de mercado, não de tabela.
E se a tabela for respeitada, sobe o preço dos alimentos, a ser pago por toda a sociedade.
Tudo isso porque o
governo se mete a fazer o que não é possível. Não tem como a tabela
incluir variantes que influem no custo, como a condição das estradas (a
tabela fala em preço por km, o que, na vida real, é muito diferente em
São Paulo do interior do Amazonas). Também não tem como incluir o tempo,
estação de chuvas ou de seca. Ou o estado do caminhão. Ou a habilidade
do caminhoneiro.
Ou seja, qualquer tabela é errada.
A história do preço
do diesel vai pela mesma rota de confusão. Aquela promessa tão repetida
pelo ministro Padilha — o preço cai 46 centavos na bomba a partir de
segunda (passada) — e as ameaças do ministro Sergio Etchegoyen — “vamos
usar o poder de polícia” — viraram palavras mortas.
Não são mais 46
centavos, são 41 — e queda válida a partir dos estoques novos comprados
por distribuidores e postos, podendo entrar em vigor em 15 dias. Os
outros centavos dependem agora da redução do ICMS, um em cada estado.
Quer dizer que no dia
15 de junho estará tudo ok? Que o preço na bomba será o valor de 21 de
maio (pré-greve) menos os 46 centavos? Que a polícia estará lá para
garantir?
Sabem quantos postos
há no país? São 38.535, segundo registro na Agência Nacional de
Petróleo. Até antes da greve, o preço era livre, de mercado, portanto,
diferente por este país afora. Como o governo vai saber exatamente qual o
preço então vigente em cada posto?
Deve ter nota fiscal, sim. Mas os fiscais vão conseguir checar 38.535 postos?
A gente tem que
confiar nas pessoas — sugere o ministro Padilha. Ok, mas e se não for
questão de confiança, mas de sobrevivência econômica? Por exemplo: os
frentistas de um estado fazem uma greve e obtêm aumento salarial. Sobe o
custo do posto, o preço tabelado do diesel fica inviável. Ou, aumenta o
IPTU de uma cidade, também elevando o custo do negócio.
E tem outra
complicação. Uma empresa importadora de combustível entrou com ação no
STF por entender que também tem direito ao subsídio de 30 centavos que o
governo federal vai pagar à Petrobras por litro de diesel. A Petrobras
também é importadora, num mercado legalmente livre, de modo que o
governo está favorecendo uma empresa em detrimento de outras. Faz
sentido, não é mesmo? E lá se vai para o Judiciário.
Sabemos que o Brasil
não gosta muito de mercado e livre concorrência. Mas como é possível que
não se aprenda nada com tantos e tão ridículos fracassos do governo?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário