MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

domingo, 10 de junho de 2018

A desesperança é o ópio do povo


Francisco Viana e Cláudio Pimentel

Tribuna da Bahia, Salvador
08/06/2018 08:37
   


Vamos falar de expectativas? Tê-las ou não tê-las, eis a questão? Receitas comportamentais é o que não faltam, todas convergindo, em síntese, para um mesmo ponto: não ter expectativas seria o melhor antídoto contra o sofrimento. Uma bobagem. Ter expectativas é o sal da vida. Sem expectativas é como viver sem desejos. E quem vive sem desejos é praticamente um morto vivo, um zumbi. Porque desejar é preciso. Não desejar não é preciso. É o desejo que nos dá vontade de viver. Assim, é também a expectativa.
Estamos vivendo um baixo astral desde a última Copa do Mundo, quando às suas vésperas, eclodiu uma série de protestos em todo o país, cujos alvos eram Dilma, Lula, PT e tudo aquilo que tivesse vestígios de esquerda. Na verdade, estávamos deixando de ser o país do futuro, descrito por Stefan Zweig, para voltar a ser o país do passado. Os fatos que vieram a seguir falam por si e nos conduzem a este clima de impossibilidades no cotidiano, nas relações, nos negócios, nas nossas vidas. Enfim, construímos o Brasil do baixo astral.
Assistir, ao vivo, num domingo, no horário do futebol na TV, um Congresso suspeito votando aos brados o sim pelo impeachment da presidente Dilma, evocando Deus, pai, mãe, família, amigos e os mais variados motivos, é algo que vai ficar por muito tempo amargando a história e a vida do Brasil. A isto se seguiram, a posse de Temer, a prisão de Lula, a insegurança jurídica, os desmandos do STF, o desmascaramento dos tucanos, a dubiedade da imprensa e, por fim, a épica greve dos caminhoneiros, revelando toda a fragilidade de um país sem rumo. Claro, a desesperança se instalou e, com ela, os sonhos de milhões de brasileiros foram jogados no lixo. O egoísmo e a falta de expectativa s venceram. E todos nós perdemos.
A greve dos caminhoneiros e a consequente queda do presidente da Petrobras tiveram o condão de revelar, uma vez mais, que o Brasil é um laboratório de crises. Por que? Porque as expectativas do brasileiro estão sendo frustradas. E não é de hoje. Poderíamos dizer, em uma perspectiva mais ampla, que desde o suicídio de Getúlio Vargas, o povo deseja uma coisa, os governantes fazem outra. É como se as expectativas pertencessem a um país e as atitudes dos governantes a outro, mas infelizmente não são. Expectativas e frustrações pertencem a um mesmo país e o resultado é um sofrimento atroz. Talvez, por isso, esteja surgindo a cultura da não expectativa e, como consequência, o ensinamento na da sábio de viver um dia após o outro.
Estamos nos transformando num povo místico, depositando esperanças onde elas não existem, como é comum nessas situações. A desesperança tornou-se o ópio do povo e alimenta a falta de expectativas, a impossibilidade. Nada pior. Estamos em depressão. Tão evidente que levou o jornal espanhol El País a estampar a manchete “Uma sociedade que naturaliza pessoas vivendo nas ruas é hipócrita e autodestruidora”, em sua edição eletrônica, do dia 7 de junho, ao se referir à tragédia do edifício Wilson Paes, matando quatro pessoas, em São Paulo. Uma constatação que fere de morte a demagogia de governantes e a pompa de instituições que se julgam acima do bem, do mal e de todos nós.
Esquecemo-nos que o futuro precisa ser planejado e executado no dia-a-dia. Mais: antecipado. Por que estamos sofrendo um apagão generalizado? Porque viramos uma sociedade de massas sem planejar as necessidades de hospitais, transporte, educação e segurança, só para citar serviços essenciais. A recentíssima greve dos caminhoneiros demonstrou que a política de preços da Petrobras está servindo ao mercado, não ao país e sua gente. A expectativa é outra. Doeu descobrir a ilusão? Doeu. Mas é dai que virá a mudança. Não do não sofrimento e da não expectativa.  O Brasil precisa ter expectativas para criar uma cumplicidade coletiva. Uma cumplicidade para o bem. Essa é que irá nos mover. Trazer o futuro de volta.
*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC-SP).
**Cláudio Pimentel é jornalista, com MBA em Administração de Negócios (UFBa).

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