Já tudo
terá sido dito sobre a semana política que (felizmente já) passou. De
certa forma, ela exprimiu alguns dos mais entediantes traços das modas
culturais que nos rodeiam: o culto das celebridades e da vulgaridade
daquilo que dizem energicamente; o culto da mudança radical e da
inovação, da celebração do futuro em ruptura com o que alcançámos no
passado; o culto do entusiasmo e da exaltação, por contraste com a
serenidade, a cortesia e as boas maneiras.
Isto,
creio, é o que pode ser dito educadamente sobre o discurso de tomada de
posse do Presidente Donald Trump. E é também o que pode ser dito
educadamente sobre os discursos das celebridades (e das massas) que
desfilaram contra ele em Washington (e não só) no sábado a seguir à
tomada de posse. Seria uma triste sina ter de escolher entre um estilo e
o outro — ambos por sinal bastante semelhantes, ainda que opostos.
Mas não
houve só isso, em Washington, na semana passada. Houve também — e creio
que acima de tudo — a solenidade ancestral da transferência de poderes,
pacífica e cortês, numa das mais antigas democracias do mundo. O
Presidente Trump jurou sobre a Bíblia fidelidade à Constituição
americana — tal como fizeram os seus predecessores desde George
Washington. E, no almoço que se seguiu à cerimónia, revelou ser capaz de
estimável contenção e “fair play”: simplesmente destacou e agradeceu a
presença do casal Clinton.
São
estas antigas regras da democracia que permitiram a eleição do
Presidente Trump — que, recorde-se, foi eleito como candidato
republicano sem na verdade ter anteriormente pertencido ao partido
republicano e sem nunca ter desempenhado qualquer cargo político. Foram
essas mesmas antigas regras que permitiram há oito anos a eleição do
primeiro presidente negro americano — menos de duas gerações depois da
batalha pela plena universalidade dos direitos civis na América.
Por
outras palavras, se a democracia americana tem sido capaz de assimilar
tantas mudanças inesperadas, isso deve-se a que a mudança ocorre num
quadro de tradições estáveis. Por outras palavras ainda, grandes
mudanças são possíveis na América porque elas não precisam de recorrer à
Revolução — ou àquilo que no continente europeu se designa
excentricamente por “mudança de regime”.
Esta é a
benção que distingue as democracias mais antigas. Esta é a benção que
devemos destacar nos tempos conturbados que enfrentamos. E é em torno
dela que devem reunir-se as vozes diferentes, tantas vezes rivais, que
em comum partilham a defesa da tradição ocidental da liberdade sob a
lei.
Foi
neste sentido um sinal positivo que o Presidente Trump, poucas horas
depois de tomar posse, tivesse voltado a colocar o busto de Winston
Churchill na sala oval. Churchill, cuja mãe era americana, tinha alergia
a revoluções e acreditava que a ausência delas era um dos principais
distintivos dos povos de língua inglesa. Disse ele sobre a filosofia
política de seu pai, Lord Randolph Churchill:
“Ele
[Lord Randolph Churchill] não via razão para que as velhas glórias da
Igreja e do Estado, do rei e do país, não pudessem ser conciliadas com a
democracia moderna; ou por que razão as massas do povo trabalhador não
pudessem tornar-se os maiores defensores destas antigas instituições
através das quais tinham adquirido as suas liberdades e o seu progresso.
É esta união do passado e do presente, da tradição e do progresso, esta
corrente de ouro [golden chain], nunca até agora quebrada, porque
nenhuma pressão indevida foi exercida sobre ela, que tem constituído o
mérito peculiar e a qualidade soberana da vida nacional inglesa.”
Numa
época em que as modas celebram a inovação e a ruptura, talvez não fosse
pior voltar a cultivar as estáveis tradições — a Churchilliana “corrente
de ouro” — que permitem mudar sem destruir.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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