sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Marina Silva e os alimentos transgênicos.


Em 11 de março de 2002, Marina Silva, senadora ainda pelo PT do Acre, fez um longo discurso atacando os alimentos transgênicos. O que mais surpreende é que em assunto que envolvia tanta tecnologia de ponta e tanta pesquisa pura, a senadora encerrou a sua manifestação buscando na Bíblia as justificativas para a não liberação do plantio de sementes geneticamente modificadas, que, 12 anos depois, colocam o Brasil como o segundo produtor mundial do mundo e um dos grandes responsáveis pela segurança alimentar do planeta. Leiam com atenção:
Sr. Presidente, concluo meu raciocínio fazendo uma breve reflexão sobre o brilhante artigo de Eduardo Galeano, que, ao dizer que a natureza está fora de nós, afirma que em seus dez mandamentos Deus se esqueceu de mencionar a natureza. 
Dentre as leis que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor deveria ter acrescentado algo assim: Honrarás a natureza de que fazes parte. Se Galeano tivesse lido o Pentateuco mais atentamente, teria percebido que não se trata de desatenção de Deus em relação ao meio ambiente. Mentalmente, quando li esse texto, consegui lembrar-me de, pelo menos, cinco referências bíblicas em que Deus é altamente zeloso com o meio ambiente.
Em Gênesis 21,33, o próprio Patriarca Abraão, com mais de 80 anos, resolve plantar um bosque. Quem planta um bosque com quase 100 anos está pensando nas gerações futuras, que têm direito a um ambiente saudável. Era esse o significado simbólico do texto. 
No Êxodo 22,6, há determinação explícita no sentido de que quando alguém atear fogo a uma floresta ou bosque deverá pagar tudo aquilo que queimou. Talvez essa regra seja mais rigorosa do que as do Ibama. 
Com relação aos transgênicos, o livro Levíticos 22,9 expressa claramente que não se deve profanar a semente da vinha e que cada uma deve ser pura segundo a sua espécie.
Tendo em vista o lado espiritual, esse raciocínio não convence. Todavia, considero fundamentais os argumentos elencados, principalmente o de que as empresas se floreiam de verde para vender os seus venenos com uma cosmética melhor para o povo. O argumento de que essa medida servirá para combater a pobreza e a fome não procede, porque dois bilhões de seres humanos continuam passando fome e mais de um bilhão vivem abaixo da linha da pobreza e não sabem sequer o que comerão durante o dia.
Se colocássemos em prática um único mandamento, que é “amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo”, não faríamos o que fazemos com a natureza nem com o homem. Preservaríamos a natureza, porque sem ela não podemos reproduzir a vida. Ela é o nosso Jardim do Éden.
Mas esse é um discurso para outra oportunidade. Apenas ressalto que o Congresso Nacional não pode embarcar nessa “canoa furada”, acreditando que aprovar sem nenhum cuidado a liberação dos transgênicos é dar uma grande contribuição ao desenvolvimento econômico, à ciência, ao combate à fome e à pobreza.
Essa medida pode ser adequada ao lucro imediato de meia dúzia de pessoas que gostariam muito dessa consequência, talvez sacrificando, como sempre digo, recursos de milhares de anos em prol dos lucros de apenas cinco ou dez anos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário