Existem muitas injustiças e inconvenientes, mas a realidade é que a imensa máquina econômica funciona
por Delfim Netto
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publicado CARTA CAPITAL
Caitriana Nicholson/Flickr
O maior mistério do sistema
econômico é como ele funciona a partir de milhões de decisões
independentes, comandadas por sinais tão simples como os preços. Na
realidade tomando-os como dados externos, as pessoas, as empresas e em
parte o governo, determinam o seu comportamento de forma a coordenar o
atendimento dos desejos de todos.
Cada agente, na busca dos seus próprios objetivos (os
consumidores à procura da melhor cesta com seus gastos; os
trabalhadores, no encalço de melhores salários; os agricultores, atrás
da antecipação da quantidade e da qualidade da demanda de seus produtos
para maximizar a sua renda; os industriais atentos à maximização dos
seus lucros; o governo empenhado no atendimento das necessidades
coletivas etc.), orientado pelo sistema de preços, acaba realizando um
trabalho geral aceitável.
É claro que ele não é perfeito.
Existem muitas injustiças, muitos inconvenientes e as pessoas perdem a
sua identidade dentro da imensa máquina. Mas a realidade é que ela
funciona: podemos comprar um lápis em Roraima fabricado com materiais
vindos das mais diversas regiões do mundo com a mesma facilidade e quase
pelo mesmo preço de Curitiba ou São Paulo.
Para Marx, esse sistema era anárquico. Como ainda não se
teorizava o caos, propôs destruí-lo e sobre ele construir outro mais
“racional”, capaz de satisfazer mais inteligentemente a satisfação
humana e não o lucro. Entretanto, como era mais esperto do que os seus
seguidores, nunca perdeu tempo para descrever que novo sistema seria
esse e, mais importante, como poderia ser realizado. Alguns de seus
asseclas tentaram enfrentar por conta própria essa tarefa e os
resultados não foram nada animadores.
Adam Smith, um escocês não
menos brilhante, havia chamado a atenção, quase um século antes, para o
fato de que a anarquia das decisões parecia esconder uma certa ordem que
acabava gerando alguns resultados surpreendentes. Como perguntou ele: 1. Um cidadão anônimo plantou o trigo em um lugar desconhecido. 2. Outro, anônimo, ousou importá-lo ou comprá-lo de um agricultor local desconhecido. 3.
Um industrial anônimo arriscou-se a construir um moinho ao lado de um
curso d´água para transformá-lo em farinha, e finalmente, por que um
padeiro anônimo produziu o pão para um cidadão anônimo do qual supunha
conhecer apenas seus gostos e necessidades?
Entender essa maravilhosa complexidade
tornou-se o objetivo de um novo tipo de conhecimento que às vezes se
chama pretensiosamente de “ciência econômica” e que tem no mesmo Adam
Smith o seu fundador conhecido! A verdade é que até hoje os economistas
não conseguiriam entender corretamente (isto é, de forma a dar-lhes a
mais completa tranquilidade lógica) como o sistema funciona.
É certo que nos últimos 240 anos construíram modelos cada
vez mais sofisticados que imitam o mercado e são povoados por agentes
que coordenam as suas ações por um sentimento de egoísmo e pelos sinais
emitidos pelos preços. Mas as condições para o funcionamento desses
modelos são muito restritivas. Talvez um dos resultados mais abstratos
dessa construção seja um dos teoremas (de pouca utilidade prática) da
chamada teoria do bem-estar: em certas condições (ausência de
externalidade e de economias de escala) existe uma particular
distribuição de renda que permite ao mercado, ou seja, às decisões
descentralizadas, encontrar preços capazes de maximizar a satisfação de
todos os agentes. Não há nada que garanta que aquela distribuição seja
“justa”.
Essas questões
têm levado à tentação de substituir o mercado pelo voluntarismo do
governo no processo econômico. A experiência mostra que há mesmo “falhas
do mercado”, mas que há também, e provavelmente maiores, “falhas do
governo”, devido às suas dificuldades de informação.
Se é absurdo pensar que o mercado resolve todos os
problemas, é ainda mais absurdo sugerir que o governo possa fazê-lo. É
preciso insistir: a organização da economia é apenas um instrumento na
construção da sociedade civilizada. Esta, sim, não se pode fazer sem uma
intervenção inteligente do Estado. Talvez por isso valha a pena ser
economista.
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