Bernardo Kamphuis fez uma jornada de cinco meses até chegar na Bahia. Ele atravessou os EUA, Nicarágua, Equador e Peru
Todos
os dias, ao amanhecer, o holandês Bernardo Kamphuis, 52, tem o
privilégio de acordar com seu grande amor. Nellie está sempre pronta
para tudo, o acompanha onde quer que vá e jamais reclama de nada. “Ela
nunca me decepcionou. É o amor da minha vida”, diz. Nellie, seu
Chevrolet ano 55, com motor V6 original e chaparia laranja de fábrica, o
trouxe de longe para ver de perto “a Copa das Copas”.
Ben e Nellie estão
em Praia do Forte, no Litoral Norte, desde segunda-feira. Ele, um dos
primeiros holandeses a chegar ao Brasil para acompanhar a Laranja
Mecânica no Mundial de futebol, conta os dias para a estreia contra a
Espanha, no dia 13, na Arena Fonte Nova. Ela, apenas faz companhia.
Aliás, sem ciúmes de sua paixão pela seleção nacional e pelas Copas.
Nellie ronca um pouco, mas só quando Ben gira a chave na ignição e
acelera, com todo o carinho.
O holandês Bernardo Kamphuis, 52, e Nellie, seu Chevrolet ano 55, com chaparia laranja de fábrica, em Praia do Forte.(Foto: Alexandre Lyrio)
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Nellie,
na verdade, é quase uma motorhome, uma moradia sobre quatro rodas. A
carroceria, com cobertura em formato de bola de futebol, é equipada com
cama. Um gigante no alto dos seus 2 metros de altura, Ben teve que
cortar Nellie e soldá-la para ampliar o espaço interno.
Estacionou o veículo em um terreno ao lado de uma
pousada, onde usa o banheiro e toma banho. Bastou o CORREIO aparecer
para meter-se em uma indumentária laranja de doer os olhos, calçar seus
tamancos “da Nike”, vestir os óculos gigantes, abrir a bandeira do
Brasil e soltar sua frase preferida: “Meu sangue é laranja”.
NA ESTRADA
Até chegarem a Mata de São João, Ben e Nellie
viveram uma louca aventura que durou nada menos que cinco meses. Em
janeiro, saíram de São Francisco, na Califórnia, onde ele mora há 23
anos. A bordo de Nellie, atravessou as estradas dos EUA, México,
Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Dali,
foi de barco para Cartagena, na Colômbia, de onde seguiu por Equador e
Peru.
Os dois atravessaram 11 países, partindo dos Estados Unidos(Foto: Yordan Bosco)
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Na
porta do carro, as bandeiras de todos os países que a dupla passou.
“Nellie aguentou bem nas montanhas de Machu Picchu (Peru)”, lembra.
“Disseram que eu chegaria ao Brasil em três dias. Mas, com Nellie, durou
duas agradáveis semanas”, conta, dando tapinhas na companheira.
Entraram no Brasil pelo Acre, passaram por Rondônia e Brasília até chegar à Bahia. Uma viagem, calcula, de 20 mil quilômetros.
No
caminho, foi fazendo amizade com os caminhoneiros. “Agradeço muito a
eles pelo apoio. Principalmente ao amigo Chico, de São Paulo. Ele me
acompanhou por cinco dias. Quando nos separamos, me deu o relógio dele
de recordação”, lembra.
Na Bahia, pararam um tempo em Barreiras, seguindo
depois o litoral. “Na estrada, o pessoal vai indicando. Muita gente
falou de Praia do Forte. Queria um lugar tranquilo antes de chegar em
uma cidade grande. Aqui, acordo e dou uma nadada”.
No fundo do carro, a cama onde Ben dorme e lembranças de andanças por aí(Foto: Alexandre Lyrio)
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Em
todos os países que passou, foi deixando sua mensagem contra o racismo e
a discriminação. “One people, one Earth” - um planeta, uma só gente -, é
uma das frases estampadas no carro. Para Ben, é isso que interessa.
Tanto que sequer tem ingressos para os jogos da Holanda. “Vim para
celebrar a união dos povos. O futebol no final das contas serve para
isso. Os olhos do mundo estão voltados para cá e esse é o momento de
passar essa mensagem de unidade. Somos todos iguais”, defende.
CARRO
Nem todos. Ben e Nellie são diferentes de tudo. Além
de cílios enormes nos faróis, Nellie tem uma chaparia incrivelmente
exótica e colorida, com adesivos, mensagens escritas à mão, fotografias e
símbolos por todas as partes. Dentro, há flâmulas de clubes, camisas,
chapéus e penduricalhos de todo tipo. Tem desde uma bolsa com a imagem
de Bob Marley até uma foto em que estão Van Basten, Ruud Gullit e Frank
Rijkaard, craques holandeses do passado.
Dentro de Nellie, bandeiras do Brasil são parte do colorido que toma conta de todo o painel(Foto: Alexandre Lyrio)
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Mas,
diz quem é seu rei: “ Cruyff é nosso Pelé”. Ben nasceu em Twente, na
Holanda, e torce pelo Twente FC. Seus pais morreram há 30 anos e foi
adotado por um casal dos EUA. Trabalhou com portadores de deficiência
mental e física, na Califórnia. “Onde tem um lugar em Salvador que faça
esse trabalho com crianças? Vou lá com Nellie”, diz.
EXPEDIÇÃO
Na
Copa de 1994, Ben viu o Brasil desclassificar a Holanda nas quartas de
final e ser campeão. Pela primeira vez, organizou uma expedição. Não
teve o menor receio de pegar estrada sozinho. Quer dizer, com Nellie.
“Quando soube que a
Copa de 2014 seria no Brasil, fiquei louco. Assim que terminou a Copa
da África, comecei a guardar dinheiro. Não tenho receio nenhum do
contato com as pessoas”, salienta.
Arranhando um portunhol misturado com inglês, as
previsões de Ben dentro de campo são positivas - pelo menos para nós. “O
Brasil tem o melhor futebol do mundo. É difícil pensar em outro campeão
aqui”, reconhece. Mas, não deixa de ter esperanças na sua Holanda.
“Quem sabe? O futebol é imprevisível”, torce. Mas, como ele próprio diz,
o que interessa é que todos falam a linguagem da bola.
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