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A verdade é que os deuses nunca foram flor que se cheire, são invejosos e ciumentos uns dos outros. Luiz Felipe Pondé para a FSP:
Jesus Cristo
é um deus raro, diria único. Ele é justo e amoroso. Isso é incomum na
história dos deuses. O desconhecimento desse fato peculiar faz com que a
maior parte das pessoas à nossa volta cometa um equívoco cabal que é o
seguinte: achar que as religiões são entidades culturais "do bem".
Não
são. A historiadora e teóloga Karen Armstrong, e muitos outros,
entendem que é possível estabelecer um denominador comum entre as
grandes religiões e apontar nelas algum momento em que as religiões
convergem para um discurso ético em que o bem de todos estaria no
centro. Essa é sua empreitada no seu excelente "A Grande Transformação".
Acho
bonita a ideia, mas uma forçada de barra quando aplicada às religiões
históricas, para além de alguns dos seus luminares. Aliás, é muito comum
autores cristãos afirmarem com água na boca —num acesso do pecado da
soberba— que o cristianismo seria, de todas as religiões, a melhor,
justamente porque teria eliminado a ideia de sacrifício animal ou mesmo
humano do horizonte quando sacrificou seu próprio deus inocente —o
cordeiro de Deus— para tirar o pecado de todos do mundo.
Na verdade, o Deus de Israel,
que para os cristãos encarnou em Jesus, já havia, através de seus
profetas, condenado o sacrifício animal quando disse que queria que seu
povo cuidasse das viúvas e dos órfãos em vez de sacrificarem animais a
ele no templo.
Max Weber pensava mesmo que o desencantamento, ou desmagificação, do mundo teria começado com tais profetas e não com a ciência, como supõe o senso comum. Deus teria introduzido a ética no lugar dos rituais mágicos de sangue como forma de relação com ele.
Esse
Deus, assim como Alá, são descritos como misericordiosos, justos, mas
não amorosos como Jesus. Deles pode-se esperar tudo, ainda que seus
seguidores busquem explicar tais males à luz de algo que implica um
final feliz no horizonte. A ideia de que Adonai ou Alá sejam malvados
não parece sustentável, mas, tampouco eles —são o mesmo Deus— seriam
amor, como no caso do cristianismo.
A
teologia cristã se inventou um problema moral enorme ao estreitar a
"natureza" de seu Deus, Jesus, no conceito de amor. A cristologia, parte
da teologia que estuda a "pessoa" de Jesus, criou um Deus
excessivamente bondoso em comparação aos outros inúmeros deuses da
história dos deuses. E com isso, expulsou o princípio divino —o "verbo
que se fez carne"— da dinâmica do mundo.
Evidente
que essa diferença tem sido, para os cristãos, um motivo de orgulho.
Nem todo mundo tem um Deus que seja o bem puro, sem nenhuma marca do mal
em si.
A
própria ideia de sacrifício humano nunca foi estranha às religiões. A
própria história do patriarca Abraão começa com ele achando normalíssimo
que Deus peça a vida do seu filho em sacrifício, ainda que não dê para
dizer que ele estaria exultante.
Na
sequência, Deus proveu a vítima para o lugar da criança, e os dois
voltaram para casa felizes. Mas, se Abraão de cara não achou um completo
absurdo o sacrifício de seu filho é porque na época essa prática
deveria existir.
Sacrificar
humanos ou animais sempre foi uma forma de barganhar com os deuses. O
sangue das vítimas era como uma prestação de honras as divindades
poderosas. Ainda hoje, práticas religiosas no Brasil sacrificam animais,
sem que os veganos branquinhos protetores dos animais soltem um pio.
A
verdade é que os deuses nunca foram flor que se cheire. Invejosos e
ciumentos uns dos outros, violentos ao bel prazer com os humanos,
apegados a honras que os faziam se sentir importantes, guerreiros,
deusas sedutoras belíssimas e cruéis —como costumam ser as mulheres mais
belas—, os deuses são, evidentemente, pura projeção humana.
Ninguém
precisa ser Ludwig Feuerbach, e escrever sua obra de folego, "A
Essência do Cristianismo", para perceber a atividade imaginativa humana
por detrás da teologia.
A
máxima desde Feuerbach é "toda teologia é antropologia". Neste processo
de projeção, o cristianismo seria o único a eliminar as sombras humanas
do coração do seu Deus.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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