BLOG ORLANDO TAMBOSI
Seria possível uma vida totalmente destituída de ‘autenticidade’ ou qualquer profundidade existencial? Fernando Schüler para a revista Veja:
Imagine
o seguinte. Você se acidenta, ou está com uma doença meio sem cura
(bate na madeira) e aí recebe uma opção. Você pode ir até o fim e morrer
de morte morrida, como a gente faz hoje, e tudo termina (não para os
religiosos, o.k., mas esta é outra questão). Ou então você tem a
alternativa de fazer como em Upload, série da Amazon Prime. Sua memória é
toda digitalizada (não me perguntem como), e você instantaneamente
reaparece em um tipo de metaverso, ou realidade digital. Não é
exatamente você, e você sabe que está dentro de um programa, mas há
algumas vantagens. A maior delas é que você efetivamente preserva sua
consciência, de modo que o “penso, logo existo” cartesiano está
garantido. Se sua consciência está lá, então você está lá. A partir daí
há outras pequenas vantagens. Você pode escolher onde quer parar (eu
cravaria Manhattan Beach, sem pestanejar) e a “interface” é toda muito
realista. Tem uns bugs etc., mas nenhuma vida é perfeita, certo? Um
amigo meu que entende dessas coisas disse que estamos “perto” de uma
coisa assim virar realidade. “Uns 100 anos”, disse ele. “Te larguei”,
respondi. “Vou procurar alguém mais otimista.”
A
série é obviamente uma simpática caricatura, mas toca em um antigo
dilema: seria possível uma vida perfeitamente “leve”, destituída de
“autenticidade” ou qualquer profundidade existencial, mas que garantisse
um fluxo contínuo de bem-estar? A questão na hora me levou a Gilles
Lipovetsky e seu livro Da Leveza: Rumo a uma Civilização sem Peso. Ele
tenta compreender o ethos existencial de nossa cultura, e o título me
parece autoexplicativo. Ao contrário do gosto pelo drama e pelos heróis
românticos, no século XIX, e do culto da máquina e das grandes utopias,
na era industrial, nosso mundo gira em torno do comedimento. Da ideia de
viver muito, preservar a saúde, das formas suaves de hedonismo e suas
pequenas utopias. O culto do prazer, das amizades, viagens e esportes de
fim de semana. Das séries da TV e do trabalho com menos estresse, tudo
devidamente temperado com algum “senso de propósito”. Me parece ótimo
tudo isso, e coerente com nossa época que viu dobrar a expectativa de
vida, em pouco mais de um século. Não é nada parecido, por óbvio, com a
utopia radical de Upload. Mas soa como algum lugar no meio do caminho.
É
o oposto do que pregou Zaratustra, o profeta nietzschiano, ao povo
reunido na praça, depois de descer das montanhas. “Eu vos anuncio o
“super-homem”, disse. “O homem é algo a ser superado”, vaticina, e é
recebido com uma gargalhada. Em um certo momento, apresenta o seu
avesso: o “último homem”. O homem pequeno, mas que “tem a vida mais
longa”. O tipo medíocre, que logo será esquecido, que “tem seu pequeno
prazer de dia e seu pequeno prazer à noite”, mas “sempre respeitando a
saúde”. É uma espécie de “pulga”, que saltita imaginando ter “descoberto
a felicidade”. O profeta desdenha, mas a multidão vai na direção
oposta: “Nos dê este último homem, Zaratustra!”. E o profeta se
entristece.
A
cena é um prenúncio de nossa época. A multidão, vamos convir, tem boas
razões para fazer sua escolha. Afinal, qual seria mesmo a vantagem do
“super-homem”? O tipo capaz de “afetar a história indefinidamente”, quem
sabe um Rachmaninoff, depressivo, buscando forças de não sei onde para
compor o seu Concerto em Lá Menor, que assisti dias atrás, na Sala São
Paulo, produzindo, 120 anos depois, o mesmo tremor e arrebatamento nas
pessoas que possivelmente produzirá por gerações e gerações. Ou quem
sabe um Napoleão, um dos heróis de Nietzsche, saindo da Córsega como um
zé-ninguém e redesenhando o mapa europeu. Ou um Goethe, capaz de
“redefinir a cultura alemã”. Tudo realmente extraordinário, mas cá entre
nós, além de complicado e improvável, uma enorme pretensão.
Nietzsche
desprezava o seu “último homem”, um tipo que “torna tudo pequeno”, e
sob certo aspecto reaparece quatro décadas depois no “homem-massa”, de
Ortega y Gasset. O “homem sem nobreza, carente de um “dentro”, que só
tem apetites, que crê que só tem direitos, nunca obrigações.” O sujeito
que estava aí para ser salvo, ou como as pulgas de Nietzsche, ou ao
menos “ensinado” por “minorias seletas” feitas de intelectuais,
artistas, políticos “que não apartassem a razão da vida”. Vai aí uma
recorrência aristocrática e um tanto pretensiosa da visão dos
intelectuais sobre o homem comum. De minha parte, digo o seguinte: o
“último homem” ganhou o jogo. Sua vitória se dá com a afirmação da
cultura do bem-estar, a partir ao menos da segunda metade do século XX.
Nada desse negócio de viver à beira do abismo, fazer drama e morrer
cedo. Nada do apelo romântico, tão caro ao século XIX, quem sabe forjado
pela memória de Napoleão, pela sedução fatal de Lord Byron e sua vida
extrema, sua morte heroica e tuberculosa. Ou da loucura de um Julien
Sorel, o personagem inventado por Stendhal “para mostrar que um homem
que morre no cadafalso pode representar o gênio e a força da vontade
vencendo a mediocridade”, como definiu Jacques Barzun.
Se
alguém quiser ir por este caminho, o.k., mas suspeito que irá
solitário. A multidão, definitivamente, está com o último homem. O homem
que deseja viver bastante, com algum tempero de baixo risco. O tipo que
“mergulha no Mediterrâneo e diz que tudo está bem”, na ótima definição
que escutei de Luc Ferry. De minha parte, acho que faz todo o sentido.
Em primeiro lugar porque efetivamente vivemos mais. A expectativa de
vida foi de 40 para perto de 80 anos, de 1900 para cá, e vai continuar
aumentando. Li que Peter Thiel contratou uma empresa de criogenia, e
sabe-se lá se não vai voltar um dia, e viver infinitamente. Então parece
fazer todo o sentido a aposta nas “paixões suaves”, praticadas com o
devido cuidado, em um mundo que abre cada vez menos espaço para um nobre
inglês depravado como Byron, ou uma figura como Napoleão só serve para
atrair algum turismo, naquela tumba algo démodé, no Les Invalides.
É
aí que voltamos ao Upload e sua caricatura da vida sem
“transcendência”. Um mundo em que podemos visitar o Titanic, no fundo do
mar, embarcar em um passeio espacial, com o Jeff Bezos, ou viver uma
vida filosófica, quem sabe com o próprio Nietzsche, em Sils-Maria. Mundo
em que a própria experiência da “autenticidade”, pode ser adquirida,
sem muito drama. Quem sabe seja este nosso destino, anunciado não por
Zaratustra, mas pela multidão que fazia troça do profeta, naquela praça.
A praça do mercado, das trocas cotidianas, das pequenas utopias sem
peso. Da vida que não deseja erguer nenhum império, afetar a história ou
morrer com algum heroísmo. Esta trilha sem um fim aparente, feita de
grandes perguntas sem resposta, na qual vamos caminhando, caminhando…
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
Publicado em VEJA de 19 de julho de 2023, edição nº 2850
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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