McCartney tem o direito de fazer as porcarias que faz como, em teoria, os restantes mortais teriam o dever de fazer uma fracção das maravilhas que ele fez, e não fizemos. Via Observador, a crônica de Alberto Gonçalves, publicada em 18 de junho:
Há
uma filmagem breve, em 8 ou 16 mm, que mostra Paul McCartney a passear
pelas ruas de uma cidade talvez mediterrânica, cerca de 1966. É um
indivíduo bonito, obviamente jovem, com o penteado impecável, um
impecável fato claro e aquele impecável ar de simplicidade e vaga
surpresa que lhe deu um trabalhão a conseguir. Essas imagens, que vi em
tempos e nunca revi, pedem que se imagine o que seria ser McCartney
naquela idade, no apogeu de uma carreira de dimensão impensável,
beneficiário de uma mistura de popularidade e prestígio sem grandes
precedentes.
As
luminárias intelectuais da época não lhe recusavam o convívio. As suas
canções eram interpretadas pela nata, de Sinatra a Ella, de Bing Crosby a
Sarah Vaughan. McCartney era um símbolo sexual, da moda, da cultura e
da contra-cultura. À escala da música popular, era igualmente um símbolo
cimeiro de talento. Num determinado instante, que durou meia dúzia de
anos, McCartney era o “maior”. E, sob a simpática ligeireza que
afectava, ele sabia-o. E nem assim endoideceu. E isso, a ausência de
loucura, é sobretudo o que o distingue dos parceiros de fama, quase
todos menos famosos e quase todos um bocadinho avariados.
Ao
contrário de Brian Wilson, o único contemporâneo seu concorrente em
competência melódica, McCartney não se enfiou deprimido na cama por uma
década ou duas. Ao contrário de Elvis, a única celebridade comparável,
não se refugiou no peculiar conforto de Vegas e dos hambúrgueres. Ao
contrário de inúmeros outros, não morreu de overdose, nem adoptou 17
esquimós, nem aderiu a um culto, nem apoiou terroristas, nem destruiu
“suites” por desfastio. Ao contrário desse em que vocês estão a pensar,
não se devotou a uma “artista” sem competências discerníveis e a clichés
“contestatários” próprios da pré-adolescência. É verdade que, por
pirraça, McCartney teimou em conceder à mulher um papel público que nada
justificava. É verdade que se tornou vegetariano militante. É verdade
que, para exibir com desfastio as credenciais do ofício, se viu preso no
Japão por posse de marijuana. Insignificâncias, pois. Aos 80 anos
completados hoje, 16 além dos 64 da lenda, crivado de homenagens e
reverência, é possível dizer que McCartney foi um sujeito bastante
“normal” para a vida anormalíssima que viveu. E demasiado normal depois
que “morreu”.
Se
calhar por irritação face à imaculada aura da criatura, em 1967
espalhou-se a história de que McCartney morrera meses antes num acidente
de carro. De facto, a inveja mata, embora apenas num boato lançado por
um radialista americano. E se há boatos que extrapolam um acontecimento
prévio, este antecipou-o. De certa maneira, McCartney finou-se apenas
dois ou três anos depois. Aí por 1970, o autor de boa parte dos
“standards” da segunda metade do século XX abriu falência criativa, que
se mantém em vigor em 2022.
De
1970, data do último semi-clássico,“Junk”, para cá, McCartney compôs,
gravou e publicou centenas de canções, na maioria banais, às vezes
confrangedoras. Das vinte ou trinta que se salvam, nenhuma é
indispensável. O mundo seria exactamente o mesmo sem “Calico Skies” (de
1997) ou “Here Today” (de 1982). Mas o mundo não seria exactamente o
mesmo sem “Penny Lane”, “Mother Natures’s Son”, “I Will”, “Please,
Please Me”, “Michelle”, “Paperback Writer”, “Here, There and
Everywhere”, “For No One”, “Blackbird”, “Helter Skelter”, “She’s Leaving
Home”, “Your Mother Should Know”, “Eleanor Rigby” e, apesar da
enjoativa exposição, “Yesterday”, “Hey Jude” e “Let It Be”.
Para
explicar a crise de inspiração, o fim da competição directa com John
Lennon é uma tese interessante. Não me parece a tese acertada. É costume
os principais “songwriters” da era do “rock and roll” gozarem de uma
musa breve. Os pedaços da obra que realmente interessam em Joni
Mitchell, Smokey Robinson, Leonard Cohen, Lou Reed, Tim Buckley, Paul
Simon e Brian Wilson foram concebidos ao longo de dez anos, no máximo.
Bob Dylan, o génio do bando, espremeu a mais fulgurante colecção de
canções da contemporaneidade entre 1963 e 1966. Em entrevista muito
posterior, Dylan falou do “lugar” de onde essas canções surgiam, um
“lugar” que, confessava, ele já não era capaz de localizar e visitar.
E
então? Assisti a um espectáculo de Dylan em 1993. Passei um terço do
dito com os olhos semicerrados, a tentar substituir o senhor de
meia-idade pela mítica figura escanzelada que indignara os comunistas no
festival de Newport, em 1965. Se pudesse, semicerraria os ouvidos para
não notar a tortura a que ele sujeitou “Just Like a Woman” e “The
Lonesome Death of Hattie Carroll”. Jamais quis assistir a um espectáculo
de McCartney, celebração postiça em pavilhões idem, para evitar novas
figuras tristes.
“Tristeza”
é o termo, a tristeza de descobrir que os heróis são terrenos e a
tristeza de não o aceitarmos. Sem qualquer razão, exigimos às pessoas
que admiramos a iluminação, a consistência e a “pureza” que não exigimos
a nós próprios. A troco de um punhado de belas canções, criamos um
ideal e definimos os critérios sob os quais o ideal é atraiçoado. Dos
Wings até ao disco desgraçado que editou há ano e pouco, com raríssimas
excepções pelo meio, McCartney gravou uma impressionante quantidade de
produtos medíocres e indignos do seu nome. Mas o ponto é esse: McCartney
dispõe de um nome a preservar, e nós, adeptos da preservação alheia,
não dispomos. McCartney tem o direito de fazer as porcarias que faz
como, em teoria, os restantes mortais teriam o dever de fazer uma
fracção das maravilhas que ele fez, e não fizemos.
O
melhor é calarmo-nos. E ouvi-lo: em 1963, 1964, 1965, 1966, 1967, 1968,
1969, 1970 e chega. E sobra. Para nós, ainda bem que Paul McCartney
existiu. Para ele, ainda bem que continua a existir, e sempre a fingir
ser o tipo normal que não é. Ou não foi.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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