terça-feira, 1 de setembro de 2026

Entre casos com estadiamento conhecido, 69% dos cânceres de ovário chegaram aos hospitais em fase avançada

 



Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica

Entre casos com estadiamento conhecido, 69% dos cânceres de ovário chegaram aos hospitais em fase avançada 

Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) na base de dados do Registro Hospitalar de Câncer (RHC) de 2023, mostra diferenças importantes na extensão dos cânceres ginecológicos registrados no país. Setembro é o mês de conscientização sobre essas doenças, que devem somar cerca de 37 mil novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, segundo estimativas do INCA

Quase sete em cada dez registros hospitalares de câncer de ovário com informação disponível sobre o estadiamento correspondiam a doença avançada em 2023. A proporção chegou a 68,8% nos estádios III ou IV, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) realizado a partir do Registro Hospitalar de Câncer (RHC), sob gestão do Instituto Nacional de Câncer (INCA). No câncer do colo do útero, os estádios III e IV concentraram 38% dos registros com estadiamento conhecido. Entre os tumores do corpo do útero, a proporção foi de 36,7%. Os resultados descrevem os casos atendidos pelos hospitais participantes e não representam a incidência, nem todos os diagnósticos ocorridos no Brasil.

Os dados ganham destaque em setembro, mês de conscientização sobre os cânceres ginecológicos. Juntos, câncer do colo do útero, corpo do útero e ovário devem representar 36.980 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, segundo estimativas do INCA. São 19.310 casos anuais de câncer do colo do útero, 9.650 de câncer do corpo do útero e 8.020 de câncer de ovário. A diferença encontrada na extensão da doença registrada nos hospitais é especialmente marcada pelo câncer de ovário. Dos 1.244 casos registrados no RHC em 2023, 855 tinham informação sobre o estádio. Entre eles, 588 estavam nos estádios III ou IV, sendo 270 no III e 318 no IV. Outros 200 estavam no estádio I, 63 no II e quatro no estádio 0. Dessa forma, 31,2% estavam nos estádios 0, I ou II, enquanto 68,8% estavam nos estádios III ou IV.

No câncer do colo do útero, a distribuição foi diferente. Dos 4.667 registros hospitalares de 2023, 3.918 possuíam informação sobre o estádio. Nesse grupo, 2.430 casos, ou 62%, estavam nos estádios 0, I ou II. Outros 946 estavam no estádio III e 542 no IV, fazendo com que as duas fases mais avançadas somassem 38%. Entre os tumores do corpo do útero, que têm no endométrio seu local de origem mais frequente, o padrão foi semelhante. Dos 1.731 casos com estadiamento conhecido, 63,3% estavam nos estádios 0, I ou II. Somente o estádio I concentrou 875 registros, equivalentes a 50,5% dos casos com essa informação. Os estádios III e IV somaram 635 casos, ou 36,7%.

Os números do RHC precisam ser interpretados considerando as características da base. Os registros correspondem aos casos atendidos nos hospitais participantes e não representam todos os diagnósticos ocorridos no Brasil. Além disso, parte dos registros não possui informação sobre a extensão da doença. Por isso, os percentuais usados na comparação foram calculados apenas entre os casos classificados do estádio 0 ao IV.

As diferenças entre os três cânceres também envolvem fatores de risco, formas de prevenção e manifestações. O câncer do colo do útero está diretamente relacionado à infecção persistente por determinados tipos do papilomavírus humano, o HPV, especialmente aqueles associados ao desenvolvimento de câncer. Entre os três tumores, é o único que dispõe de vacinação e de uma estratégia populacional de rastreamento capaz de detectar a infecção por HPV e lesões precursoras antes do surgimento do câncer invasivo.

A vacinação reduz o risco de infecção pelos tipos de HPV contemplados pelo imunizante, enquanto o rastreamento permite identificar a presença do vírus ou alterações no colo do útero. O SUS está implantando gradualmente o teste DNA-HPV como principal método de rastreamento. O exame identifica diretamente o material genético de tipos do vírus associados ao câncer e pode detectar a infecção antes do aparecimento de alterações nas células. Pelas novas diretrizes, é indicado para mulheres e outras pessoas com colo do útero de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual. Onde o teste ainda não está disponível, o Papanicolau continua sendo utilizado.

Para os cânceres de corpo do útero e ovário, não existe rastreamento de rotina recomendado para todas as mulheres sem sintomas e sem risco aumentado. No câncer do corpo do útero, o sangramento vaginal anormal, principalmente depois da menopausa, é um dos principais sinais de alerta. Corrimento anormal e dor ou pressão na região pélvica também podem ocorrer. Entre os fatores associados à doença estão idade mais avançada, obesidade, diabetes, síndrome dos ovários policísticos e síndrome de Lynch.

No câncer de ovário, os sintomas podem ser pouco específicos. Entre eles estão inchaço persistente da barriga, dor abdominal ou pélvica, sensação de saciedade após comer pouco, perda de apetite, alterações intestinais e necessidade de urinar com maior frequência. Algumas mulheres apresentam risco aumentado, incluindo aquelas com histórico familiar ou alterações genéticas herdadas, como mutações nos genes BRCA1 e BRCA2.

De acordo com a cirurgiã oncológica Viviane Rezende de Oliveira, vice-presidente da SBCO, essas diferenças exigem estratégias específicas para cada doença. “No câncer do colo do útero, temos a possibilidade de agir antes que exista um câncer invasivo, com vacinação e rastreamento. Para o corpo do útero e ovário, não temos um exame recomendado para rastrear todas as mulheres sem sintomas. Por isso, é fundamental conhecer os sinais que precisam ser investigados e identificar quem apresenta risco aumentado para que possa receber acompanhamento individualizado”.

O tratamento também depende do tipo de tumor e da extensão da doença. No câncer do corpo do útero, a cirurgia é o principal tratamento para grande parte das pacientes e geralmente envolve a retirada do útero, além das tubas uterinas e dos ovários. No câncer do colo do útero, a cirurgia tem papel especialmente importante nas fases iniciais, enquanto casos mais avançados podem exigir radioterapia e quimioterapia. No câncer de ovário, a operação pode envolver diferentes órgãos e tecidos, e a quimioterapia pode ser realizada antes ou depois da cirurgia.

Segundo o cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes, presidente da SBCO, conhecer a extensão da doença é uma etapa fundamental para definir a estratégia terapêutica. “Câncer do colo do útero, corpo do útero e ovário são doenças diferentes e exigem estratégias específicas, mas em todas elas precisamos saber onde está o tumor e quanto ele se espalhou para definir o tratamento. Quando a cirurgia está indicada, o planejamento deve considerar a extensão da doença, as características do tumor e as condições de cada paciente, sempre dentro de uma abordagem multidisciplinar”, conclui. 

Sobre a SBCO - Fundada em 31 de maio de 1988, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) é uma entidade sem fins lucrativos, com personalidade jurídica própria, que agrega cirurgiões oncológicos e outros profissionais envolvidos no cuidado multidisciplinar ao paciente com câncer. Sua missão é também promover educação médica continuada, com intercâmbio de conhecimentos, que promovam a prevenção, detecção precoce e o melhor tratamento possível aos pacientes, fortalecendo e representando a cirurgia oncológica brasileira. É presidida pelo cirurgião oncológico Paulo Henrique Fernandes (2025-2027).

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