BLOG ORLANDO TAMBOSI
Vale a pena comentar a falta de vergonha necessária para o PS erguer a ex-ministra da Saúde a putativa candidata a Lisboa? Não há razão para a senhora da DGS não ser um nome forte para Belém. Via Observador, a crônica semanal de Alberto Gonçalves:
Vale
a pena comentar as declarações do prof. Marcelo, que acha “a coisa mais
natural” o sr. Lula abrilhantar a cerimónia do 25 de Abril e falar
sobre “liberdade e democracia”? Em primeiro lugar, não faz sentido um
estrangeiro ser protagonista de uma efeméride local. Em segundo lugar, é
tão esquisito um trambiqueiro condenado discorrer acerca de liberdade e
democracia quanto a conferência de um cego sobre Rembrandt. Em terceiro
lugar, o sr. Lula não sabe falar, pelo menos português. Devíamos ter
ajudado o prof. Marcelo a começar os seus mandatos com dignidade: agora é
tarde. E não, não vale a pena comentar.
Vale
a pena comentar o apetite do governo em fixar o preço dos alimentos,
popularíssima receita para a escassez garantida? O governo, que não toca
nos impostos excepto para aumentá-los, não quer saber se os portugueses
conseguem comer: quer que os portugueses culpem os supermercados pela
fome, como quis que culpassem a pandemia, a guerra, o clima, os
senhorios e quem calha pela desgraçada situação em que se encontram. Não
vale a pena comentar.
Vale
a pena comentar as esmolas lançadas às rendas e ao crédito para
habitação? Ao melhor estilo latino-americano – não admira a veneração
pelo sr. Lula –, o governo confisca tudo a todos para depois distribuir
migalhas por alguns, que certamente terão oportunidade de louvar a
generosidade do dr. Costa por contraponto à avareza do Passos. Não vale a
pena comentar.
Vale
a pena comentar a situação do SNS, que continua a desfazer-se em farelo
a cada hora? Dali, as únicas notícias que chegam são as que informam
qual a urgência que vai fechar, a direcção que se demitiu em bloco (não
operatório), o serviço de especialidade médica que sumiu. Ou seja, não
são notícias, mas a rotina da saúde pública quando cai nas mãos de
socialistas incompetentes, expressão que eu sei ser a redundância do
ano. Não vale a pena comentar.
Vale
a pena comentar a falta de vergonha (ou de desavergonhados disponíveis)
necessária para o PS erguer a ex-ministra da Saúde a putativa candidata
a Lisboa? Se bem me lembro, a dra. Temido foi capaz de aliar a
destruição do SNS por via do fanatismo ideológico à aniquilação do
bocadinho que restava por via do fanatismo pandémico. Sob a leviandade
dela, muitos morreram, muitos morrem e muitos morrerão. Consequências? A
autarquia da capital. Não há razão para a senhora da DGS não ser um
nome forte para Belém. Não vale a pena comentar.
Vale
a pena comentar o desvario no ensino estatal, que há três anos não
funciona com sombra de normalidade? Independentemente dos argumentos
pertinentes ou absurdos, das manipulações e dos sindicatos, a verdade é
que o governo tem os professores no lugar desejado, o de bode
expiatório, e as criancinhas também: o caminho da ignorância terminal,
afinal o alimento do socialismo.
Vale
a pena comentar a compra, por uma empresa pública, de nove barcos
eléctricos sem baterias? O ministro do Ambiente já disse que a decisão
“foi a melhor”, precedente que levará a Carris à ponderada aquisição de
trinta e sete motores sem autocarro. Não vale a pena comentar.
Vale
a pena comentar os desenvolvimentos da novela da TAP, de facto um roubo
com demissões à procura de causa, causas à procura de indemnizações,
ministros que nada sabem e ex-ministros que sabiam de tudo? Não vale a
pena comentar.
Vale
a pena comentar o sucedido na Marinha, ou o que acontece quando se
planta um jarrão medalhado a comandar um ramo das Forças Armadas?
Levantar tendas para espalhar injecções e insultar os renitentes não
constitui exactamente um currículo susceptível de inspirar respeito à
tropa. Não vale a pena comentar.
É
isto. Recorri apenas a assuntos falados durante a semana. Na semana
anterior, o cenário não fora melhor. Na próxima é plausível que se
agrave, visto que em Portugal não há caos que não se possa agravar. Sob o
altíssimo patrocínio do governo, do senhor presidente da República e,
em doses distintas, dos demais partidos, o país público atolou-se neste
“freak show” equidistante dos “fundos” de Bruxelas e dos fundilhos de
Caracas. Se o mundo actual possui diversas semelhanças com um manicómio,
os senhores que mandam em nós são os malucos que estão na solitária,
com camisa-de-forças e parede acolchoada. Ou que deviam estar.
Quanto
ao país privado, lá vai andando, uns para longe daqui, os outros, por
enquanto a maioria, para lado nenhum. Os que ficam fazem contas, da
casa, do carro, da roupa, da electricidade, do gás, da água, da comida –
e o resultado está sempre errado. Os salários encolhem. Os negócios,
contanto que lícitos, mirram. O aquecimento improvisa-se com mantas. As
luzes, literais ou simbólicas, apagam-se. Nem a saudinha, dantes tão
precisa, escapou.
E
as pessoas resistem, principalmente a estabelecer o nexo entre a sua
pobreza e os respectivos responsáveis. As pessoas sofrem e calam. O PS
discute o primeiro lugar nas sondagens. Um dia, se por cá sobrar quem
pense e escreva, alguém comentará pasmado estes tempos de massacre e
resignação. Hoje não vale a pena comentar. O pudor não deixa.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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