BLOG ORLANDO TAMBOSI
Se eu tiver que chutar, a burrice me parece uma força mais ativa e mais titânica no mundo do que a maldade. Se houvesse uma figura espiritual que representasse a burrice, uma espécie de grande Felipe Neto espiritual atuando no mundo, ele seria muito mais poderoso do que Satanás. Via Crusoé, a crônica de Alexandre Soares Silva:
Depois
de milênios de filósofos políticos discutindo a natureza do poder, um
ponto que parece impossível de ser resolvido pela mente humana é decidir
se os governos do mundo são malévolos ou simplesmente estúpidos.
Ia
escrever “decidir se as elites são malévolas ou simplesmente
estúpidas”, mas falar em “as elites” pressupõe que não faço parte delas,
o que sempre me parece um pouco humilhante. Prefiro me considerar parte
da elite, na minha cabeça. De algum tipo de elite, pelo menos. A elite
dos que fariam parte da elite se acordassem antes do meio-dia de vez em
quando.
Cada
vez que alguém fala “as elites” em tom acusatório, essa pessoa fica um
pouquinho mais pobre, mais careca, mais desdentada, o cheiro do seu suor
fica um pouco mais azedo, e o seu carro é capaz de quebrar no mesmo
dia. Evitemos a expressão. Falemos em governos do mundo, portanto: os
governos que vemos e que vimos no nosso período de vida — incluindo aqui
o quinto poder, a imprensa — são malévolos ou simplesmente estúpidos?
Obviamente
nada impede que sejam ambos. Mas, se são ambos, o que são mais —
malévolos ou estúpidos? É um assunto fascinante, inapreensível mesmo
pelas melhores mentes humanas, incluindo Platão, Locke e Tocqueville.
O quê, mas nem mesmo Leo Strauss? Nem mesmo Heidegger? Não, temo que nem mesmo a Gabriela Prioli conseguiria entender isso.
A
pergunta é se as coisas chegaram ao ponto que chegaram de acordo com um
plano maligno de milionários, em alguma estação de esqui cem anos
atrás, ou se tudo ficou desse jeito meio sozinho, como um
desenvolvimento natural da burrice dos nossos intelectuais e governantes
(e nossa própria, talvez, talvez).
Se
eu editasse um jornal, eis como eu faria a seção de política: eu a
dividiria em duas colunas. Uma das colunas viria com o título
MALIGNIDADES, e a outra IMBECILIDADES. E assim distribuiria as notícias
do dia.
Recentemente, por exemplo, colocaria na coluna IMBECILIDADES esta notícia:
IMBECILIDADES
O
prefeito de Newark, Ras J. Baraka, assinou um acordo cultural com um
país chamado Kailasa. Durante a cerimônia de assinatura do tratado, na
presença das enviadas de Kailasa usando saris e bindis, o prefeito
discursou dizendo que esperava “… que nosso relacionamento melhore as
vidas de todos, nos dois lugares… que nos ajude a entender a conexão
especial que temos um com o outro… ”. É possível ver as fotos oficiais
da cerimônia na internet — por exemplo, no site oficial de Kailasa, onde
aparecem com a legenda “Os Estados Unidos da América reconhecem os
Estados Unidos de Kailasa e assinam acordo bilateral”.
Mas
só uns dias atrás a prefeitura de Newark descobriu que Kailasa não
existe. É um país fajuto, criado por um guru indiano picareta procurado
pela polícia por estupro.
Podemos
rir da prefeitura de Newark, mas os governos federais são muito
diferentes? O nosso governo? Ou qualquer outro, na verdade? Quando
políticos e militares russos, americanos ou europeus tomam decisões que
podem vir a causar uma Terceira Guerra Mundial, quantos deles conhecem
mais geografia que o prefeito de Newark?
Já
na coluna de MALIGNIDADES colocaria esta, embora saiba que é mais
polêmica (mas eu sou o editor imaginário desse jornal imaginário, me
deixem):
MALIGNIDADES
Durante
as eleições americanas de 2016, Doug Mackey, com o nome de “Ricky
Vaughn”, tinha um dos perfis mais populares do Twitter e era um dos
principais apoiadores de Donald Trump. Dias antes das eleições, Mackey
postou uma piada dizendo que, se alguém quisesse votar na Hillary
Clinton, não precisava nem sair de casa: bastava postar #hillaryclinton
no Twitter e isso contaria como voto. Não se conseguiu provar que alguém
tenha deixado de votar por causa da piada, mas quatro anos depois,
poucos dias depois de Joe Biden assumir a Presidência, Mackey foi preso
pelo FBI, acusado de interferência eleitoral. Se condenado, vão ser dez
anos de cadeia.
É
uma piada antiga no Twitter, que é feita por ambos os lados em todas as
eleições, sem que ninguém além de Mackey vá preso por isso. A
comediante Kristina Wong, por exemplo, pode ser vista num vídeo de 2016
do YouTube fazendo a piada em sentido contrário, contra os eleitores de
Trump. Nada, obviamente, aconteceu com ela.
Quase
no final das páginas do jornal eu colocaria uma caixa com o título
“MALÉVOLO E IMBECIL”, registrando os casos, não exatamente raros, em que
o governo é ambos em doses mais ou menos iguais; e bem no final da
página uma caixa intitulada NEM MALÉVOLO NEM IMBECIL, para registrar os
casos, bastante raros, talvez meramente mitos, em que o governo não é
nenhum dos dois.
Não
sei, a rigor, se haveria mais notícias na coluna de Malignidades ou na
de Imbecilidades. O dia a dia do jornal serviria para resolver essa
questão milenar: mais notícias vão para uma coluna ou para a outra?
Se
eu tiver que chutar, a burrice me parece uma força mais ativa e mais
titânica no mundo do que a maldade. Se houvesse uma figura espiritual
que representasse a burrice, uma espécie de grande Felipe Neto
espiritual atuando no mundo, ele seria muito mais poderoso do que
Satanás.
Postado há 6 days ago por Orlando Tambosi

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