Ele é conhecido por respeitar a hierarquia da caserna, mas não costuma levar desaforo para casa. Crusoé conta a história do contra-almirante Antonio Barra Torres, chefe da Anvisa, que desafiou o presidente da República e ganhou. Por Fábio Leite:
O
staff palaciano se preparava para uma visita de Jair Bolsonaro às obras
de um hospital de campanha em Goiás, em abril de 2020, bem no início da
pandemia, quando um assessor saiu à caça de um colete do SUS. O
presidente queria participar da cerimônia paramentado com a peça, para
chamar mais atenção. Luiz Henrique Mandetta, que seria demitido do
Ministério da Saúde na semana seguinte, entendeu que não era uma boa
ideia. Ao ouvir o pedido do auxiliar presidencial, disse que não tinha
um colete para emprestar ao chefe. Antonio Barra Torres,
diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a
Anvisa, estava pronto para atender a demanda. Ele já havia levado
consigo para o evento um colete da própria Anvisa personalizado com o
nome do presidente. Bolsonaro, então, seguiu o ritual de sempre: ignorou
o protocolo, tirou a máscara e cumprimentou apoiadores.
Embora
pareça trivial, o episódio é simbólico para quem repete como mantra a
necessidade de “vestir a camisa” da instituição a que serve. É o caso de
Barra Torres, de 57 anos. Contra-almirante da reserva da Marinha, ele
foi escolhido por Bolsonaro para dirigir a Anvisa por ser, além de
médico, um militar. Desde que ascendeu ao comando da agência como
interino, no fim de 2019, Barra Torres tem feito questão de defender
publicamente as decisões do órgão, que está no centro de polêmicas desde
o início da pandemia, por deliberar sobre vacinas e medicamentos contra
a Covid-19. Foi assim, por exemplo, nas críticas feitas por opositores
do governo quando a Anvisa suspendeu os testes da Coronavac, a vacina
patrocinada pelo governador paulista João Doria, no fim de 2020. E foi
assim nas críticas feitas por aliados do Planalto por causa da rejeição
ao imunizante russo Sputnik V, encampado pelo bolsonarismo. Nenhuma das
respostas, porém, teve o tom duro usado por Barra Torres para rebater os
recentes ataques proferidos contra a agência pelo próprio presidente da
República.
Na
noite do último sábado, 8, o chefe da Anvisa divulgou uma nota dura
cobrando uma retratação de Bolsonaro pelas insinuações de que haveria
algum interesse escuso por trás da decisão da agência de liberar a
vacinação infantil contra a Covid. “Qual o interesse da Anvisa por trás
disso aí? Qual o interesse das pessoas taradas por vacina?”, havia dito
Bolsonaro dois dias antes, durante uma entrevista a uma emissora de
rádio do Nordeste. “Se o senhor dispõe de informações que levantem o
menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem
prevarique, senhor presidente. Determine imediata investigação policial
sobre a minha pessoa, aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na
Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar”, reagiu Barra
Torres. “Agora, se o senhor não possui tais informações ou indícios,
exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor
tanto cita, se retrate. Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há
muita guerra pela frente”, completou. Foi a primeira vez, desde o início
do governo, que um militar enfrentou o presidente de peito tão aberto e
de maneira tão eloquente, e em público.
Barra
Torres passou a tarde de sábado discutindo com os outros quatro
diretores da Anvisa o teor da resposta que deveria dar a Bolsonaro.
Havia um consenso de que era preciso repelir publicamente as insinuações
do presidente depois que os próprios dirigentes da agência passaram a
ser alvo de ameaças por causa da liberação da vacina da Pfizer para
crianças de 5 a 11 anos, aprovada em dezembro – as ameaças estão sendo
investigadas pela Polícia Federal. Algumas versões da nota foram
rascunhadas, mas Barra Torres considerou o conteúdo técnico demais. Ele
quis dar um peso mais político ao texto e, por isso, redigiu uma carta
de cunho pessoal, destacando sua trajetória com valores defendidos pelo
bolsonarismo: a formação militar, a família e a religião. Ao assinar a
nota, Barra Torres faz questão de pontuar que, além de presidente da
Anvisa, é médico e contra-almirante da Marinha, o que ressaltou o feito
inédito.
O
tom surpreendeu o Planalto e os funcionários da Anvisa, que já
esperavam um posicionamento do chefe em defesa da instituição.
Bolsonaro, por óbvio, não gostou. O presidente se queixou da carta
dizendo, primeiro, que ela era “agressiva” e que “não tinha motivo para aquilo”
porque “ninguém acusou ninguém de corrupto”. Depois, criticando Barra
Torres por desrespeitar valores que são caros aos militares. “Aqui não é um quartel, mas devemos ao máximo zelar pela hierarquia e disciplina,
senão não funciona. Não briguei com o presidente da Anvisa. Questionei
sobre um assunto que tinha de ser questionado”, afirmou, durante
discurso no Palácio do Planalto. O presidente também disse que Barra
Torres “ganhou luz própria” após assumir mandato na Anvisa e que “se
tivesse tido convivência” com ele, “talvez não o tivesse indicado”. No
fim das contas, Bolsonaro “afinou”. Foi obrigado a recuar porque, se
mantivesse viva a suspeita, poderia ser instado judicialmente a provar o
que disse. Alternativamente, se houvesse algum elemento concreto que
embasasse a afirmação, restaria a pergunta: como autoridade pública, por
que ele não agiu antes? Se não agiu, prevaricou. O xeque-mate de Barra
Torres deu certo.
Para
militares da reserva ouvidos por Crusoé, a “independência” assegurada
pelo mandato de cinco anos na agência deu a Barra Torres a segurança
necessária para destoar do comportamento padrão de integrantes das
Forças Armadas com cargos no governo e rebater Bolsonaro — o mandato do
contra-almirante vai até dezembro de 2024. “Creio que esse
posicionamento esteja mais ligado até à natureza do cargo que ele ocupa,
com mandato estabelecido e do qual não pode ser demitido, do que ao
fato de ele ser da Marinha, que sempre foi uma força mais discreta e
diplomática que o Exército, onde o presidente tem mais influência porque
foi onde ele fez a carreira militar”, afirma um general da reserva que
já atuou no governo.
A
relação entre Barra Torres e o presidente teve início em 2013, quando
Bolsonaro ainda era deputado federal e visitou o Hospital Naval Marcílio
Dias, onde o contra-almirante era diretor, no Rio de Janeiro, para
acompanhar a entrega de equipamentos comprados com dinheiro de emendas
parlamentares. Bolsonaro estava acompanhado dos três filhos políticos na
ocasião e a ótima impressão deixada por Barra Torres fez com que o clã
passasse e prestigiá-lo com menções nos inúmeros eventos militares nos
quais eles se encontrariam dali em diante. Em fevereiro de 2019, o
oficial entrou para a reserva remunerada da Marinha, depois de trinta
anos na força, e comunicou a Bolsonaro em um encontro da corporação que
estava à disposição para assumir qualquer “missão” no governo. Meses
depois, veio o convite para assumir o cargo de diretor da Anvisa. Ao ser
sabatinado no Senado, o contra-almirante foi questionado sobre como
agiria sob pressão. “Pressão a gente recebe, depura e continua
trabalhando”, respondeu.
Àquela
altura não havia a pandemia, mas a Anvisa já estava sob forte pressão.
Os bolsonaristas estavam inconformados com a tentativa do então
presidente da agência, William Dib, indicado por Michel Temer, de
aprovar a liberação do plantio de maconha para fins medicinais no
Brasil. Eles queriam emplacar um dos seus na estrutura do órgão.
Referenciado pela cúpula militar, Barra Torres foi nomeado por Bolsonaro
e, meses após assumir o cargo, ajudou a barrar a medida, cacifando-se
para assumir o comando do órgão em 2020, após o término do mandato de
Dib. Pesou a favor a formação religiosa de Barra Torres, que é cavaleiro
da Ordem de Malta, uma organização que surgiu no século XI como um
braço militar da Igreja Católica e hoje promove ações humanitárias. Vez
ou outra, ele usa uma máscara de proteção contra a Covid com a insígnia
do grupo religioso.
Rotulado
como o “diretor bolsonarista da Anvisa”, Barra Torres causou
desconfiança interna ao recrutar outros militares para o seu gabinete –
seus dois principais auxiliares são oficiais do Exército. O trabalho na
agência exige conhecimento e atuação eminentemente técnicos, e havia
receio de que ele agisse guiado pelos interesses políticos do Planalto. O
temor se agravou depois que Barra Torres participou, sem máscara, de
uma manifestação a favor de Bolsonaro e contra o Congresso e o Supremo
Tribunal Federal, em Brasília. Na ocasião, a associação que representa
os funcionários da Anvisa divulgou uma nota de repúdio, manifestando
“consternação” com a atitude, que contrariava as orientações da
Organização Mundial da Saúde, a OMS.
Antes
disso, Barra Torres já havia aconselhado Bolsonaro a desautorizar o
então ministro Luiz Henrique Mandetta e determinar a revogação da ordem
que impedia a saída de cruzeiros no país para tentar frear a
disseminação do coronavírus. De pronto, foi atendido. O presidente
também explorou politicamente outras decisões da agência, como a que
suspendeu temporariamente os testes da Coronavac, no fim de 2020, após a
ocorrência de um “evento adverso grave não esperado” — depois
registrado como suicídio de um voluntário, sem qualquer relação com o
imunizante. Na ocasião, Barra Torres convocou uma coletiva para
reafirmar que a decisão era “técnica” e negar que tenha havido qualquer
interferência política. A atuação à frente da agência rendeu um convite
para participar da live semanal que Bolsonaro promove em suas redes
sociais. Na transmissão, no início de 2021, as primeiras divergências
envolvendo a vacinação começaram a ficar mais explícitas. “Você vai
vacinar?”, perguntou Bolsonaro. “Eu vou, é claro. A vacina que tiver no
posto”, respondeu o chefe da Anvisa. “Eu vou te acompanhar”, emendou o
presidente. “Já é um começo”, completou Barra Torres.
Bolsonaro
começou a live ressaltando a autonomia da Anvisa. “Deixo bem claro que a
Anvisa é um órgão independente, não faz parte do meu governo”, disse.
Considerado “metódico” e “regimentalista” pelos colegas de trabalho,
Barra Torres levou a blindagem garantida pela lei ao pé da letra, como
deve ser. Seu desprendimento do bolsonarismo foi escancarado na CPI da Covid
no Senado. A percepção de senadores de oposição que viam o
contra-almirante com ressalvas mudou assim que ele assumiu o microfone e
confirmou a existência de uma reunião revelada também em depoimento
pelo ex-ministro Mandetta, na qual integrantes do chamado “gabinete
paralelo” discutiram alterações na bula da cloroquina para usar o
medicamento contra a Covid. Aos senadores, Barra Torres disse ter sido
contra a ideia defendida pelos bolsonaristas porque os estudos mostram
que o remédio não tinha eficácia comprovada.
“Foi
um divisor de águas para os olhos do G7 (grupo majoritário da CPI) por
uma série de fatores”, avaliou Omar Aziz, que presidiu a CPI. “Ele
contou ter sido ‘deselegante’ ao rejeitar a ideia de mudança da bula da
cloroquina para a prescrição a pacientes com Covid. Falou em favor do
isolamento. Nos explicou de forma didática o ‘não’ da Anvisa a algumas
das vacinas. Eu, que havia perguntado por que a Sputnik não seria boa se
até Vladimir Putin havia tomado a vacina, tive o esclarecimento de que a
agência não poderia atestar a segurança do imunizante por não ter
informações de todos os doze laboratórios que o fabricavam. Naquele
momento, vimos que ele não priorizava mais o alinhamento com o
Planalto”, completou o senador. Desde então, Aziz estreitou laços com
Barra Torres. No dia em que o chefe da Anvisa cobrou uma retratação de
Bolsonaro, Aziz havia lhe mandado um vídeo em que demonstrava apoio à
equipe técnica da agência. Recebeu um agradecimento pela solidariedade.
Para
um ex-colega de trabalho, Barra Torres percebeu rapidamente que, se não
se vacinasse contra as sandices bolsonaristas, sofreria um dia as
mesmas consequências que hoje pesam sobre o general Eduardo Pazuello,
ex-ministro da Saúde que foi alvo de um pedido de indiciamento da CPI e é
investigado pelo Ministério Público Federal. Entre a credencial de
“amigo do presidente” e o colete da Anvisa, Barra Torres optou pelo
segundo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI



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