Coluna de Carlos Brickmann, publicada nos jornais deste domingo:
O
truque ainda funciona, mas é antigo: os americanos o chamam de “smoke
gets in your eyes”, fumaça nos olhos. Escolha um dia de calor,
agasalhe-se pesadamente, entre numa loja de móveis e peça um prato
feito. Tome o ônibus, queixe-se do cheiro e prometa importar perfume
francês, caríssimo, para resolver o problema. Todo mundo vai comentar as
loucuras. Enquanto isso, a roubalheira vai comendo solta e passando
despercebida. Como dizia o ex-ministro, é a hora de aproveitar e ir
passando a boiada.
Criam-se
discussões sobre voto impresso, sobre Bolsonaro usar máscara, e
enquanto isso se recria o Ministério do Trabalho só para dar um emprego a
Onyx Lorenzoni (que será que ele sabe que nós não sabemos?) Em 2018, o
Ministério do Trabalho custou R$ 90 bilhões. Aquele general que passou
um ano no Rio comandando a segurança e falando grosso agora fala grosso
contra eleições realizadas de acordo com a lei, e com o mesmo efeito:
zero.
Mas
os 15 ministérios prometidos por Bolsonaro já são 28; e seis mil
militares se instalaram no Governo, ganhando os soldos mais o salário do
cargo. Dilmo (ops, Bolsonaro) soma mais cinco com menos quatro e diz
que dá nove. Só se fala nisso, enquanto Ciro Nogueira vira ministro e a
senhora sua mãe vai ocupar, como suplente, a cadeira dele no Senado. A
mãe e o filho da mãe já se garantiram. Ciro é a prova de que a verdade
sempre vence: ganhou o cargo mesmo tendo dito, em 2017, que Bolsonaro
era fascista.
Jade comenta
Jade,
a linda gata que se notabilizou pela precisão de sua análise política,
está confusa: o vice-presidente Hamilton Mourão disse que haverá
eleições, com ou sem voto impresso, porque não somos uma república das
bananas. Jade gostaria de saber por que, então, de repente, surgiram
tantos gorilas.
A chave do segredo
Quando
o mundo foi criado, foram criadas também a Ética e a Política, mas como
departamentos diferentes. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra
coisa, e ambas não se misturam. Pensando só em política, o Centrão é
coerente: sempre quer cargos e vantagens e não tem culpa de que os
governos mudem. Ditadura não é bom: não que se roube menos, mas a
partilha é feita de acordo com a vontade dos ditadores. Na ditadura,
teve construtora virando empreiteira, teve empreiteira para a qual não
pagaram, e como reclamar?
Na
briga, o perdedor é sempre o mesmo: o cidadão. O Centrão, pelo menos,
não se interessa em acabar com a democracia; e tem a fé inabalável de
que, aqui, sempre haverá como negociar com os eleitos. Sabe como é ruim
botar fanáticos ideológicos, armados ou não, negociando contratos com
multinacionais profissionalíssimas e muito bem assessoradas.
Falta equilíbrio
Bolsonaro
está sendo malhado por dizer, em ocasiões diferentes, as frases:
“Centrão é o que há de pior no Brasil”, e agora, ao chamar Ciro Nogueira
para o Governo, “eu sou Centrão”.
É injusto atacá-lo por dizer a verdade.
Acredite se quiser
Não
faltavam nem dois anos para o general Luiz Eduardo Ramos, então
comandante militar do Sudeste, se reformar. Mas não resistiu ao chamado
de Bolsonaro e assumiu a Secretaria Geral do Governo. Dali foi para a
Casa Civil. Seu balanço é bom: coordenou a distribuição de recursos e
manteve sua imagem intacta. Mas ocupava um lugar que o Centrão queria.
Foi substituído sem saber que estava com a cabeça a prêmio: como disse,
sentiu-se atropelado por um trem. Como consolo, fica no palácio ao lado
de Bolsonaro, a quem dedica algo incomum na política: um olhar de
carinho a quem, imagina, é seu amigo há tantas décadas.
Mortos de ofício
Alguns
políticos de oposição, quando foram se vacinar, descobriram que no
cadastro no SUS constavam como mortos. Entre eles, a presidente nacional
do PT, Gleisi Hoffmann; Manuela d’Ávila, PCdoB, candidata a vice de
Fernando Haddad; Guilherme Boulos, um dos dirigentes do PSOL. No
registro de Boulos, nome de pai e mãe tinham sido substituídos por
ofensas.
Imprensa livre x JBS
A
JBS pediu que o advogado Frederick Wassef abrisse inquérito contra
Paulo Tadeu (Editora Matrix), a empresa Paper Excellence e o jornalista
Cláudio Tognolli por formação de quadrilha. Motivo: Tognolli publicou
quatro livros sobre a JBS. A Delegacia Antissequestro acatou todos os
pedidos e por três vezes pediu à Justiça busca e apreensão mais prisão
preventiva de Tognolli e Tadeu. Os três pedidos foram negados e nesta
semana o TJ engavetou o caso, seguindo parecer do Ministério Público de
que as acusações eram “delirantes”. O pano de fundo é a disputa pela
Eldorado Celulose. A arbitragem deu vitória à Paper Excellence pela
posse da Eldorado. A JBS não acatou a arbitragem e ainda não devolveu a
Eldorado.
O caso dos livros foi usado para tentar desacreditar a arbitragem.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário