O caso de Laurel Hubbard, da Nova Zelândia, uma fera do levantamento de peso, expõe uma questão ainda sem solução definitiva. Vilma Gryzinski:
Quando
era homem e se chamava Gavin Hubbard, ele chegou a quebrar recordes no
levantamento de pesos, um dos esportes mais exigentes.
Aos
35 anos, tornou-se uma mulher trans. Uma transição relativamente
tardia, mas para a qual levou sua experiência como atleta – palavra
felizmente neutra -, o desejo de continuar a competir e a discussão
ainda sem resposta razoável a uma pergunta difícil: é possível não
praticar qualquer tipo de discriminação e ao mesmo tempo não deixar em
desvantagem mulheres biológicas, com ossatura e musculatura naturalmente
mais reduzidas?
Agora,
aos 43, já como Laurel Hubbard, depois de vencer uma aparentemente
insuperável ruptura de ligamentos no cotovelo direito, tornou-se a
primeira atleta transexual a ser qualificada para as Olimpíadas na
equipe feminina da Nova Zelândia.
Hubbard
não fez cirurgia para tirar os órgãos reprodutores masculinos, mas
preencheu o requisito do Comitê Olímpico Internacional sobre o nível de
testosterona no sangue – inferior a 100 nanogramas por decilitro de
sangue. Num homem adulto jovem ou de meia idade, o nível oscila de 300 a
900 nanogramas. Nas mulheres, na faixa dos 21 anos e até a menopausa,
vai de 12 a 60.
O
princípio da inclusão não pode ser seguido à custa dos outros, reclamou
a atleta belga Anna Vanbellinghen, que compete na mesma categoria acima
de 87 quilos.
“Qualquer
pessoa que tenha treinado levantamento de peso como atleta de ponta
sabe que isso é uma verdade visceral, é uma situação injusta para o
esporte e para as atletas”.
“Essa coisa toda parece uma piada ruim”.
A halterofilista belga provavelmente resumiu o sentimento natural de muita gente.
Mesmo
tendo deixado de ser homem, na sua psique e em certas características
físicas, moldadas pela ingestão de hormônios femininos, Hubbard continua
a desfrutar de vantagens injustas sobre competidoras que nasceram
mulheres?
Entre
os cientistas estudiosos dos corpos humanos, não existe consenso. O
desejo de ser politicamente correto e de não ferir os sentimentos de
pessoas que já suportam as complexidades da transição de gênero também
influem no julgamento.
A
revista Scientific American, por exemplo, foi buscar uma comparação
basicamente absurda ao defender o seguinte em relação à participação de
transgêneros em competições esportivas de escolas do segundo grau:
“A
noção de que meninas transgênero tenham uma vantagem indevida vem da
ideia de que a testosterona causa mudanças físicas como o aumento de
massa muscular. Mas as transgêneros não são as únicas garotas com altos
níveis de testosterona. Cerca de 10% das mulheres têm síndrome de
ovários policísticos, que resulta em altos níveis de testosterona. Elas
não são proibidas de participar de competições femininas”.
É
provavelmente um dos mais idiotas argumentos de todos os tempos. Mas
tem mais. A revista cita uma especialista de Yale, Katrina Karkazis, que
disse o seguinte: “Estudos sobre os níveis de testosterona em atletas
não mostram nenhuma relação clara e consistente entre testosterona e
desempenho atlético. Algumas vezes, a testosterona é associada a um
melhor desempenho, mas outros estudos mostram um elo fraco ou nenhum
elo. E outros mostram que a testosterona é associada a um pior
desempenho”.
É
um claro exemplo de como a ciência também pode ser politizada ou
ideologizada para atender conceitos considerados socialmente desejáveis.
Um
dos casos mais conhecidos da “batalha da testosterona” envolve a
sul-africana Caster Semenya, campeã olímpica dos 800 metros e eterna
protagonista de uma discussão sem fim.
Semenya
tem hiperandrogenismo, disfunção caracterizada por altos níveis de
testosterona. Ela apelou – e perdeu – da decisão segundo a qual atletas
com Diferenças de Desenvolvimento Sexual que são mulheres com testículos
e cromossomas XY – ou seja, basicamente homens pelos mandamentos da
biologia -, devem tomar anticoncepcionais que aumentam os níveis de
hormônios masculinos ou remover cirurgicamente os testículos.
O
caso de Semenya ilustra o que muita gente já sabe: mesmo em níveis
extremamente minoritários, existem pessoas que escapam às
caracterizações predominantes do que é homem e o que é mulher. E existem
também aquelas que, mesmo incluídas nessas caracterizações, têm plena
convicção de que não pertencem a elas.
Como
não discriminá-las sem criar uma outra injustiça? Não existem respostas
fáceis. Os organismos esportivos tentam acompanhar as mudanças sociais e
também podem ser intimidados pelo temor de serem chamados de
transfóbicos – uma ofensa terrível nos tempos atuais, quase como
racista.
As
competições esportivas são uma das áreas em que mulheres podem se
sentir ameaçadas por competidoras trans que foram homens biológicos.
No
outro lado do espectro, mulheres biológicas que se transformaram em
homens trans, mas não mudaram o aparelho reprodutivo, fazem campanhas
para que palavras como “mãe”, “maternidade”, “aleitamento materno” e
correlatas sejam eliminadas do vocabulário, principalmente nos serviços
de saúde de países como a Grã-Bretanha, onde o movimento trans é muito
forte.
O
absurdo chegou a ponto de produzir, no lugar das palavras mulher ou
mãe, expressões forçadas como “pessoas que dão à luz”, “pessoas que
menstruam” ou “pessoas com cérvix”.
“Pessoa”,
evidentemente, pode ser uma palavra neutra. Ou carregada de um peso
ofensivo e excludente. A linguagem, como os espaços esportivos, pode ser
um campo minado.
Por
causa disso, todos os olhares estarão focados em Tóquio quando Laurel
Hubbard entrar na competição. Num malabarismo mental de dar nó em pingo
d’ água, haverá até quem torça para que perca e mostre, assim, que é
apenas mais uma atleta feminina, competindo em igualdade de condições
com outras mulheres.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário