Além
de alternativa de investimento de risco, as moedas digitais tornam-se
um componente do jogo geopolítico. E a China está na liderança. Dagomir
Marquezi, via Oeste:
Existem
assuntos difíceis. E existem assuntos impenetráveis, como os tratados
de alquimia, os manuais de usinas nucleares e as criptomoedas (ou moedas
digitais). A não ser que você seja um especialista no tema (eu não
sou), terá muita dificuldade para compreender as profundezas desse
misterioso mundo das moedas virtuais.
Mesmo
sem que a gente entenda direito, essa nova forma de moeda já está
influenciando nossas vidas. No dia 16 de novembro, teremos a implantação
do PIX no sistema bancário brasileiro. O dinheiro vai circular com mais
agilidade, menos custo e mais fluidez.
O
PIX é um “filhote” dessa era de litecoins, ethereum, tether, binance,
tron, chainlink, polkadot, tezos e tantas outras moedas enigmáticas para
os leigos. O bitcoin foi só o pioneiro.
A
maioria dos economistas aposta que a digitalização das finanças é um
caminho sem volta. Cédulas e talões de cheque são relíquias de séculos
passados, meios inseguros e pouco práticos de fazer circular riquezas. A
pandemia de covid-19 só acelerou esse processo de digitalização. Pagar
ao feirante em notas e receber o troco virou um ato arriscado passível
de contaminação. A criptomoeda foi a resposta natural para um mundo cada
vez mais integrado e cansado de pagar altas taxas bancárias e enfrentar
burocracias nacionais.
Algumas perguntas que você pode se fazer sobre moeda digital:
O que é?
A
criptomoeda, ou moeda digital, é um dinheiro “paralelo”, independente
do sistema financeiro que conhecemos. Começou como um experimento
fechado e virou um mercado de US$ 350 bilhões. Calcula-se que o Brasil
tenha 1,4 milhão de investidores em criptomoedas. Já é pouco menos da
metade do número de investidores cadastrados na B3, a Bolsa de Valores
de São Paulo (3,4 milhões em abril).
Quando foi criada a criptomoeda?
Em
2008 foi publicado um protocolo inicial assinado por Satoshi Nakamoto —
que ninguém sabe se é uma pessoa real ou a assinatura coletiva de um
grupo de pessoas. Esse relatório descrevia o funcionamento de uma moeda
ágil, segura e anônima que operava a partir de um sistema chamado
blockchain. A ideia era criar uma moeda que funcionasse entre pessoas
sem a dependência de instituições bancárias e a influência de governos.
Assim nasceu o bitcoin, a primeira moeda digital.
Como funciona?
Valores
são criados a partir de complexos algoritmos matemáticos. Esses enigmas
precisam ser “garimpados”. “Garimpar” quer dizer resolver essas
questões com o uso de um chip chamado ASIC. O dono do computador que
consegue decifrar o problema leva uma fração do valor do bitcoin
decifrado. E uma nova moeda entra em circulação.
É possível comprar criptomoedas?
Sim.
No Brasil existem muitas corretoras na internet que negociam moedas
digitais já “garimpadas”. A princípio, o procedimento parece simples
como negociar ações ou aplicar em fundos. Conforme avançamos no
cadastramento, percebemos que vai ficando mais complicado. E despertando
menos confiança. Não é uma aventura confortável para quem ainda não tem
experiência nessa área.
Quais as maiores críticas às criptomoedas?
*Como investimento, enfrentam variações extremas de preç Um bitcoin valia US$ 13 no início de 2013, subiu a US$ 266, caiu para US$ 60 e disparou para US$ 1 mil no fim daquele mesmo ano (hoje, vale mais de US$ 11 mil);*A rede de garimpo de bitcoins (segundo levantamento do The New York Times em 2018) consome a cada dia a mesma quantidade de energia elétrica que “um país médio”, como Chipre;*Por não serem controladas, são fartamente usadas por redes de traficantes e terroristas;*Não têm lastro nem garantia. Um caso exemplar aconteceu com a corretora japonesa MtGox, que chegou a negociar 70% de todos os bitcoins do mundo. Num belo dia de fevereiro de 2014 a Mt.Gox suspendeu as atividades, fechou o site e declarou falê Os investidores viram US$ 450 milhões desaparecer nas mãos de hackers.
Se é tão arriscado, por que tanta gente aplica em criptomoedas?
Especialistas
em investimentos costumam dizer que não é nenhum absurdo aplicar em
criptomoedas. Muitos deles inclusive aplicam. Mas, por ser um
investimento de altíssimo risco, aconselham que ninguém deve colocar em
criptomoedas uma parcela grande de suas reservas. Esse é um território
ainda pouco explorado e meio selvagem. Não é lugar para aventureiros e
marinheiros de primeira viagem.
É possível fazer compras com moedas digitais?
Criptomoedas
estão sendo cada vez mais usadas para transações comerciais. O Japão e
outros países já vêm reconhecendo o bitcoin como forma legal de
pagamento. Mas o número de estabelecimentos que aceitam moedas digitais
ainda é restrito. Elas são mais utilizadas em transações comerciais
diretas entre pessoas.
Criptomoedas continuarão “alternativas” para sempre?
Não.
O governo das Bahamas lançou no último dia 20 a primeira moeda digital
oficial criada pelo Banco Central de um país. O Sand Dollar (“dólar de
areia”) tem um valor paritário com o dólar de Bahamas, que por sua vez
acompanha o valor do dólar americano. No último dia 12, Christine
Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, declarou: “Estamos
explorando benefícios, riscos e desafios operacionais de introduzir um
euro digital. Seria um complemento, não um substituto”. A decisão final
vai ser anunciada em 2021. Se aprovado, o euro digital deverá demorar
entre 18 meses e quatro anos para ser implementado.
Existe a chance também de um dólar digital?
O
Federal Reserve já anunciou o desenvolvimento de uma CBDC (“Moeda
Digital do Banco Central”). O MIT (Massachusetts Institute of
Technology) está colaborando no projeto. Uma das ideias é que cada
cidadão americano tenha uma conta digital no Federal Reserve para ser
usada em pagamentos de emergência (nos casos de pandemia, desastres
naturais etc.). Mas os EUA estão agindo com timidez na criação do dólar
digital. O país parece não ter entendido o tamanho da guerra financeira
que se avizinha com seu maior rival.
Então a China já está pensando em criar moedas digitais?
Os
chineses são os mais adiantados nesse processo. O Banco Central da
China pretende aprontar seu yuan digital a tempo para as Olimpíadas de
Inverno de 2022, em Beijing. O projeto faz parte do plano chinês mais
amplo de dominação geopolítica. Atualmente 60% das reservas em bancos
centrais estão em dólar — que é, na prática, a moeda global. A China
pretende fazer do yuan digital a moeda planetária que substituirá o
dólar. Resta saber que governos estarão dispostos a usar uma moeda
controlada diretamente pelo Partido Comunista Chinês. “A China está
declarando uma insurreição contra o sistema financeiro global e
especificamente contra a supremacia do dólar”, resumiu o jornalista
Steven Ehrlich, da revista Forbes. “Como toda insurreição, é motivada
por uma crença básica — a convicção do governo e do cidadão chineses de
que o país está pronto para afirmar sua liderança no mundo, não só
politicamente e militarmente, mas também em termos de comércio e
finanças.”
E o Brasil?
O
presidente do Banco Central brasileiro, Roberto Campos Neto, avisou que
o governo tem um grupo de estudos para criar o real digital. E que ele
pode ser lançado já em 2022. Faz parte de um pacote de modernizações do
Banco Central conhecido como Agenda BC# (que inclui o PIX e o open
banking). O projeto pretende iniciar as operações do real digital nas
áreas de turismo e câmbio.
É verdade que o Facebook pretende lançar sua própria moeda digital?
Sim.
O nome da projetada moeda é libra. Segundo Mark Zuckerberg, sua
intenção é incluir no mercado 1,7 bilhão de usuários do Face sem acesso a
serviços financeiros. E garante que o Facebook seria apenas uma das
empresas de um consórcio com sede na Suíça. O que parece ser uma ação
caridosa do bilionário Zuckerberg poderia desandar para uma catástrofe
financeira incontrolável. Tanto que as empresas eBay, PayPal, Mastercard
e Visa abandonaram o projeto. O prontuário de falhas de segurança do
Facebook é conhecido por todos. Segundo Neil Wilson, do site Markets, a
libra é “nada menos que uma tentativa de domínio global dos serviços
financeiros”.
Qual é a pior moeda digital do mundo?
Em
fevereiro de 2018, encurralado por sanções econômicas, Nicolás Maduro
pensou numa saída esperta para a situação: criou o petro, uma moeda
digital cujo valor estava vinculado ao preço do barril de petróleo
produzido pela Venezuela. Segundo o ditador, o petro permitiria ao país a
“soberania monetária” e conseguiria “novas formas de financiamento
internacional”. A nova moeda (desenvolvida com a cumplicidade secreta do
governo russo) foi uma catástrofe desde o primeiro dia. Nunca ninguém
conseguiu comprar nada com o petro, que se revelou um fiasco desastroso
do “socialismo do século 21” chavista. O repórter econômico Matt O’Brien
escreveu para o The Washington Post: “O petro deve ser o mais horrível
investimento jamais criado. Ele só pode ser comprado por estrangeiros e
só pode ser gasto por venezuelanos”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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