Ao alimentar o pânico face à Covid, os senhores que mandam não estão unicamente a medir o grau de humilhação que as massas suportam: estão a distraí-las do saque organizado pelo PS e seus aliados. De Portugal, a sarcástica crônica semanal de Alberto Gonçalves no Observador:
O
Governo quer homenagear as vítimas da Covid, através de um dia de luto
nacional a 2 de Novembro. É justo. Se ignorarmos o pormenor de a vasta
maioria de mortos “com” Covid não terem morrido “de” Covid e sim das
doenças bem mais graves de que padeciam, sempre são duas mil e tantas
pessoas. Ainda assim, são cerca de um terço das pessoas que morreram em
excesso face a anos anteriores, não “de” ou “com” Covid, mas
provavelmente por causa do desleixo a que foram votadas a pretexto da
Covid. Seis mil mortos, contas por baixo. Sete mil, noutras contas. Seis
ou sete mil criaturas que não merecem agora a homenagem do Governo,
como não mereceram durante meses os cuidados de que necessitavam e que
poderiam ter-lhes prolongado as vidas por um, cinco ou trinta anos. É
justo. Seria repulsivo que os principais responsáveis pelo adiamento e
cancelamento de consultas, tratamentos e cirurgias viessem, post mortem,
fingir mágoa pelas perdas em causa. Seis ou sete mil. Nisso o Governo
foi coerente.
E
coerente mantém-se. Ao proibir as deslocações entre concelhos no
fim-de-semana de finados (e fechar indirectamente cemitérios), o Governo
impede os familiares de homenagearem esses seis ou sete mil mortos. É
verdade que também impede os familiares dos mortos “com” e “de” Covid de
fazerem o mesmo. Porém, estes já beneficiam da homenagem do próprio
Governo, assaz sincera e respeitosa. Os mortos restantes não beneficiam
de nada, nunca beneficiaram. Dado que, por ordens superiores e histeria
geral, os hospitais praticamente se dedicaram em exclusivo aos pacientes
“com” Covid, os mortos restantes não tiveram direito aos serviços de
saúde que os poderiam ter salvo. Dado que os funerais não são festarolas
comunistas ou variedades burlescas (passe a redundância), os mortos
restantes não tiveram direito a cortejo fúnebre (a menos que três
indivíduos sejam um cortejo fúnebre). Dado que os seus familiares e
amigos não são políticos, polícias e demais agentes da subjugação e da
punição (os privilegiados que gozam de liberdade de movimentos), os
mortos restantes não terão direito a ser lembrados da maneira que tanta
gente gostaria de lembrá-los. Visto que ninguém os lembra ou vinga, os
mortos restantes nem sequer chegam a seres humanos. Deve ser por isso
que o respectivo homicídio, só relativamente involuntário, não é
considerado crime. Pelo contrário, os autores desses seis ou sete mil
crimes são chamados de “autoridades”. E a população obedece-lhes de
facto, brutalmente indiferente aos milhares de compatriotas que morreram
longe das notícias.
Não
contente em desgraçar-lhes a vida com clausura e miséria, o Governo
apropria-se da morte dos portugueses. E da ligeira dignidade que lhes
sobrava. Na semana passada, previ aqui duas coisinhas. A primeira era
que a famosa “app” não passava de um isco para implantar a máscara. A
segunda era que a imposição de proibições e obrigações delirantes
aumentaria exponencialmente, fosse na frequência, fosse na dimensão do
delírio. É tão fácil prever o comportamento dos tiranetes: logo após o
anúncio do confinamento concelhio para o dia de finados, o Parlamento
aprovou o uso constante da máscara ao ar livre, com penas de centenas de
euros para os hereges. Por acaso, e certamente estratégia combinada, a
proposta veio do PSD. É indiferente: tirando o da Iniciativa Liberal,
não houve votos contrários – pelo evidente motivo de que, no regime em
que entrámos, já não há oposição ou vestígio de escrutínio, há os
espantalhos necessários a um simulacro, desconchavado e reles, de uma
democracia. Para a semana, a pedido do PS, do PAN ou do BE, será
interditada a partilha de sofás, o tabaco na varanda ou o consumo de
sangria à tardinha. Malucos não faltam e, a julgar pelo número de
sujeitos que se mascaram em automóveis sem passageiros, não faltam
malucos prontos a segui-los.
Não
discuto a utilidade ou a benignidade da máscara: por todo o mundo,
incontáveis especialistas condenam a utilização com argumentos que, no
mínimo, são tão respeitáveis quanto os da ortodoxia dos “telejornais”. O
que me intriga é a submissão dos portugueses a “autoridades” que não
fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Ou fazem, o que é bastante
pior. Ao alimentar o pânico face à Covid, os senhores que mandam não
estão unicamente a medir o grau de infantilização e humilhação que as
massas suportam: estão a distraí-las do saque organizado pelo PS e seus
múltiplos aliados. O saque era apetitoso antes do vírus, e tornou-se um
regalo depois, com o “fundo de recuperação” que a nomenclatura raspará
até ao dito. É curioso, no sentido de absolutamente asqueroso, que os
dinheiros da “Europa” não patrocinem um SNS em frangalhos (ou a ajuda
dos, cruz-credo, hospitais privados), mas deslizem para as negociatas do
costume, embora mais às claras do que de costume. Se alimentar o medo
da Covid encerra algum simbolismo, o materialismo é decisivo.
Entretanto,
continuarão inevitavelmente a morrer pessoas “de” ou “com” Covid, um
terço das pessoas que evitavelmente morrerão sem Covid nenhum. Vêm aí
muitos dias de finados, uns sob a terra, outros em cima dela, reverentes
e pobres de pedir, os rostos ocultos como ladrões, a cumprir ordens de
criminosos e a imaginar que a vida é isto. Não é.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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