Os protestos acalmaram, mas agora o presidente tem um problema de outra
natureza: o desafio do secretário da Defesa ao uso de militares. Vilma Gryzinski:
Mark Esper falou manso, mas deu uma pancada pesada.
Uma que deixou Donald Trump com poucas opções – situação perigosa no caso de um presidente impulsivo.
Disse Esper, um secretário da Defesa de perfil baixo: “O uso de
forças da ativa em ações de policiamento só deveria acontecer como
último recurso e apenas na mais urgente e extrema das situações”.
“Não estamos numa situação dessas agora. Eu não apoio o Estatuto da Insurreição”.
Esper, descendente de libaneses por parte de pai com uma carreira
respeitável no Exército, mas sem o brilho e as estrelas de muitos de
seus antecessores, criou um problema único para Trump: uma crise
militar.
Não que faltem problemas para ele, desde a onda de protestos contra a morte de George Floyd
– alimentada também pela rejeição ao presidente – até a pandemia, que
só desapareceu das manchetes, não da vida real, onde já matou 110 mil
americanos.
Trump pode demitir Mark Esper? Com certeza.
Vai fazer isso? É possível.
Seria bom para ele? Péssimo.
Altas patentes da reserva condenaram o que consideram uma exploração
da Guarda Nacional e de elementos das Forças Armadas para reprimir
protestos.
Um acontecimento, em especial, arrepiou os fardados. A caminhada que
Trump fez na segunda-feira da Casa Branca até uma igreja episcopal salva
de um incêndio no dia mais violentos dos protestos em Washington.
Estava furioso com a imagem de vulnerabilidade passada com a
divulgação de que, por orientação dos agentes do Serviço Secreto, tinha
passado uma hora no bunker subterrâneo da Casa Branca.
Sem contar a todos os envolvidos, inclusive o secretário da Defesa, decidiu ir até a Igreja e exibir uma Bíblia.
Seria a imagem perfeita do “presidente da lei e da ordem”, como havia
se proclamado. E da religião também – a mensagem tácita da Bíblia na
mão.
Muitas coisas deram errado. Para tirar manifestantes que estavam no
jardim entre a Casa Branca e a igreja, uma ação que já estava
programada, forças da polícia patrimonial (cuida de parques e monumentos
públicos), além de militares, fizeram a “limpeza”, o tipo de operação
que sempre envolve uso da força (mas não de gás lacrimogêneo, como foi
erroneamente informado).
Tudo, revoltaram-se Esper e até um senador republicano, para Trump ficar “bem na foto”. Acabou ficando mal.
Esper disse que não sabia qual era o objetivo da caminhada quando participou do grupo de ministros que acompanhou Trump.
Sem as constrições do cargo que ocupou, um antecessor de Esper muito
mais estrelado, o general Jim Mattis, metralhou impiedosamente a
iniciativa de Trump.
“Dentro de nossas fronteiras, só deveríamos usar nossos militares
quando solicitados a fazê-lo, em ocasiões muito especiais, pelos
governadores estaduais”.
“Militarizar nossa resposta, como vimos acontecer em Washington, cria
um conflito – um falso conflito – entre os militares e a sociedade
civil”.
“Manter a ordem pública é atributo dos líderes civis estaduais e
municipais que conhecem melhor suas comunidades e prestam contas a
elas”.
Não poderia ser mais contundente.
Para sorte de Trump, os protestos violentos e a onda de saques refluíram, pelo menos até agora.
Nem é preciso dizer que protestos pacíficos, inclusive com uma adesão
simbólica de alguns policiais que se ajoelharam em público como forma
de simpatia pela causa antirracista, podem continuar até o fim dos
tempos.
Não faltam forças policiais nos Estados Unidos.
Só para dar uma ideia, em Washington, havia nove denominações
diferentes em ação (incluindo FBI, Serviço Secreto, DEA, Polícia dos
Parques e outras).
Quando os líderes locais exaltados por Jim Mattis (apelidado durante a
guerra do Iraque: Cachorro Louco) perdem o controle, existe a Guarda
Nacional, dividida por estados e acionada pelos governadores.
Aconteceu assim em Minneapolis, onde George Floyd foi morto e o
prefeito perdeu o controle por omissão, mandando policiais evacuar uma
delegacia, em seguida incendiada.
A Guarda Nacional acalmou a situação.
Com a reação de Esper e dos generais da reserva, Trump compreendeu
que não pode “chamar” a 82, a 101 ou outras divisões legendárias do
Exército.
Ele é o comandante-chefe das Forças Armadas, mas estas estão a serviço do país, não de um eventual ocupante da Casa Branca.
Idealmente, os manifestantes também entenderiam que os protestos
legítimos não devem ser sequestrados por adeptos do quebra-quebra que
não querem justiça, mas o fim do capitalismo, entre outros devaneios
A onda de saques e incêndios provocou prejuízos enormes a atividades
comerciais já baqueadas pela paralisação das atividades por causa do coronavírus.
Como sempre, os mais prejudicados são os pequenos comerciantes, muitas vezes cidadãos negros ou de outras minorias.
Os grandes têm seguro, os pequenos encaram um prejuízo muitas vezes insuperável.
Hoje vai ser mais outros dia decisivo. Determinará se a violência, contida por toques de recolher, reflui ou se aumenta.
O indiciamento dos três outros policiais, dos quais dois de origem
oriental, que acompanhavam Derek Chauvin no dia fatídico foi elemento
positivo para pacificar os ânimos.
O resultado detalhado da autópsia de George Floyd, já contestada
pelos legistas a serviço da família, diz que ele morreu de parada
cardiorrespiratória “complicada” pela forma como foi subjugado pelos
policiais.
E um detalhe tristemente irônico: ele deu positivo para coronavírus.
George Floyd tinha sido dispensado da casa noturna onde trabalhava
como segurança justamente por causa da paralisação de atividades
provocada pela pandemia.
E na qual prestou serviços durante 17 anos, também como segurança, o
policial que o subjugou, com um joelho no pescoço, Derek Chauvin.
É possível que nunca tenham se cruzado?
E é possível que Floyd tivesse bebido muito no dia de sua morte por desgosto com o desemprego?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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